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Rodrigo Gularte: Um escravo do vício – Parte 2

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:43
Sexta-feira, 08 de maio



Enveredara por um caminho que o levara a beira do precipício. A luz do luar, em toda a sua intensidade, iluminava a clareira onde estavam. Um pássaro de canto triste passou voando próximo a eles. Rodrigo invejou a liberdade daquela ave. Ele também era livre quando criança, mas depois que fora apresentado ao inferno que é o mundo das drogas, tornara-se um escravo desses vãos prazeres. A droga lhe acenou, de início, um mundo ilusório de felicidade e euforia, depois lhe acenou com a possibilidade de ganhar dinheiro fácil com o tráfico.

Foi ainda na adolescência que havia descido ao abismo, quando, aos 13 anos de idade, começou a cheirar solventes. Daí em diante, foi mergulhando em águas mais profundas. Primeiro a maconha, ecstasy, depois cocaína e haxixe.

Sua vida poderia ter sido tão diferente, pensava Rodrigo. Ele nascera na linda cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná, em uma família de classe média alta. Seu avô é latifundiário, produtor de soja. Seu pai, Rubens Borges Gulart, é um médico de renome, e a mãe, Clarisse, milionária. Ele havia passado a adolescência na paradisíaca praia de Caobá, também no litoral paranaense. Depois se mudou para Curitiba. Passou a morar em um apartamento de alto luxo, com suíte e sauna, na cidade de Curitiba, estado do Paraná.

Quando criança, sempre tivera os melhores brinquedos, as melhores roupas, enfim, tudo de melhor que uma criança pode querer. Cresceu em meio à jovens de sua classe social. Circulava pela cidade sempre com carros da última moda. Além disso, viajava constantemente para o exterior, geralmente, seu destino eram as praias paradisíacas preferidas pelos surfistas. Quando estava no Brasil, deliciava-se com as ondas das belas praias do país. Seus pais sempre tiveram a preocupação de colocá-lo nos melhores colégios curitibanos. Entre as mulheres, tinha fama de jovem bonito e conquistador.

Rodrigo reconhecia que a mãe sempre fora superprotetora, mesmo quando ele se metia em alguma enrascada, ela dava um jeito de livrá-lo. Foi assim aos 18 anos, quando ele foi surpreendido pela polícia, fumando um baseado, em dos parques da cidade. Foi preso e seria processado, não fosse a mãe ter subornado um policial, pagando a este, a quantia de mil dólares. O pai não havia concordado com tal atitude, para ele Rodrigo teria respondido a um processo e pagado pelo ato irresponsável que cometeu.

Ainda aos 18 anos, ganhara o seu primeiro carro. A máquina o ajudou a cometer ainda mais loucuras pela América Latina, junto com amigos, em viagens nas quais drogas e bebidas eram artigos abundantes.

Enquanto seu olhar se perdia entre o suave luar da madrugada indonésia, ele se viu aos vinte anos. Era um rapaz alto, magro, bonito e educado. Brincou de amar, ao namorar Maria Roco, uma professora 13 anos mais velha que ele. Desse relacionamento nasceu o filho autista, Jimmy. Naquela época, não estava preparado para assumir a paternidade do garoto, assim como também não o estaria agora. Raramente procurava o filho. Também não se sentia pai do garoto, apenas tivera um “descuido”, e dele nascera uma criança. O que ele queria mesmo era sair pelo mundo afora, viajando, deitando-se em cada cidade, com mulheres de amores inconsequentes e de prazeres pagos, agia como se o mundo fosse um grande supermercado, cheio de belas mulheres nas prateleiras. O problema é que não eram apenas as mulheres. Havia haxixe, cocaína e ecstasy, dentre outros estimulantes, para acompanhar.

Lembrou-se de outra vez em que tivera problemas com a polícia e, mais uma vez, fora superprotegido pela mãe. Foi aos 24 anos. Ele dirigia o carro, após sair de uma mais balada, em um dos clubes noturnos de Curitiba. Completamente bêbado, bateu com o carro em um táxi. Ao tentar fugir, bateu em outro carro. Conseguiu fugir da confusão e correu para casa. Quando a polícia bateu na casa deles, a dona Clarisse, conseguiu convencer a polícia de que ele tinha problemas de saúde e que precisava ser internado. Foi internado e o médico escreveu que ele demonstrava onipotência e que estava depressivo.

Posteriormente, a mãe procurou mantê-lo ocupado de diversas maneiras. Em Curitiba, montou uma empresa de crepes. Em Florianópolis, montou uma casa de massas. Ambas as iniciativas fracassaram. A família resolveu mandá-lo para a fazenda, na esperança de que o ar campestre ajudasse a clarear suas ideias. Depois o mandou para estudar no Paraguai. Trouxe-o de volta e o matriculou em universidades brasileiras. Nenhuma dessas iniciativas deu certo. O fantasma da droga sempre atrapalhou todos esses planos. Curiosamente, a única coisa que a família não fez, foi interná-lo em uma clinica para dependentes químicos, talvez pelo fato de não querer enxergar a realidade, talvez tivessem dificuldades em admitir que ele era um dependente químico em potencial.  Até que apareceu a larga estrada do tráfico, com sua promessa de obter dinheiro fácil, em pouco tempo. As viagens internacionais foram intensificadas, e em cada uma delas, mais dinheiro fácil.

Os negócios com o tráfico iam dando lucro fácil, até que foram interrompidos, no sábado, dia 31 de julho de 2004. Naquele ano, cursava administração na cidade de Florianópolis, onde também estava morando. Entretanto não havia abandonado a atividade de traficante. Encheu oito pranchas de cocaína, ao todo, seis quilos. Colocou-as no carro e foi até Curitiba. Do Aeroporto Internacional Afonso Pena, seguiu para São Paulo, depois voou para Johanesburgo, na África do Sul, sempre acompanhado das pranchas recheadas de cocaína. Com ele, viajavam outros dois amigos. Estes nem desconfiavam que Rodrigo estivesse levando droga dentro das pranchas. Da África do Sul, seguiu para a Indonésia. Estava tranquilo, afinal já havia passado por três aeroportos e os aparelhos de raio-x não haviam detectado nada de anormal.




Não seria diferente também, na Indonésia, pensava ele. Já havia passado pelo aeroporto de Jacarta por diversas vezes, nenhuma delas com drogas, é verdade. Tinha conhecimento de que as leis antidrogas na Indonésia eram severas. Em vários locais, dentro do próprio aeroporto, havia notado cartazes advertindo aos recém-chegados, de que a pena para os que tentassem entrar no país com drogas, era o pelotão de fuzilamento. Dentro do avião, minutos antes da aterrissagem, os passageiros recebiam orientações semelhantes. Ele também havia acompanhado, pelos jornais, o caso do brasileiro, Marco Archer, preso pela polícia indonésia, quando tentava entrar no país com cocaína dentro de tubos de asa delta, e condenado à morte pelo governo do país. O brasileiro tivera muito azar, pensava ele. Com ele, Rodrigo, não aconteceria a mesma coisa. Ele daria mais sorte que o Marcos. Estava confiante nisso. Além do mais, sempre fora muito corajoso, destemido. Pegando ondas, era o que mais se arriscava em cima da prancha de surfe.

Porém, a sorte não lhe sorriria naquele fatídico 31 de julho. O equipamento de raio-x detectou a presença de cocaína nas pranchas, e ele foi detido. Assumiu, sozinho, a culpa pelo crime e os amigos que viajavam com ele foram liberados.

Foi levado para Tangerang, uma prisão provisória nos arredores de Jacarta. Foi lá que conheceu o brasileiro Marco Archer. Os dois logo se deram bem. Afinal, as afinidades entre os dois eram inúmeras: falavam a mesma língua, vinham da mesma cultura, eram traficantes, viviam em baladas, nunca tiveram um emprego fixo, não haviam terminado os estudos, e exploravam financeiramente as famílias.

Tangerang era para eles como uma pensão de luxo, o único inconveniente era o de que alguém havia jogado fora as chaves da pensão. A Indonésia, apesar de suas rígidas leis contra o tráfico, é como qualquer país do mundo: Quem tem dinheiro, sempre acaba tendo maiores privilégios. E os dois brasileiros tinham dinheiro: Rodrigo um pouco mais que Marco, porém, os dois estavam longe de serem pobretões.

Na “pousada” eles tinham serviços do bom e do melhor. Os presos mais pobres exerciam o papel de empregados dos mais ricos. Eles faziam serviços de lavagem de roupa, cabeleireiro, e ainda serviam como garçons em festas. Os outros presos dividiam a cela com mais outros dez. Eles, ao contrário, viviam em celas individuais, equipadas com televisão, ventilador, geladeira, forno elétrico e outras facilidades. O Marco havia feito curso de chef de cozinha, na Suíça, de forma que eles comiam do bom e do melhor, mesmo na prisão. Desfrutavam até de um pequeno jardim, no qual criavam pássaros, criavam peixes em um pequeno lago, podavam bonsais. A gata Tigirnha, da qual cuidavam com carinho, era o xodó deles. Claro, tudo isso custava dinheiro, e custava caro. Dinheiro que era enviado, com facilidade pela mãe de Rodrigo, e com um pouco mais de dificuldade pela de Marco.

Ele e Marco tinham a certeza de logo sairiam daquela enrascada. Ele, Rodrigo, acreditava que os amigos influentes que a mãe tinha no meio político, logo interviriam junto ao Itamaraty e as portas daquela prisão se abriria para eles. Ele se divertia muito com o Marco relembrando as aventuras que tiveram antes de ir parar naquele lugar. Parecia não estar muito preocupados com o fato de ter que ficar face a face com o Criador, quando estivessem na mira do pelotão de fuzilamento. Ironizavam com isso, como se esse fato jamais fosse ocorrer.

Os dois faziam planos para quando deixassem a prisão. Primeiro se reuniriam em praia de Florianópolis, tomando uma cerveja bem gelada e rindo da fria em que se meteram. Escreveriam um livro falando sobre a experiência, o livro se tornaria um best seller, e eles ficariam famosos. Depois viriam diários na Internet, coberturas jornalísticas, quem sabe o livro também não fosse adaptado para o cinema?

O único arrependimento que demonstravam, a única coisa que os aborrecia era o fato de terem sido pegos no aeroporto pela polícia indonésia. Maldita hora em que não esconderam bem a droga. Não fosse esse lamentável incidente, estariam àquela hora deitados em alguma praia paradisíaca, rodeados de belas mulheres, muita bebida e droga da melhor qualidade.

Rodrigo se lembrava de uma entrevista que dera a um repórter de um semanário brasileiro de grande circulação. O repórter lhe perguntara o que ele iria fazer depois que saísse da prisão. Ele dissera: “Bota aí que eu quero trabalhar dez anos pro governo dando palestras pra crianças sobre a roubada que é o tráfico”. Ele estava fumando um cigarro, com a gata Tigrinha, no colo. Lembra-se que ficou sério pensando nas palavras que dissera ao repórter. Em seguida jogou para cima a fumaça do cigarro, e depois quase se contorceu de tanto rir, com as palavras que ele próprio dissera.

De vez em quando, a luz da realidade visitava a mente deles e eles pensavam na prisão, em uma ilha ao Sul ao do país, para a qual seriam transferidos, e isso os deixava tristes. Afinal, lá não haveria tantas regalias.

Após a condenação, vieram os pedidos de clemência do governo brasileiro, feitos tanto para ele, quanto para Marco. Também foram apresentados exames atestando doença psiquiátrica para ele, Rodrigo. Os pedidos de clemência não comoveram o governo indonésio, muito menos os exames atestando sua doença.




Essa política severa contra os traficantes foi introduzida no país pelo general linha dura, Togar Sianipar, chefe da agência antidrogas da Indonésia. Rodrigo reconhecia que ele e Marco não haviam conquistado a simpatia dos indonésios. Em seu julgamento, no tribunal, a população gritava raivosa: “Morte aos traficantes ocidentais cristãos”. Para começar, quando Marco conseguiu fugir do aeroporto, dando início a uma caçada cinematográfica, transmitidas pelas redes de TVs do país. Foi capturado quinze dias depois, em uma ilha do arquipélago indonésio, tentando chegar ao Timor Leste. Talvez por isso, os pedidos de clemência do governo brasileiro não tenham encontrado respaldo junto ao governo da indonésia.

A transferência para a prisão na qual estavam agora, e a proximidade do fuzilamento, o fizeram perder um pouco da lucidez, e ele alternava momentos de lucidez, com momentos de loucura. Esse quadro piorou ainda mais quando Marco foi fuzilado, em Janeiro deste ano.

Agora chegara a vez dele. Falharam todas as tentativas de escapar com vida daquela enrascada.

Rodrigo trouxe de volta seus sentidos à clareira, no momento em que o pelotão de fuzilamento apertava o gatilho. Ele ergueu os olhos para o céu, para a lua prateada que pairava acima das árvores da clareira. Aquela era a última imagem que ele queira levar da vida terrena. 

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