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E as crianças, quem se importa com elas?

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 21:51
Domingo, 03 de setembro
Criança feliz, que vive a cantar
alegre embalar seu sonho infantil
ó meu bom Jesus, que a todos conduz
olhai as crianças do nosso Brasil!
Crianças com alegria
qual um bando de andorinhas
viram Jesus que dizia:
Vinde a mim as criancinhas!
Hoje dos céus num aceno
os anjos dizem amém
porque Jesus Nazareno
foi criancinha também!
(Canção da Criança – composição: Lúcia Helena)


É certo.
É certo que imprensa brasileira dê grande destaque a maior operação investigativa da história do país: a Operação Lava Jato. Uma operação policial que mostrou ao Brasil a face mais perversa da relação empresários-Estado-políticos. Investigação essa que revelou à sociedade o criminoso esquema escondido na base da política brasileira, na qual estão envolvidos grandes empresários e partidos políticos de destaque nacional, bem como figuras aclamadas pela sociedade, e até o desfecho da operação policial, tidos como homens e mulheres nos quais se depositava alguma esperança de futuro para o Brasil. A corrupção, espalhou-se pelas três esferas do poder: Legislativo, Executivo e Judiciário. As mentes criminosas operam no Executivo através do superfaturamento de obras, e demais serviços contratados pelo estado e por empresas ligadas a ele. O Legislativo é dama bondosa que trabalha para os grandes grupos empresariais formulando leis que beneficiam diretamente a esses grupos, mesmo que os interesses destes sejam diametralmente opostos aos interesses da sociedade brasileira. Nessa relação entre a dama, poderosos grupos empresariais, e interesses do povo, fala mais alto o dinheiro ofertado pelos poderosos à bondosa dama.
É certo o esforço da luta do Judiciário, do Ministério Público, da Procuradoria-Geral da República, da Polícia Federal, no combate a essa praga que se alastrou pelos quatro cantos do país. O esforço de bravos ocupantes de cargos destas instituições, mesmo a despeito da falta de vontade dos políticos em colaborar para a extinção desse mal que é a corrupção, tem dado resultados muito positivos para a sociedade brasileira. Dentre esses resultados, podemos citar os acordos de cooperação internacional que têm ajudado a repatriar milhões de reais que descansavam sossegadamente em paraísos fiscais; os acordos de colaboração premiada que, mesmo sendo criticados por muitos, tem ajudado a desvendar a ponta do novelo desse intricado e complexo esquema de corrupção; o fortalecimento do judiciário e independência do poder judiciário; arrojadas investigações por parte do Ministério Público, da Polícia Federal, e da Receita Federal; além de mostrar à sociedade a podridão na qual está envolta o meio político.
É certo que a sociedade brasileira, de um modo geral, acompanhe com interesse e indignação, as investigações e as consequências da Lava Jato, e a partir disso, forme suas opiniões e tenha sobre a situação uma visão crítica.
Não é certo.
Não é certo que os parlamentares estejam a todo o momento querendo votar leis e fazendo manobras que prejudiquem o bom andamento das investigações a fim de abafar a Lava Jato, ou até mesmo extingui-la. Em Julho, ao apresentar à Justiça Federal de Curitiba, denúncia contra o ex-presidente Lula, por obras no sítio de Atibaia, os procuradores da força tarefa da Lava Jato disseram que há indícios estarrecedores de crimes praticados pelo presidente Michel Temer, e pelo senador Aécio Neves. Na ocasião, eles afirmaram também, através de nota à imprensa, que, mesmo após três anos de investigações, a cúpula da política brasileira, trama às escondidas, a anistia aos crimes por eles mesmos praticados, e ainda por cima, tentam colocar amarras nas investigações a fim de emperrá-las, bem como associar-se a agentes públicos com as mesmas finalidades. Segundo o MP, assim agindo, ficam esses políticos desonestos, de mãos livres para poder desviar o dinheiro dos brasileiros, mesmo em tempos de crise, usando como escudo para tal finalidade o foro privilegiado, e a imunidade parlamentar.
É muito certo a ampla cobertura da imprensa, é muito certo o esforço de juízes, policiais federais, e procuradores, é muito correto o interesse da sociedade em toda essa situação. É desprezível a atitude dos políticos em querer que nada mude que tudo continue como antes, e que eles mantenham o status quo, e as mordomias.
Tudo isso posto, que pese a balança para o lado da justiça.
Mas alguém já parou para pensar que poderemos nos tornar um país sem futuro?
Sim, pois se partirmos do pressuposto de que as crianças de hoje serão o Brasil de amanhã, e que pouco se tem falado delas, e pouco se tem feito por elas, onde está o futuro do Brasil hoje, senão caído no esquecimento. 
É claro que as crianças ainda não conseguem formular conceitos maduros de democracia, de corrupção, de desvio de dinheiro público, mas elas têm ouvidos para ouvir, e olhos para ver, e para ler as notícias do que acontece em nosso país. Mesmo nas rodas de conversas em casa, ou na escola, elas, de algum modo, estão internalizando tudo isto. E se elas começam a achar normal, e natural a atitude de mentir, corromper, roubar? Se isso acontece, então o caos se instalará no país e, no futuro, não passaremos de uma república de bananas, ou de uma nação de idiotas que pensam que, levando vantagem em tudo, conseguem chegar a algum lugar.
Em 21 de julho deste ano, a Fundação Abrinq — organização sem fins lucrativos que promove a defesa da criança e do adolescente — lançou o Panorama Nacional da Infância e da Adolescência, no qual revela que 2, 6 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, entre 5 e 17 anos, vivem em situação de trabalho infantil. Ainda segundo a pesquisa da Abrinq, 8,5 mil crianças, entre 5 e 9 anos, ingressaram nesse universo em comparação aos anos de 2014 e 2015.
Outro dado preocupante apontado pelo Cenário da Infância e Adolescência – 2017, é o de que 17, 3 milhões de crianças, entre 0 e 14 anos vivem em domicílios de baixa renda. Esse número equivale a 40,2% da população brasileira para essa faixa etária.
Segundo a pesquisa, as regiões Nordeste e Norte do país lideram em número de pessoas que vivem com renda mensal ou inferior a meio salário mínimo. No Nordeste brasileiro são 60% das crianças vivendo em famílias com essas condições, e no Norte, 54%. De acordo com a Abrinq, 5,8 milhões de crianças, entre 0 a 14 anos de idade vivem nessa situação. Traduzindo em miúdos, 13,5% das crianças brasileiras nessa faixa etária vivem em extrema pobreza.
Da violência, os pequenos também não escapam. Segundo a pesquisa da Abrinq, quase 18% dos homicídios praticados no país, são cometidos contra crianças e adolescentes, pouco mais de 80% deles com armas de fogo. Sendo o Nordeste, a região que concentra a maior proporção de crimes cometidos contra a infância e a adolescência.
Não desprezemos também o fator televisão, que hoje é mais do que comum na casa do pobre e do rico, guardada as devidas proporções de conforto de sentar-se em frente a ela, tanto na casa de um como de outro.
Imagine o caro leitor, como os processos mentais se desenrolam na mente de uma criança que vive em extrema pobreza, em cuja família há dificuldade de comprar até mesmo o pãozinho nosso de cada, regado a uma gostosa manteiga e café. A criança, está em casa, ou na casa de algum amigo cujas posses já são um pouquinho maiores. Termina os desenhos animados, que fazem a alegria e a distração das crianças em qualquer lugar do mundo. Termina um bloco do programa e entra o intervalo comercial.
A criança, muitas vezes, nem tomou sequer o café da manhã, ou se tomou foi aquele café mirrrado. E as imagens de comidas deliciosas vão surgindo diante de seus olhos curiosos e de sua barriga faminta. Um fogão se acende. Na boca do fogão, uma panela. Nela, uma mão começa a derramar um doirado azeite. Uma cebola é partida ao meio. Uma pitada de sal é jogada na panela. Em seguida se abre, como que por mágica, o forno do fogão, e, dentro dele, está um peru bem tostado, bem assado, e, beirando a travessa na qual ele foi assado, verduras suculentas.
Imagine o leitor, leitora, como tudo isso se processa na cabeça da criança.
Idem para os comerciais que exibem carnes de primeira, enquanto em grande dos lares brasileiros, principalmente, nas regiões Norte e Nordeste, a comida na mesa é apenas um pouco de feijão e nada mais.
Indo mais além, como será que é visto as notícias de corrupção praticadas pelos políticos na casa dessas pessoas, e na cabeça dessas crianças? Estarão elas tão anestesiadas pela fome e pelo abandono que chegam a pensar que é boa a mão do político que só os procuram em épocas de eleição, quando precisam do voto das famílias dessas crianças? Será que elas consideram heróis aqueles que os traem e roubam seu futuro? Será que acham muito o pouco que lhes é oferecido em meio à miséria, falta de boas escolas, e de uma vida digna?
Pense o leitor, leitora, reflita sobre as malas, sacolas, caixas de dinheiro, cheias de milhões de reais, circulando pelo país, em meio à alta cúpula dos partidos políticos e empresários brasileiros, dinheiro ilícito, diga-se de passagem. Pense na imensidão de dinheiro que são desviados todos os anos dos cofres públicos para abastecer o bolso de políticos e empresários mesquinhos, nas viagens luxuosas, presentes magníficos, e vinhos preciosos comprados com o dinheiro do contribuinte, enquanto na mesa de milhões de crianças Brasil afora, falta o pão que lhes tirará um pouco da fome. Pense em tudo isso e responda: vivemos em país justo?

Que futuro teremos se não dermos escola de qualidade, saúde, esporte, lazer, e comida para as nossas crianças?

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