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Espelho, espelho meu

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:32
Terça-feira, 23 de maio


Antes da próxima postagem falando acerca dos escândalos de corrupção, convido-os a uma breve reflexão feita por uma anônima, e que circula pelo Whatsapp. Reflexão esta que se não é profunda na extensão do texto, é profunda em seu sentido, em seu significado. E porque é profunda apesar de breve? Porque ela nos chama atenção para as pequenas corrupções praticadas no dia. E como podem aqueles e aquelas que as praticam, jogar pedras nos políticos desonestos? Como podem tirar uma trave do olho do outro quando há um cisco no seu?

A corrupção no Brasil é muito mais um problema cultural do que um problema moral, e porque é um problema cultural acabou tornando-se um serio problema moral e ético. Por muito tempo se ouviu dizer dos brasileiros: “vou votar em tal candidato, mesmo sabendo que ele é desonesto, pois — aí vem uma afirmação perigosa — todos roubam”. E essa consciência torta levou o nosso país à beira do precipício. E, se não mudarmos nossa atitude mental em relação a essa questão precipitaremos de vez o país nesse poço sem fundo.

Esse recente escândalo envolvendo o presidente Temer e o senador Aécio Neves nos mostrou que a corrupção, a sede de poder, e ambição desmedida ultrapassou todo e qualquer limite. Mesmo estando estando em curso a maior operação policial que se desenvolve em conjunto com o judiciário, e o Ministério Público, o presidente da república, recebe, altas horas da noite, em sua residência, um empresário que ele sabia estar perante a justiça na condição de investigado em operações policiais, e, vê esse empresário relatar uma série de crimes, e ainda é conivente com ele, e mais ainda, em vez de pedir sobre ele mais uma investigação, esse presidente se cala.

O senador Aécio Neves, esse é outro que não merece mais o nosso respeito e nossa consideração. As delações da JBS tiraram o véu e mostraram-no como ele realmente é: um corrupto e hipócrita — coloque-se nesse rol a irmã dele, Andreia Neves, tão hipócrita quanto o irmão.

Em seus programas eleitorais gratuitos, o senador se proclamava autodesfensor da moral e da justiça, invocando prisão sobre os corruptos, e se apresentando, ele mesmo, como solução. Quando as primeiras denúncias desabaram sobre Aécio na Operação Lava Jato, Andreia chegou a chorar, afirmando-se inocente, e se colocava na condição de vítima que não tem como provar sua inocência. Santo Deus! Quanta falsidade!

O verme da corrupção se instalou também no judiciário e lá também fez seus santos do pau oco. Foi o que nos mostrou a prisão do procurador da república, denunciado pelos irmãos Batista, donos da JBS. Angelo Goulart Villela foi acusado pelos delatores de repassar informações valiosas a Joesley Batista, informando o empresário acerca de informações que envolviam o empresário. Angelo também, em frente das câmaras, se autoproclamava contrário a corrupção. Na Câmara dos Deputados, ele defendeu fervorosamente o projeto das 10 Medidas Contra a Corrupção, chegando a proferir na tribuna daquela casa legislativa, no dia 22 de junho de 2016, um forte discurso em defesa das 10 medidas.

No áudios da conversa, Joesley diz que também estava contando com a colaboração de dois juízes. E eles quem são? Será que não vão nos deixar saber quem é? Esse ponto ainda não foi abordado por ninguém. Tem passado despercebido. Os integrantes do MP devem saber, bem como Joesley, e porque não abrem a caixinha da Pandora logo de uma vez?

Por todas essas aberrações que temos visto ao serem revelados os depoimentos dos delatores, nos levam a conclusão de que o Brasil é árvore cuja raiz está podre. O inseto da corrupção foi corroendo toda a árvore desde a raiz em uma ação bem organizada, bem orquestrada. E nessa ação bem organizada estão envolvidos as bases principais de nossa sustentação constitucional. Se essa teia devastadora e nefasta da corrupção não tivesse encontrado respaldo no judiciário, no legislativo, nos bancos, nas empresas privadas, não estaríamos presenciando tudo isso. Faltou alguém que interrompesse o fluxo.

Mas quem fez isso? Ninguém. Todos, de alguma forma, estavam se beneficiando de tudo isto, enquanto o povo brasileiro ficava a ver navios.

Povo? Quem é o povo? Um conjunto de pessoas habitando o mesmo território e vivendo a mesma cultura? Um grupo de indivíduos ao redor de interesse comuns? É a massa para onde deve se dirigir o poder do Estado a fim de administrar a sociedade, e a ela servir? Sim. Povo é tudo isso. Mas, essencialmente o povo de uma nação é aquele que luta junto, que sonha junto, que trabalha junto pelo crescimento do país, e que está junto mesmo nas suas divergências, pois o povo busca a divergência para atrair a união. Ao final o que todos querem é o bem do país, é o bem comum.

Mas o povo é todos, e todos tem a sua cara, o seu rosto. Por isso o povo é uma unidade em sua diversidade.

Ao pensar em todas essas falcatruas, das quais somos informados pelos meios de comunicação, é bom que pensemos: estou eu sendo o homem, ou a mulher que o Brasil precisa? Com as pequenas corrupções eu referendo as grandes corrupções praticadas pelos políticos e empresários? Sim, pois se você, dentro do seu universo, e dentro daquilo que lhe permite sua linha de ação, você também é um corrupto em pequena escala, como pode jogar pedras em quem também pratica os mesmos atos que você de um modo maximizado?

Olhe para o espelho. Tenha a coragem de olhar para ele e encarar a verdade. Afinal, nesse momento de intimidade é apenas você e o espelho. Não faça perguntas tolas como fez a madrasta de branca de neve, tipo, “espelho meu, espelho meu, há neste mundo alguém mais bonita do que eu?” Não. fuja destas futilidades. Ao contrário, pergunte ao espelho: “espelho meu, espelho meu, estou eu fazendo meu papel de cidadão, ou de cidadã? Em que medida eu referendo a corrupção que vejo ser praticada nos níveis governamentais e empresariais?

Não se esqueça de que o espelho reflete aquilo que se apresenta diante dele tal como é. O espelho tem uma qualidade excelente que falta a muitos seres humanos: a sinceridade. Tente enganar o espelho para ver se consegue. Duvido que ele se deixe enganar.

Agora se você se olhou no espelho e viu que fez sua parte, então você não sente vergonha de baixar os olhos, nem sente vergonha de vergonha de si mesmo, ao contrário, sente que fez a sua parte. Então como diz a garotada “show de bola” “borá pra frente”, que ainda tem muita que precisa abrir os olhos, que ainda está cega. Você pode ajudar essas pessoas a abrir os olhos. Sempre se pode ajudar de alguma forma.

É verdade que temo-nos escandalizado com tanta sujeira praticada por nossa pobre classe política. Mas os políticos não caíram na presidência — à exceção de Michel Temer que caiu de paraquedas na cadeira presidencial — nem no congresso, de paraquedas. Eles foram eleitos. Isso mesmo. Ignoramos o óbvio quando fazemos nossas análises, alguém votou nesses representantes que aí estão, e que não representam ninguém.

Nas regiões mais pobres do país, as velhas raposas alimentam o povo de ignorância
. Quanto mais ignorantes os habitantes de tal e tal Estado melhor. Afinal, ignorante é como cego: não guia, é guiado.

Nas regiões mais abastadas, essas mesmas velhas raposas alimentam o povo com a sedução do poder, do dinheiro fácil, em contratos que apenas visam o interesse mesquinho.

Ah, mas você pode dizer: eu não sabia que ele era assim. Tudo bem agora, você já sabe. E vê, se nas próximas você usa melhor dessa arma tão importante que é o voto. Faça um favor ao Brasil: Não reelejam Renan Calheiros, Rodrigo Maia, Eunício Oliveira, Aécio Neves, e nenhum destes que aí estão. Apostem em novas lideranças. Elas existem? Não as vemos no horizonte, mas tenhamos a esperança de que elas surgirão.

Como povo, seja um pilar para a nossa nação, e o que faz um pilar: sustenta a casa. Durante décadas houve, no Brasil, uma profunda subversão do conceito de democracia que é o governo do povo, pelo povo e para o povo. Nesse conceito está contida a ideia do poder como serviço. De um Estado a serviço do povo, e quando digo povo, fala da totalidade do povo brasileiro, da massa que forma o bolo de nossa nação, e, como todos sabem, massa de bolo não é separada, é unida, grudada, senão não é bolo, é qualquer coisa, menos bolo.

Finalizando esta postagem, vamos à reflexão que havia, ainda no primeiro parágrafo, prometido compartilhar com vocês. Relembrando, a mensagem me foi enviada em vídeo pelo Whatsapp, e de uma anônima. Fiz a transcrição desse vídeo e a apresento a vocês. Pelo que se pode deduzir o vídeo foi gravado antes de a ex-presidente Dilma Rousseff sofrer impeachment, mas é muito atual e cai como uma luva no momento presente.

***

Mensagem de uma anônima transcrita de um vídeo do Whatsapp

Porque o problema não tá no ladrão corrupto que foi Collor não. Nem na fossa que foi Lula. O problema tá em nós como povo. Porque a gente pertence a um país em a esperteza é moeda que é sempre valorizada. É um país aonde a gente se sente o máximo porque consegue puxar a TV a cabo do vizinho. A gente frauda a declaração do imposto de renda pra poder pagar menos imposto. Onde há pouco interesse pela ecologia. Onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclama porque o governo não limpa os esgotos. Saqueia dos veículos acidentados. O camarada bebe e depois vai dirigir. Pega um atestado sem tá doente, só pra poder faltar no trabalho. Viaja a serviço de uma empresa e o que que ele faz? Se o almoço foi R$ 10, ele pede uma nota fiscal de R$ 20. Entra no ônibus se senta, se tem uma pessoa idosa, faz que tá dormindo. E querem que o político seja honesto. O brasileiro tá reclamando de quê? Como matéria-prima desse país a gente tem muita coisa boa. Mas falta muito pra gente ser o homem e a mulher que esse país precisa. Porque eu fico muito triste quando uma pessoa… Ainda que Dilma renunciasse, o próximo a suceder ela teria que continuar trabalhando com essa mesma matéria-prima defeituosa que somos nós mesmo como povo, e não poderá fazer nada, porque enquanto alguém não sinalizar o caminho dedicado a erradicar, primeiros os vícios que temos como povo, ninguém servirá não. Nós temos que mudar. Um novo governante para os mesmos brasileiros, não pode fazer nada não. Antes de a gente chegar e culpar alguém, botar a boca no trombone, a gente tem que fazer uma autorreflexão. Fique de frente pro espelho, e você vai ver quem é o culpado. E eu espero que nessa próxima eleição, dessa vez, o Brasil todo, ele realmente tenha noção do que realmente significa o poder de um voto.

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