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Parabéns pra você, ao som do Berimbau

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 19:42
Sexta-feira, 09 de maio




 José FlávioQual o motivo da comemoração da roda de hoje?

Mestre Salário — Nós fizemos uma atividade hoje em comemoração aos meus 40 anos de idade e 26 anos de capoeira. Vieram mestres de capoeira de vários lugares; Mestre Museu, da Fundação Capoeira das Gerais, de Belo Horizonte, os monitores instrutores de Belo Horizonte vieram também. Mestre Sabugão, de São Paulo, Mestre Topete de Campinas. Mestre Vanildo, de Cosmópolis, Contra-Mestre Índio, Professor Maranhão, de Americana...

Nesse momento da entrevista somos interrompidos, por um aluno do Mestre:

Aluno Mestre, é para eu levar o atabaque?

Mestre Salário — Sim, é para levar o atabaque. Eu só estou dando uma entrevista aqui, só um momento, por favor. Enquanto o aluno que o havia inquirido se afasta, o mestre continua...

... Mestre Manjuba, de Americana, o pessoal de Rio Claro, de São Paulo, o pessoal de salto e os capoeiristas de Campinas e Região, que vieram prestigiar essa festa, não só pelo meu aniversário, mas pela capoeira, que reúne os amigos. Essa é uma roda de amigos. O importante é a gente estar fazendo nossa arte, diversificação e união da capoeira, pois os valores estão agregados, não só em um grupo, mas na capoeira em geral. No mais, é isso aí, a capoeira como um todo, não como uma divisão de águas.

José FlávioQual a importância para o senhor, de comemorar o seu aniversário numa roda de capoeira, junto a tantos amigos?

Mestre Salário — Na verdade, hoje eu não estava conseguindo nem erguer a perna. Não dormi direito. Mas quando os amigos aparecem na roda de capoeira, quando os amigos chegam, a energia e a alegria são tantas que a gente esquece o tempo, esquece o que esta acontecendo...

Nesse momento, somos novamente interrompidos por um amigo do Mestre que veio lhe desejar a paz do altíssimo:

Paz do Senhor!

­— Paz do Senhor, meu irmão!

O amigo se afasta e o mestre Salário continua:

... E a gente acaba deixando com que a alegria e a capoeira nos levem. É bom a gente ter essa oportunidade de estar perto dos amigos. Meus amigos de verdade estão aqui. Não são amigos que vieram pra dividir, mas sim pra somar. Então todos que participaram da roda hoje, saíram daqui felizes, pois jogaram, cantaram, sorriram, se divertiram. Esse é o nosso principal objetivo na capoeira: somar em vez de dividir. É alegria total. Hoje eu estou muito feliz, meus quarenta anos, na verdade a data do meu aniversário é mesmo amanhã, que é dia 04 de maio. 40 anos de idade, 26 anos de capoeira eu fiz o mês passado, dia 22 de abril, mas isso é o que menos importa, o importante é isso, ver muitas crianças na roda de capoeira, que vão levar a capoeira mais adiante. Daqui a um tempo, (o mestre se referia nesse momento a um futuro distante, limitado pelas deficiências da velhice) eu não poder mais jogar capoeira, daqui há uns 20, 30 anos, mas esses alunos vão levar a tradição da capoeira pelo mundo afora. Hoje é mais fácil, basta você ter um bom profissional, um bom educador, uma pessoa que tem compromisso com a capoeira. Isso é o mais importante de tudo. No mais, gostaria de agradecer a Deus do céu, pela oportunidade de estar aqui fazendo novas amizades.

***





Essa conversa se deu ao final de uma apresentação de uma roda de capoeira, no coração do centro comercial de Campinas, no último dia 03. Era um sábado pela manhã, próximo ao meio-dia. Principalmente em dias de sábado, o centro da cidade vira um formigueiro humano. Pessoas passam com sacolas de compra, outras apenas passam pelo local, as lojas anunciam os seus produtos em alto e bom som. Grande número de carros trafega pelas ruas e avenidas paralelas, tornando o trânsito intenso. Em resumo: sábado no centro de Campinas é uma loucura.

Diante de mim estava Mestre Salário, um homem com o coração cheio de alegria. Uma alegria contagiante que se manifestava no seu sorriso, nos seus olhos, no jeito carinhoso de cumprimentar os amigos. Era o seu aniversário de 40 anos de idade e 26 anos de capoeira e ele resolveu chamar alguns de seus muitos amigos para comemorar em clima de festa, numa vibrante roda de capoeira.



A festa acontecia na Praça Rui Barbosa que fica entre os fundos da Catedral Metropolitana de Campinas e centenas de estabelecimentos comerciais. Fossem algumas décadas atrás, estaríamos entre um templo religioso e um templo da arte, pois exatamente onde fica uma dessas lojas de departamento, foi o lugar de um belíssimo teatro, símbolo da arte e da cultura campineira: o Teatro Municipal de Campinas. Esse templo da cultura foi demolido em 1965.   A casa de espetáculos foi derrubada em meio a muita polêmica, na administração do prefeito Ruy Novaes.

Quando cheguei a Praça, a roda já havia começado. De longe já comecei a ouvir o toque festivo do berimbau. Havia muita gente em volta do grupo de capoeiristas. Havia muitas crianças na roda. Mestre Salário desenvolve um trabalho com capoeira voltado ao público infantil. Subi os poucos degraus para uma espécie de grande palco que fica bem no centro da praça para ver se conseguia melhor angulo para uma fotografia. Depois de fazer algumas fotos, desci e fiquei mais próximo dos capoeiras. Enquanto o berimbau tocava e os capoeiras jogavam, fiquei observando as emoções nas faces das pessoas, tanto as que rodeavam os capoeiristas, quanto aos curiosos e apreciadores que pararam para ver a beleza da festa. Para onde quer que olhasse e para quem olhasse só conseguia ver a alegria estampada no rosto das pessoas.






As crianças jogavam capoeira entre si e também tiravam os adultos para o jogo. Uma hora a capoeira era jogada de mestre para mestre, outra hora entre discípulos e mestres. Outras vezes, entre discípulos e discípulos.  Fiquei observando a alegria com que as crianças se entregavam a luta. Capoeira é isso; alegria, integração, domínio do corpo.



A capoeira é um jogo bonito, traz paz, felicidade. Cuidado, porém. A capoeira também é traiçoeira, mandingueira. Se usada em toda a sua potência, a capoeira pode ser uma luta mais violenta que o Kung Fu ou Karatê. Daí a importância dos Mestres insistirem com seus discípulos a usar a luta como defesa e não como ataque. Tive oportunidade de fazer essas reflexões na própria roda a que assistia. Em um determinado momento, jogavam, no centro da roda, Mestre Salário e Mestre Topete. Ginga daqui, ginga de lá, passou um capoeirista próximo ao Mestre Salário, no momento em que ele erguia a perna para “golpear” Mestre Topete. Sem querer, a perna de Mestre Salário atingiu o capoeirista. Resultado: ele teve que sair da roda por alguns minutos para ser atendido e se recuperar do golpe. Olha que ele era um moreno alto e forte, como diria na linguagem das academias, “sarado”. Imagine se fosse alguém mais fraco? Ou se o golpe de capoeira tivesse sido intencional. Enfim, depois de alguns minutos, o jovem voltou a roda e continuou a brincar como se nada tivesse acontecido.




Como em toda festa de aniversário não pode faltar a música mais famosa do mundo, nos momentos finais da brincadeira, foi a vez de cantar “Parabéns pra você”. Os amigos se reuniram em volta do Mestre Salário e a alegria foi geral. As crianças todas, presentes à roda, saudaram o mestre com o jogo da capoeira e o mestre jogou, mesmo que por alguns breves instantes, com cada um. Enquanto a roda se desfazia, fiquei aguardando por mais alguns minutos para poder conversar com o aniversariante, conversa essa que abre o texto.



1 Comments


Capoeira é vida......

Obrigado meu amigo pelas palavras, viver e conviver, ter a oportunidade de fazer história, levar a capoeira adiante, este é meu compromisso a capoeira, com meu Mestre, meus amigos e alunos... Deus na minha vida e foco... segredo da conquista.... abraço.....

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