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20 anos sem o mito Ayrton Senna da Silva – Parte II

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:27
Domingo, 04 de maio

Somos feitos de emoções, procuramos as emoções. É só uma questão de descobrir a forma de experimentá-las. Há muitas formas de sentir emoções. Mas há uma coisa diferente, uma coisa em particular, que a Fórmula 1 pode oferecer. É que você pode sempre estar exposto ao perigo, o perigo de se ferir, o perigo de morrer.

(Airton Senna)




Foi assim, que aos 22 anos, me vi morando sozinho em Eaton, periferia de Norwich,  localizada cerca de 160 km à noroeste de Londres. Distante do Brasil, minha terra querida, dos amigos e da família, passei a viver automobilismo, a respirar automobilismo. Concentrava-me totalmente nos treinos e, nos dias de folga, visitava alguns amigos brasileiros que também estavam envolvidos com o automobilismo, como veem não havia como me afastar dessa atividade.

Quando cheguei à Inglaterra em 1981, corri para a equipe de Ralph Firman. Em 1982, mudei para a equipe Rushen Green, de Dennis Rushen. Ganhei atenção do mundo do automobilismo quando comecei a vencer campeonatos na Inglaterra e em toda a Europa.

Ainda no final de 1982, passei a competir na categoria Fórmula 2000. Em 1893, estreei na Fórmula 3, que era a minha meta desde que pus os pés em solo inglês. Como já disse a vocês, a Fórmula 3, era o último degrau para o meu sonho na Fórmula 1, e eu não iria desperdiçar essa oportunidade. Naquele momento me veio à mente todos os momentos em que treinava exaustivamente, debaixo de chuvas intensas, nas pistas de Kart, no Brasil. A vontade de vencer e de fazer as coisas com excelência era uma voz que se fazia imperativa em minha mente. Além do compromisso assumido com os meus patrocinadores havia a questão pessoal. Nunca havia gostado de fazer as coisas pela metade. Sempre tive em mente que, quando se tratava de compromisso, esforço e dedicação, não há um meio termo, ou você faz bem feito ou não faz.

Quando decidi que superaria aquele meu vexame, em minha primeira corrida na chuva, na pista de Kart, era porque já estavam depositadas em minha personalidade as sementes da vontade de melhorar sempre. Gostava, e ainda gosto, de ver as coisas melhorando, isso me deixa feliz. Se as coisas não avançam, se não vejo resultados, melhoras, isso me deixa chateado. Isso não era apenas um modo de agir profissionalmente, como piloto, tinha algo a ver com a minha personalidade, é algo que era inerente a mim.

Quando sai do Brasil e resolvi seguir meu caminho, sozinho, em um país estranho, estava apenas seguindo o caminho traçado pela minha imaginação. Pois, na vida, só há dois caminhos a seguir. Um é mais seguro, mais confiável e no qual você encontrará uma infinidade de amigos, enfim o que te oferece uma zona de conforto maior. É o caminho que a maioria prefere seguir. A outra opção é a mais difícil, o caminho das pedras, digamos assim. É o caminho mais solitário, e nele você receberá mais criticas. Esse, porém, é o mais criativo, aquele no qual você pode deixar fluir a sua originalidade em grau máximo. Acho que não importa quem você seja, onde esteja, ou o que faça e queira na vida; a semente da ousadia plantada em seu coração irá refletir-se em sua personalidade, no seu caráter. Formará em torno de você um campo vibratório tão forte, que as pessoas se lembrarão de você até muito tempo depois de você ter ido embora. É sua coragem em ser diferente, em pensar diferente, que irá deixar sua marca indelével na vida.

Todo o esforço e dedicação a que me propus, valeu a pena. Em 1984, cheguei à Fórmula 1, através da pequena Toleman. Apesar das dificuldades e limitações da equipe que me contratou, não deixei para trás o meu compromisso de ser o melhor, de fazer o meu melhor. Afinal, se a Toleman não era prospera em recursos e seu eu, além disso, desanimasse, estaria assinando o meu próprio fracasso, e isso estava longe dos meus objetivos. Em minha primeira temporada, consegui pontuar em cinco corridas e fechei o ano com 13 pontos, ficando na 9a posição na classificação geral dos pilotos.

Meu desempenho na pequena Toleman chamou atenção de grandes equipes. Uma delas me procurou e me ofereceu um bom contrato: a Lotus. Resolvi trocar de equipe, pois visualizava melhores condições de progresso e desenvolvimento profissional e pessoal. Troquei a Toleman pela Lotus e, por coincidência, voltei a morar no condado de Norfolk.



Uma das minhas melhores recordações na Lotus foi um GP disputado em 1985, em Estoril, Portugal. Era minha primeira corrida na Lotus e chovia torrencialmente naquele dia. Se houvesse barcos na pista em vez de carros de Formula 1, estaríamos bem melhor acomodados. Muitos pilotos rodaram na pista e não conseguiram terminar a corrida. Eu até que estava aguentando firme, mesmo sob todo aquele temporal. Fazia malabarismo para desviar das poças d’água e estava conseguindo driblá-las com certa facilidade. Não havia cometido nenhum erro. Apesar do tempo adverso, eu fazia uma corrida perfeita. Então, de repente, errei. Saí para a grama. O carro ficou de lado. Consegui, com um golpe de direção, fazer o carro voltar à pista. Naquela tumultuada corrida, obtive a minha primeira vitória na Fórmula 1, e também a minha primeira pole position.

Após a corrida, os caras da equipe, começaram a me dizer: “Meus Deus, que controle incrível do carro, você tem”. Você é excelente”. Eu apenas respondi sendo sincero com eles: “Acreditem, tive foi muita sorte. Perdi o controle do carro e nem sei como voltei à pista”.



Em 1988, mudei novamente de equipe. Fui para a MacLaren. Fui trabalhar ao lado de um cara a quem respeitava muito: o francês, Alan Prost. Quis o destino que Prost se tornasse, nas pistas, um dos meus maiores rivais. Mas isso são águas passadas no rio do tempo. Foi na Maclaren que vivi os meus tempos de glória. Lá eu conquistei o meu primeiro e tão sonhado título mundial. Foram três ao todo; 1988, 1990 e 1991.

Em 1994, troquei a MacLaren pela Williams com carro bem superior aos demais. Era considerado o favorito ao título. Na pré-temporada, descobri que o carro era muito rápido, mas difícil de dirigir. Aliado a isso, a Federação Internacional de Automobilismo, havia proibido o uso de sistemas eletrônicos, com o argumento de que essa medida tornaria o esporte “mais humano”. Com isso perdemos itens importantes como; suspensão ativa, controle de tração e freios ABS.

A primeira corrida da temporada de 1994 aconteceu no Brasil, em Interlagos. Fiz a pole. Na corrida, as coisas não saíram do modo que eu esperava. Michael Schumacher conseguiu me ultrapassar na volta de número 21. Em minha determinação de vencer em minha própria terra, fiz uma manobra errada, perdi o controle da Williams, rodei na curva e fiquei preso na zebra, não restou outra alternativa senão abandonar a corrida na volta de número 55.

Na segunda corrida, ocorrida no Japão, não tive muita sorte. Novamente consegui a pole, porém, de novo, os acidentes me tiraram da prova. Foi o pior início de temporada em toda a minha vida.

Enfim, chegou o difícil momento do capítulo final da história de minha vida.



Havia, novamente, conseguido a pole no circuito de Ímola, no GP de San Marino, na Itália. Naquela corrida minha  cabeça estava como um turbilhão: tristeza e preocupação eram constantes naqueles instantes finais. O motivo eram dois acidentes ocorridos na pista. O primeiro foi na sexta-feira à tarde, quando o amigo brasileiro, Rubens Barrichello, durante treino classificatório, envolveu-se em um grave acidente. Rubens perdeu o controle da Jordan, voou pela pista e foi chocar-se contra uma barreira de pneus. Como resultado desse acidente, ele quebrou o nariz e teve ferimentos leves. Fui conversar com ele e, ao ver que estava bem, fiquei mais tranquilo.

O piloto austríaco Roland Ratzenberger, não teve a mesma sorte nos treinos livres de sábado. Na curva Tamburello, a asa traseira do carro dele se soltou e ele não mais conseguiu controlar o veículo, batendo, violentamente, na curva Villeneuve. Ratzenberger ainda foi levado ao hospital com vida, mas morreu oito minutos depois. Eu estava assistindo aos treinos e fui testemunha do acidente. Isso me abalou profundamente. À noite consegui me tranquilizar um pouco, ao jantar com amigos brasileiros e, no domingo, estava de volta ao circuito.

Antes disso, após esses acidentes, havia me reunido diversas vezes, naquele fim de semana com os dirigentes e outros pilotos, tentando reativar a antiga Comissão de Segurança dos Pilotos. Sabia que era preciso melhorar a segurança na Fórmula 1, e me ofereci para liderar essa luta, que não era uma luta minha, mas de todos os pilotos.

As coisas pareciam não caminhar bem naquele fim de semana. A corrida começou de forma tumultuada. O carro do piloto J.J. Lehto morreu na pista. Todos os pilotos conseguiram desviar, um não conseguiu: Pedro Lamy. O piloto da Lotus atingiu a parte traseira do carro de Letho, fato que obrigou o safety car a entrar na pista por cinco voltas.

Na sexta volta, a corrida teve seu reinício.



Eu liderava a prova. Michael Schumacher e Damon Hill vinham logo atrás. Quando entrei na curva Tamburello, perdi o controle do carro, passei reto e fui me chocar diretamente contra um muro de concreto. Naquele momento, perdi a consciência. O Brasil parou... O mundo silenciou... Meus companheiros de equipe puseram, alguns puseram as mãos na cabeça... Outros usaram as mãos para escondê-la entre o rosto. A preocupação era geral. Todos temiam pelo pior.

Devido ao choque, sofri uma parada cardíaca. Os médicos que me atenderam ainda na pista, constaram perda de massa encefálica e realizaram uma traqueostomia em mim. Fui levado ao hospital Hospital Maggiore de Bolonha, o mesmo por onde havia passado Barrichello na sexta, e Ratzemberg, no sábado. No Maggiore, os médicos realizaram em mim uma transfusão de sangue, o que me ajudou a me manter vivo por mais algumas horas. Apesar de todos os esforços feitos ainda na pista e no hospital, os médicos constataram que não havia mais atividade neurológica, então fui declarado morto.

Sempre usava, em minhas vitórias, uma bandeira do Brasil no alto do pódium. Naquela corrida, porém, havia em meu carro uma bandeira austríaca. Era para, no caso de uma possível vitória, em vez da bandeira brasileira, eu ergueria a bandeira austríaca. Era uma homenagem que faria ao piloto austríaco Roland Ratzenberger, vitimado pelo acidente do dia anterior.

Não chovia naquele dia, em Ímola. Porém, uma chuva de lágrimas brotou dos olhos de milhões de fã no mundo inteiro, principalmente no Brasil. Naquele dia minha terra, tão animada e alegre, silenciou.


Era o dia 1o de abril de 1994.

Para terminar esse texto que já se faz longo, gostaria de agradecer o carinho e o amor que, até hoje sentem por mim, pessoas do mundo inteiro. Muitas delas nem eram nascidas naquele fatídico dia. As energias e pensamentos positivos, emitidos por vocês, em minha direção, são uma grande força em minha caminhada espiritual.

Meu abraço e meu muito obrigado a todos,

São os votos do amigo,

Ayrton Senna da Silva,
Ayrton Senna do Brasil,
Ayrton Senna do mundo todo.

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