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Intervenção no Rio: Teatro de marionetes

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:25

Sexta-feira, 23 de fevereiro

É como diziam os poetas Vinícius de Moraes e Carlos Lyra que acabou o nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções, também ninguém passa mais brincando feliz, e nos corações? Saudades e cinzas foram o que restou. Depois da folia, pelas ruas o que se percebe é uma gente que nem se vê, que nem se sorri, se beija, e se abraça, nem sai caminhando, nem dançando, nem muito menos cantando cantigas de amor. O carnaval disse adeus, foi para um planeta distante, do qual só voltará daqui a um ano, esplendoroso, em suas naves de fantasias, trazendo um mundo de ilusões passageiras.
Não o abandonemos de todo, por enquanto, falemos do carnaval, especialmente, do carnaval do Rio. E aqui, podemos falar de três carnavais: o da Marques de Sapucaí, cheio de brilho, luxo e fantasias e uma enxurrada de alegria; o dos blocos de rua que levaram milhões de foliões a extravasar o mal que lhes perseguiu o ano todo; e o carnaval deprimente da violência que não fez questão de se esconder dos turistas e dos próprios cariocas.
Há que se dar os créditos, é verdade, tanto para quem fez bonito, quanto para quem fez feio. Fizeram bonito, a Beija Flor de Nilópolis, com seu samba enredo crítico, Monstro é aquele que não sabe amar (Os filhos abandonados da pátria que os pariu), no qual falou das mazelas que a pátria amada tem enfrentado. Fez bonito também, a vice-campeã, Paraíso do Tuití, com seu enredo também crítico, Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão? Fizeram bonito também as demais escolas de samba cariocas.
Fez feio o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, que aproveitou o carnaval para passear pela Europa. Diz ele que foi em busca de melhores conceitos e soluções para a criminalidade na cidade. Ora, convenhamos, quando o teto está caindo não é hora de abandonar a casa e buscar soluções. Nessa hora triste é exatamente o momento de ficar em casa e socorrer, e orientar os que nela habitam. Deixa para buscar soluções quando a maré estiver mais calma, aí sim, vai a América, Europa, Ásia, África, ou seja lá onde for para buscar ajuda. Ah, o governador também não estava na cidade.
Para azar do prefeito e dos cariocas, exatamente no carnaval, o Rio virou um caos. Uma onda de assaltos e arrastões assustou os cariocas e os turistas. Não havia horário determinado para essas aberrações. Elas ocorreram de manhã, à tarde, à noite, sem nenhum critério. Um total desgoverno e uma imagem péssima para a cidade.
Não bastasse isso, ainda nesse período, imediatamente após o carnaval, um temporal desabou sobre a cidade, deixando ao menos quatro mortos, e uma onda de caos.
Em meio a esse desgoverno na área de segurança, o governo federal resolveu decretar intervenção militar no estado do Rio de Janeiro. E esse decreto se fez como se faz tudo na política brasileira: nas coxas, sem nenhum planejamento, sem estudo. É a típica situação: vamos fazer para ver no que que dá, depois a gente arranja um jeito, um remendo.
A intervenção militar não vai resolver o problema da violência no Rio. Não, claro que não vai. Pois o problema do Rio, requer um mais bem elaborado plano de inteligência pelas forças de segurança que realmente venha a conter a onda gigante provocada pelo crime organizado. Não só no Rio é assim, mas onde estão as forças de inteligência quando deixam que bandidos, sob a custódia do Estado, comandem o crime, mesmo estando atrás das grades, dentro dos presídios?
Onde estão as forças de inteligência, quando não mapeiam as áreas onde o consumo e distribuição de drogas se faz mais evidente. E quando deixam que os bandidos se armem e equipem melhor que a polícia?
Ademais, e indo mais fundo, o decreto presidencial a respeito da intervenção no Rio não resolverá o problema, por que, em sua raiz, em seu cerne, o problema da violência no Rio, assim como em todo o Brasil, é um problema social. Resolvam-no, e terão resolvido pelo menos uns 70% da questão.
Apliquem, senhores políticos, os recursos que os senhores, descaradamente, roubam dos cofres públicos, em saúde, educação, e segurança, e não teremos tantos problemas de segurança, porque os três tripés que impulsionam o crescimento de uma nação estarão bem apoiados, propiciando, que, cada brasileiro, cada brasileira, procure os rumos de seu destino com dignidade.
Também é verdade que não é só o Rio de Janeiro que sofre com a violência. Hoje, ela não é privilégio apenas daquele estado, mas de todo o país, em todas as capitais, a violência impera, em algumas mais, em outras menos, mas todas estão no mesmo caldeirão. Quem sabe, senhores políticos, se tudo isto não é fruto da desesperança que os senhores e senhoras espalham pelos esplendidos campos e cidades do Brasil.
Teatro de marionetes. Tudo encenação é o que representa este decreto do presidente Michel Temer a respeito da intervenção no Estado do Rio de Janeiro.
Para finalizar, este blog complementa estas ideias com o texto publicado no jornal, El País Brasil. O texto é de autoria do jornalista Rodolfo Borges, e é intitulado, O Governo suspeito de Michel Temer, e foi publicado no último dia 21.

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O Governo suspeito de Michel Temer

Demorou, mas Temer parece ter encontrado uma pauta na qual mesmo os desconfiados querem confiar. Todo mundo sabe que é um truque, mas bem que poderia dar certo
RODOLFO BORGES

Todo governante é suspeito — e deve ser. Mas Michel Temer é provavelmente o mais suspeito dos presidentes a comandar o Palácio do Planalto desde a redemocratização. E deve ser. Temer assumiu o comando do país em clima de “estancar a sangria” provocada pela revolucionária Operação Lava Jato e, desde então, as lâminas das guilhotinas morais do Ministério Público enferrujaram e descem fazendo mais barulho do que estrago. “É o golpe”, grita a parte da plateia que ignora que o Governo Dilma Rousseff acabou bem antes de terminar, pelas próprias trapalhadas — ou seria antes mesmo de começar, quando fraudou dados públicos para se eleger?
A golpes de mestre, o petismo vai conduzindo com a habitual competência, num último suspiro, sua orquestra de artistas amestrados. Como convencer a audiência de que um condenado é ainda mais inocente do que ele próprio se imagina? Talvez se ele fingir que quer concorrer à presidência… Nesse caso, a condenação não lhe tiraria apenas mais um de seus valorosos direitos constitucionais, mas furtaria ao povo a possibilidade de julgar seu benfeitor nas urnas. É como se o ex-presidente Lula perdesse o pênalti e o juiz mandasse voltar a cobrança para uma nova chance, como ocorreu, no fim do ano, na ópera do malandro com arranjos de Chico Buarque naquele latifúndio que era a lateral esquerda desprotegida do time de veteranos do MST — haja bola nas costas!
Enquanto isso, o Governo Temer seguia tropeçando nas próprias pernas a cada ato. Em qualquer outro governo, a escolha de uma mulher para comandar a Procuradoria Geral da República pela primeira vez seria cantada em prosa e verso pela intelectualidade nacional. Mas Raquel Dodge não era o primeiro nome da lista tríplice… Meses depois de escolhida, chegou a vez de a suspeita procuradora-geral suspeitar do presidente, que só poderia ter decretado seu benevolente indulto de Natal para livrar seus amigos da cadeia.
Pois, pasme, há quem enxergue nessa medida o grande ato progressista do Governo Temer — e, se é progressista, é bom, certo? O generoso indulto serviria para desafogar o abarrotado sistema carcerário nacional, causa aparente da expansão de facções criminosas pelo país. Ainda que essa interpretação fosse uma mentira, seria uma mentira bem agradável, daquelas capazes de eleger presidentes da República. Não adianta tentar explicar depois, porque o Supremo Tribunal Federal logo suspendeu os efeitos mais ousados do decreto, mas talvez tivesse adiantado explicar antes.
A falta de prática, no palco, de um político de bastidores parece ser responsável até pela escrita torta do presidente por linhas certas. A inflação caiu, assim como os juros, enquanto o PIB sobe aos poucos. Tudo graças a medidas como o teto de gastos, que expôs o limite do que o país tem para gastar, e a tímida reforma trabalhista, entre outros pequenos ajustes. Tudo feito para prejudicar o trabalhador brasileiro, claro, assim como a reforma da Previdência viria para exterminar os aposentados. O que mais esperar de um Governo que admite que cobra lealdade dos governadores após alardear que os beneficiou?
A sinceridade desengonçada do ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun (MDB-MS), gerou indignação dos “governadores do Nordeste”, que aparecem sempre que é preciso defender o Nordeste – ou atacar seus adversários políticos. Marun negou que estivesse chantageando os colegas em nome da reforma da Previdência, mas você ficaria com o ex-escudeiro do saudoso Eduardo Cunha ou preferiria se indignar, ainda que sem muita convicção, ao lado dos “governadores do Nordeste”? A narrativa, a fake news, a pós-verdade, como quiser, está do lado de quem?
Acuado e suspeito desde o início, Temer apostou na economia como plataforma política, e quase chegou lá. Conseguiu até quebrar a resistência geral em relação à reforma da Previdência, que se metamorfoseou de punição aos pobres para medida de combate à desigualdade — se é progressista, é bom, certo? Mas o esforço de meses parece não ter sido o bastante para levar a reforma a cabo. Que tal, então, resolver o problema da segurança no Brasil? Parece uma boa ideia. É pelo o que clama não apenas a população do Rio de Janeiro, que vai receber uma ajudinha do Governo federal.
Demorou, mas Temer parece ter encontrado uma pauta na qual mesmo os desconfiados querem confiar. Com relutância, claro, porque o Governo segue sendo suspeito. Todo mundo sabe que é um truque, mas bem que poderia dar certo… Só se fala na intervenção federal e, diante do caos que tumultua a capital fluminense, fazer qualquer coisa parece melhor do que não fazer nada. É uma ótima história, daquelas capazes de eleger um presidente… Agora, só falta resolver o problema da segurança no Brasil. Ou pelo menos convencer o público de que resolveu.

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