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Arte que imita a vida e vice-versa

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:40
Quinta-feira, 02 de novembro
Os habitantes da terra estão abusando
Ao nosso supremo divino sobrecarregando
Fazendo mil besteiras e o mal sem ter motivo
E só se lembram de Deus quando estão no perigo
(Saco Cheio – Composição: Almir Guineto
Interpretação: Maria Rita)



Telona se ilumina. Nela aparece um fundo preto, e sobre ele, a frase

 Há muito tempo numa galáxia distante...

Nesse primeiro momento não há música, apenas silencio. E o silêncio, lembremos, traz expectativa do que está por vir a ser dito, a ser mostrado.

Em seguida, estampado nele, aparece um céu estrelado e saindo das extremidades da telona e desaparecendo rapidamente no céu infinito, o título do filme, Guerra nas Estrelas (Star Wars), enquanto o espectador ouve a clássica, Star Wars Theme Song, parte da trilha sonora de John Willians, composta para o filme. De baixo para cima, e ainda sob a magistral trilha do John, vai surgindo a introdução, apresentação do filme:

Episodio I

Uma Nova Ameaça

A galáxia vive tempos de expansão...

Assim, em 1977, começava uma das sagas de maior sucesso na história do cinema mundial: Guerra nas Estrelas (Star Wars). Dividida em seis episódios, desde sua estreia a série já faturou bilhões de dólares, e incontáveis espectadores já a viram na telona, ou na telinha.

Talvez o sucesso da série se desenhe já no seu momento inicial do primeiro filme quando apresenta ao espectador a frase: “Há muito tempo numa galáxia distante...”.

Ora, todo mundo em sua imaginação quer saber o que se passa numa galáxia distante. Haverá alienígenas? Como serão eles? São seres avançados? Querem dominar a Terra, ou serão amigos dos humanos?

A verdade é que a ficção mexe com nossa imaginação, sacode nossos sentimentos. Pensando assim, percebemos que os filmes de maior sucesso de bilheteria são aqueles que exploram esse lado curioso de nossa imaginação, fazendo-nos viajar para mundos diferentes do nosso e habitados por seres estranhos.

A ficção científica é um campo vasto, uma tela em branco, por assim dizer, pois, por nunca termos ido numa galáxia distante, então pressupomos que tudo pode acontecer por lá. Nossa mente não se reprime, assim como também não reprimimos nosso sentimento. Podemos até ver um extraterrestre comendo um rato — como, por exemplo, na série V – A Batalha Final, outra série de grande sucesso — como se se fartasse de um gostoso pedaço de queijo que os ambientalistas não moveriam um músculo para protestar, afinal, é ficção cientifica, e nela os ETs podem comer ratos, e outros animais semelhantes. Isso apenas pode causar certo nojo na maioria dos espectadores, mas não passa disso.

Porém, e quando a ficção desenha, espelha, imita, o nosso mundo real? E quando a telona, ou a telinha refletem no espelho do tempo o retrato fiel de nossa sociedade? Bem, meus amigos, minhas amigas, aí a coisa muda de figura.

 A sociedade conservadora e tradicional, em sua maioria, não está preparada para aceitar o diferente. Para essa sociedade, tudo teria que funcionar como se o mundo fosse regido por um grande ditador que decretasse que todos os seres devem agir todos dentro de uma uniformidade. Algo como na Coreia do Norte, do ditador, Kim Jong-un, no qual o estado dita a moda.

Nesse país não circulam revistas de moda, aliás, por lá, em se tratando de mídia, apenas circulam um jornal diário e uma revista semanal, ambos editados e controlados pelo estado. É o estado que diz como devem se apresentar os cidadãos. As mulheres podem dar-se ao luxo de escolher o corte de cabelo em um catalogo nacional que contém 14 tipos de cortes de cabelo. Às mulheres casadas é recomendado o uso dos cabelos curtos, e às solteiras, comprimento mediano, e até ondulado.

Sobre os homens, nesse aspecto, a exigência é maior: eles são instruídos a cortar o cabelo a cada 15 dias. Os cabelos masculinos não devem ultrapassar os 5 cm de cumprimento. Também não podem usar produtos como o gel para cabelos para não parecerem muito efeminados.  Em se tratando de vestimenta, também tem um código a ser seguido, tanto por homens, quanto por mulheres.

No campo das ideias, em certos setores da sociedade, principalmente os mais conservadores, as coisas funcionam, mais ou menos, da mesma forma: as pessoas não podem sentir diferente, ser diferentes, ou agir diferente. E aqui nem está se falando de transgressões, mas apenas de modo de ser, de essência humana, de ser aquilo que se é.
Falando da vida imitar a arte e da arte imitar a vida, falemos das novelas brasileiras, tão assistidas Brasil afora, e principalmente, das novelas da Globo, que vez por outra, suscitam grandes polêmicas.

Recentemente, a Globo exibiu a novela, A Força do Querer, no horário das 21hs. A autora Glória Perez trouxe para a novela a questão da transgeneridade, drama vivido pelos personagens Ivana (Carol Duarte) e Nonato (Silvero Pereira). Ivana é uma bela jovem, que ao longo da trama vai descobrindo que, dentro de seu corpo feminino habita uma alma masculina. E provoca um grande conflito na família quando resolve se vestir e agir como homem, tomando, inclusive hormônios que façam sobressair traços masculinos em seu corpo.

 A família abastada não aceita o fato de que Ivana venha a se tornar Ivan. A novela mostra o preconceito contra os trans, não apenas por parte da família, dentro de casa, mas também fora de casa, quando Ivan é agredido na rua algumas vezes, tendo, em uma dela ido parar no hospital todo machucado pelas agressões físicas sofridas na rua. Ao final, a família se convence de que não há nada que possa impedir a transgeneridade de Ivana e aceita a nova condição da filha.

Quanto a Nonato, ele é um jovem que, durante o dia trabalha em escritório de advocacia, e à noite, se transforma em mulher e faz shows em boates da cidade. É Nonato quem orienta Ivana em sua nova fase, alertando-a para os dilemas e preconceitos que a jovem teria de enfrentar ao assumir a condição de transgenero.

A novela teve como ambientação em seus primeiros capítulos, a cidade de Belém do Pará, e depois o cenário mudou para a cidade do Rio de Janeiro.

Ao abordar uma questão tão delicada a novela e a emissora atraíram a ira de grupos religiosos e de outros setores da sociedade. Padres e pastores propuseram uma cruzada contra a Rede Globo, que segundo eles, é uma destruidora dos lares e modificadora da realidade moral das famílias brasileiras. Mensagens foram pregadas nos púlpitos católicos e protestantes contra a novela que estava sendo exibida e contra os transgeneros.

Ao imitar a vida a novela, de forma artística, de forma sensual, porém sem cair no pornográfico, relevou ao Brasil a condição de milhares de pessoas no país, e milhões no mundo, que vivem o drama de ser transgenero, e que não sabem lidar com essa questão. Essas pessoas vivem na terra o seu calvário, carregam a cruz pesada do preconceito, sofrem depressão e violência.

Quando a emissora de televisão traz à tona um tema tão controverso, ela não está atingindo, nem destruindo a moral familiar, ela está apenas mostrando que existe uma realidade diferente daquela que não é a realidade da grande maioria. Ela está mostrando apenas que o universo é movimento e que o mundo não é algo estático, que o tempo passa, os costumes mudam.

Olhando por cima do ombro, e para o passado, veremos que já avançamos muito, e que a humanidade já viveu assentada sobre ideias que eram dominantes na época, e que hoje nos parecem ridículas e infantis. Ideias essas que também eram sacramentadas pela igreja, pois tudo fazia parte de um contexto social, de uma época, de um momento.

Já se disse, por exemplo, que os negros não tinham alma, já se disse que as mulheres eram incapazes de assumir postos de comando, também já disse das mulheres e dos negros que não eram aptos a votar.

Ainda hoje há por aí gente que ainda pensa rasteiro em relações a essas questões, haja visto o número ainda crescente de discriminação contra os negros e contras as mulheres.

A Globo encerrou uma novela polêmica e já colocou no ar outra que está dando o que falar. A nova novela das 21hs, O Outro Lado do Paraíso, de Walcyr Carrasco, em seus primeiros capítulos já apresentou temas com o estupro, e violência contra a mulher. A novela abordará ainda temas quentes como o racismo e homofobismo.

Esses são temas presentes na sociedade e que precisam ser discutidos para serem compreendidos. Não adianta se fingir de cego, ou querer tapar o sol com a peneira, pois quem assim o faz, pode despencar no precipício da ignorância, e aí sim, haverá choro e ranger de dentes.

Não adianta ignorar que são altíssimos os números de agressões contra os trangeneros, contra os homossexuais, e contra as mulheres. Quando a sociedade, principalmente os setores religiosos, através de uma atitude preconceituosa, fecham-se para a discussão desses temas, é como se eles tivessem se colocando ao lado dos algozes e condenando as vítimas.

Estamos vivendo em um mundo conturbado, onde o respeito pelo outro diminui a cada dia. Nesse universo é preciso entender que se deve julgar o outro não pela sua sexualidade, mas pelo caráter, não pela sua natureza sexual, mas pela luz que há em seu coração.

É preciso entender que a homossexualidade, ou a transgeneridade não encerram em si mesmas as devassidões do mundo, pois a maldade presente no mundo. É preciso compreender que o que, de fato, destrói as famílias não é a sexualidade deste ou daquele, mas sim a falta de amor, de compreensão, e de aceitação do outro, daquele que é diferente de nós, e esse tipo de sentimento está no coração de padres, de pastores, de leigos, de crente e ateus, pois que é uma coisa inerente ao coração humano, e Deus deu livre arbítrio ao homem de escolher entre o bem e mal, escolhai, pois, vós, o bem.

É preciso compreender também que uma mulher não está pedindo para ser estuprada apenas por estar com uma roupa provocante. Que ela não é escrava do homem, mas companheira. Que a sua fragilidade física não é um convite à agressão.

Ademais, é bom que esses setores religiosos ajam como verdadeiros profetas sociais, e gritem, não contra quem faz arte que imita a vida, mas contra os poderosos que desviam milhões dos cofres públicos e comemoram a impunidade reinante no país com os melhores vinhos e champagne importados. Porém, para essa realidade cruel e gritante eles parecem fazer vistas grossas.

Que eles se levantem contra os falsos religiosos e falsos profetas que usam as tribunas do Congresso Nacional para proclamar suas hipocrisias e apoio à corrupção e à roubalheira que campeia em nosso país. Se querem ser profetas de verdade, denunciem também os pastores que enriquecem, ilicitamente, à custa do dízimo dos fieis.

Agindo dessa forma eles estarão, sim, fazendo a vontade Cristo, de quem se dizem seguidores, e não estarão fazendo a vontade de Cristo levantando o chicote contra aqueles que apenas querem ser gente, e querem ser respeitados como gente.

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