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Tony Xavier: Um professor ensinando os alunos a voar nas asas do esporte

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:46
Segunda-feira, 25 de maio
No sertão, mãe que me criou
Leite seu nunca me serviu
Preta Bá foi que amamentou
Filho meu,e o filho do meu filho

No sertão, mãe preta me ensinou
Tudo aqui nós que construiu
Filho, tu tem sangue Nagô
Como tem todo esse Brasil
(Mãe Africaletra Sivuca / Interpretação: Clara Nunes)


Há uma música chamada, Ave Maria Sertaneja, da autoria de Luiz Gonzaga, que mais que música é um lamento, uma oração. Ela refere-se às seis horas da tarde: momento do dia no qual, os últimos raios alaranjados de sol, se despedem de nossa querida mãe terra, sempre na esperança de voltar a iluminá-la no dia seguinte. Momento misto de magia e melancolia, no qual a terra se prepara para ser envolta pela negra e escura noite. Para aqueles que professam a fé católica, ou pelo menos acreditam que há uma divindade feminina que, ao lado do criador, ajuda a conduzir o destino dos homens, é hora de elevar preces e orações à senhora do céu. Um rádio de pilhas, ligado em casa de algum sertanejo, ajuda a espalhar pelas veredas do sertão, e na sublimidade da hora, a oração cheia de sentimentos, composta e cantada, pelo também nordestino, Luiz Gonzaga. Assim diz a canção:

Quando batem às seis horas
De joelhos sobre o chão
O sertanejo reza a sua oração

Ave Maria
Mãe de Deus Jesus
Nos dê força e coragem
Pra carregar a nossa cruz

Nesta hora bendita e santa
Devemos suplicar
A Virgem Imaculada
Os enfermos vir curar

Ave Maria
Mãe de Deus Jesus
Nos dê força e coragem
Pra carregar a nossa cruz.

O pedido contido no refrão da oração do homem sertanejo, cantado por Gonzaga é tão simples quanto o próprio homem sertanejo: Nos dê e força e coragem para carregar a nossa cruz. O homem do sertão, mais do que ninguém, sabe o quanto é difícil o peso da cruz da seca, o peso da cruz do analfabetismo, o peso da cruz da falta de uma política agrária que possibilite aproveitar melhor os recursos da terra, e por aí vai.

Acredito que vem daí a celebre frase de Euclides da Cunha, no clássico romance, Os Sertões: O sertanejo é antes de tudo um forte.


Sertão e Blues. Blues e Sertão. Realidades geográficas tão longínquas e ao mesmo tempo tão próximas.

O que é necessário para se compreender as notas sentidas de um blues? É preciso mergulhar nas linhas melódicas de suas canções tristes e absorver toda a poesia que soa de uma guitarra que chora... E deixar-se envolver por ela.

E no sertão? Há beleza? O que fazer para percebê-la? Para que alguém possa ver beleza na região brasileira presente nos estados do Nordeste, chamada sertão, é preciso ver o encantamento de um entardecer emoldurando um céu flamejante... O balançar das folhas de um pé de aroeira... O verdejar da caatinga quando chegam as chuvas.

Porém, assim como nem todo blues é triste, nem tudo no sertão é melancolia. Em meio a todas as dificuldades há sempre um sol a brilhar. Todos os dias há um sol a brilhar. Esse sol abrasador que faz o sertanejo se sentir como se estivesse a arder em uma grande fogueira armada em meio a caatinga, também inspira pessoas a brilhar. São essas pessoas iluminadas que conseguem fazer a diferença, estejam elas em Nova York, Berlim, Paris, ou uma pequena cidade perdida em meio ao sertão.

A terra ressequida, semelhante à pele que recobre o corpo de uma centenária anciã, não impede que o nordestino deixe o negrume da inércia, e crie asas para sobrevoar, como pássaro livre, a solidão daquelas terras. No homem do sertão há: “Uma vontade obscura e incerta de ascender, de voar! Um desejo de se introduzir a grandes passos na imensa treva da noite, e a atravessar, e a romper, esquecido das lutas e trabalhos, e penetrar num vasto campo luminoso onde tudo fosse beleza, e harmonia, e sossego. Desejo de se integrar numa natureza diferente daquela que o cercava, de crescer, de subir, de bracejar num emaranhado de ramos, de se sentir envolto em grandes flores macias, de derramar seiva, a seiva viva e forte que o incandescia e tonteava”, assim escreve Raquel de Queiroz, no romance, o Quinze.


Semana passada, eu assistia ao Bom Dia Brasil, quando uma reportagem mostrando uma dessas pessoas que fazem a diferença, me chamou a atenção.

O cenário onde vive esse personagem é Solidão. Não! Não falo de nenhum sentimento humano. Falo de uma pequena cidade com menos 6.000 habitantes, no sertão pernambucano, que verdeja após as chuvas.

Professor Tony Xavier

A reportagem mostrava o trabalho de um professor de educação física, chamado Luiz Antonio Xavier Batista, mais conhecido como Tony Xavier. Tony tem 27 anos e é formado em Educação Física, por uma universidade de Recife. Após a faculdade, passou em um concurso público para professor da rede estadual de ensino. Não teve dúvidas, colocou o diploma na mala, o pé na estrada... E resolveu voltar às suas raízes. Há cinco anos, voltou para Solidão, a fim de ajudar os seus conterrâneos. Sua volta à cidade trouxe ao tão sofrido ambiente sertanejo, alegrias e vitórias para crianças e jovens, que haviam perdido a vontade de voar, ou talvez nem soubessem que possuíam asas. Desde que assumiu a vaga de professor de educação física na escola onde trabalha, a instituição de ensino já conquistou 40 troféus em 7 modalidades esportivas diferentes.

Esses resultados não são conseguidos com grandes verbas, nem a escola possui uma estrutura de primeiro mundo, muito pelo contrário, tudo é feito com pouquíssimo dinheiro e na base do improviso, devido a falta de espaço que há no ambiente. De primeiro mundo, talvez, seja mesmo o professor.

Tony Xavier planeja bem suas atividades para que seja tirado o máximo proveito dos horários e dos espaços que a escola oferece. Em uma sala de aula ele ensina tênis de mesa, terminada essa aula, é hora de começar o ensino de outro esporte, o judô. Pensam que o professor vai para outra sala, de forma alguma, as mesas de tênis são retiradas, arma-se o tatami na mesma sala, e os alunos de judô estão prontos para começarem as atividades. A concentração dos alunos em uma partida de xadrez acontece no silêncio da biblioteca. E assim, de improviso em improviso o professor ensina diversas modalidades e ajuda a formar alunos campeões.


A gente, através desses obstáculos, desses improvisos, a gente transforma a força de não ter uma quadra, em força de superação”, diz Tony Xavier, na reportagem do Bom Dia Brasil. Os alunos da Escola Nossa Senhora de Lourdes, local onde o professor exerce suas atividades, foram vice-campeões regionais, em uma área de 110 escolas, de 17 cidades. Excelente resultado. Com as vitórias no esporte os alunos também tem a chance de conhecerem grandes cidades, abrindo-se, dessa forma, novos horizontes para eles, tão acostumados a monotonia do sertão. Alunos de Tony Xavier já conseguiram a chance de disputar campeonatos em outros estados como São Paulo e Paraná. Isso para eles é uma grande vitória, pois nesses estados já há condições mais favoráveis à prática do esporte, diferentemente do que eles mesmos encontram em sua pequena cidade. O desempenho dos alunos que se sagram campões, motiva outros alunos a se dedicarem ainda mais a prática esportiva.  

Quando a gente vê pessoas mudando a dura realidade em que vivem; Quando a gente vê pessoas que enfrentam dificuldades que já fazem parte do cotidiano das escolas públicas brasileiras, e mais ainda das comunidades mais afastadas dos grandes centros, e que conseguem mostrar que há um mundo onde é possível sonhar, e tornar o sonho realidade, então a gente percebe quão vazios soam os discursos políticos oficiais, ao dizerem que não há verbas para educação. Aí é que a gente percebe que não é dinheiro que falta, mas sim vontade de arregaçar as mangas da camisa e fazer as coisas acontecerem.


Sem dinheiro, sem quadra poliesportiva, o professor Tony ensina: Aos alunos que podem voar alto e conhecer um mundo que eles só conheciam através da televisão e internet; Aos políticos, que para transformar duras realidades em realidades onde é possível que os sonhos se tornem reais, basta apenas querer; A nós todos, que, usando criatividade e força de vontade, é possível fazer a diferença no meio em que vivemos. 

2 Comments


Amigo José Flávio muito obrigado pela homenagem tanto a minha pessoa quanto aos meus alunos. O segredo de se fazer algo dar certo é trabalhar com amor e nunca desistir dos seus sonhos pois para aquele que crer nada impossível absolutamente nada. Ass. Professor Tony Xavier


Professor, fico feliz com seu comentário, e fico mais feliz ainda que no mundo existam pessoas que experimentam compartilhar aquilo que aprenderam e se tornam luzes a guiar aqueles que tem sonhos e esperanças, a alcançarem seus objetivos.

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