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A fúria do tempo no Grande Prêmio do Japão ofusca o brilho do mundo da velocidade
Posted by Cottidianos
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Sexta-feira, 10 de outubro
“Vem
a chuva, molha o meu rosto
E
então eu choro tanto
Minhas
lágrimas
E
os pingos dessa chuva
Se
confundem com o meu pranto...”
(Sentado
à beira do caminho – Roberto Carlos)
Domingo
passado (05), no Grande Prêmio do Japão de Fórmula 1, o piloto francês Jules
Bianchi, sofreu um grave acidente, no circuito de Suzuka. Bianchi teve
traumatismo craniano e foi submetido a uma cirurgia. O francês segue internado
em um hospital na cidade de Yokkaichi, na província de Mie. A lesão no cérebro
foi confirmada pela, Marussia, escuderia a qual o piloto
pertence.
Para
falar do GP do Japão e do grave acidente sofrido por Jules Bianchi, criei um
personagem fictício: Hayako, um jovem japonês apaixonado pelo mundo da
velocidade.
***
Era
sexta-feira à tarde na cidade de Suzuka, na Província de Mie, Japão. Hayako, um
jovem japonês de 22 anos — operário de uma montadora, com sede na cidade, e
filiais espalhadas por todo o mundo — estava sentado à mesa de um restaurante
indiano, no centro da cidade. Era um lugar pequeno, porém, muito aconchegante. As
plantas ornamentais na entrada conferiam ao ambiente um ar de simplicidade,
aconchego, aliado a ideia de qualidade.
Enquanto
saboreava o prato que havia pedido, acompanhado de um gostoso suco, ouvia as
notícias que passavam na TV. Naquele momento eram mostradas imagens das equipes
de Fórmula 1 e dos pilotos, acompanhadas de uma discussão sobre o provável tufão Phanfone que deveria atingir a região. Havia também a ameaça de pancadas
de chuva no norte de Suzuka no domingo, durante a corrida. Alguém sugeriu que a
corrida fosse realizada no sábado, mas Hayaki sabia que era muito difícil que
uma corrida ocorresse no sabádo por causa do contrato com as emissoras de TV
que detinham os direitos de transmissão.
O
jovem japonês sabia muito bem que rolava muito dinheiro com as transmissões da
F1. Apesar disso, a temporada de 2014 havia inciado o ano com uma a importante
missão: Ganhar a corrida pela audiência que vinha caindo ao longo dos últimos
anos. Os índices de audiência revelavam quedas vertiginosas de público em todo
o mundo. A Fórmula One Management (FOM), empresa que administra a categoria
havia divulgado no início do ano, relatório anual de audiência global que revelava
essas tendências.
Havia
lido em revistas especializadas que, mesmo no Brasil, país que encabeça a lista
das maiores audiências da Fórmula 1, o número de telespectadores que acompanham
o esporte caiu de 85,6 milhões para 77,2 milhões. Por causa disso, circularam
notícias de que a Rede Globo, que detêm os direitos de transmissão no país, havia
anunciado que deixaria de transmitir o esporte, mas, ao que tudo indica, se
havia alguma intenção do canal de parar com as transmissões do esporte, ela não
foi levada adiante, pois, a Rede Globo continuará transmitindo as corridas. Quedas
de audiência também haviam ocorrido na China e na França. Porém, nem tudo é
queda no mundo da velocidade. Países como Reino Unido, Itália e Estados Unidos,
viram os índices de audiência aumentar em relação ao ano anterior. Por tudo
isso, o mundo da velocidade procura estratégias, formatos inovadores e novas
parcerias para deter a fuga dos telespectadores.
Hayako
voltou a concentrar-se na reportagem que o canal de TV exibia. Naquele momento
falavam os pilotos. “O Tufão vai chegar, e se chegar não poderemos correr”,
dizia o mexicano Sérgio Perez, da Force Índia. Já o brasileiro Fellipe Massa,
da Williams, tinha uma atitude mais otimista. “Espero que possamos correr, e
que o tempo não nos afete”, dizia ele. O jovem via os brasileiros com bastante
carinho, talvez por causa de Ayrton Senna, piloto do qual era fã. Colecionava
todas as reportagens e arquivos de áudio e vídeo que encontrava sobre um gênio
das pistas, um guerreiro da velocidade, mas ao mesmo tempo, um homem, acima de
tudo, humano. Pena que tenha ido embora de uma forma tão trágica, e ainda tão
novo.
Há
coisas que não são ditas, precisam ser percebidas e a vida ensinara-lhe um pouco de
psicologia humana, o suficiente, para notar que havia uma grande preocupação no
olhar e no tom de voz, tanto de Sérgio Perez, quanto de Fellipe Massa, enquanto
falavam durante a entrevista.
O
fã do ronco dos motores, já havia terminado o lanche que fazia, há algum tempo.
Apenas havia permanecido no ambiente para acompanhar a reportagem na televisão.
Levantou-se. Pagou a conta. Agradeceu aos atendentes pela boa comida e pelo
excelente atendimento e saiu.
No
sábado, acompanhou os treinos classificatórios. Um dos assuntos dominantes no
circo da Fórmula 1, além do tufão Phanfone, era a saída de Sebastian Vettel da
RBR. A notícia circulou no mundo da F1 com a força de um vendaval. “Ainda bem
que esse tipo de vendaval não prejudica ninguém”, pensou Hayako. O vendaval
provocado por esse anúncio, se não prejudicava ninguém, com certeza provocaria
uma reação em cadeia. Por exemplo, a saída de Fernando Alonso da Ferrari, uma
vez que Vettel ocupará o lugar de Alonso na escuderia italiana. Provavelmente,
o espanhol Fernando Alonso vá para a McLaren, mas isso são especulações por
enquanto. Esses fatos, porém, ainda não são dados como oficiais pela Ferrari. O
que só deverá ocorrer por volta do dia 13 de outubro, por ocasião da troca de
cargos na presidência da Ferrari: entra Sergio Marchionne e saí Luca di
Montezemolo.
Foi
com esse clima quente, com anúncios de tufões e vendavais que os pilotos colocaram
os carros na pista, durante os treinos classificatórios, em busca de boas
posições na largada.
Hayako
acompanhava tudo com bastante interesse. Não houve maiores incidentes em
relação a fenômenos naturais e os pilotos puderam fazer um treino sem maiores
sobressaltos. Esta temporada da Fórmula 1 viu surgir dentro das pistas, uma rivalidade
que tem chamado para si as luzes das câmeras. É o confronto entre Louis
Hamilton e Nico Hosberg. O jovem japonês havia visto Rosberg perder a liderança
do campeonato para Hamilton no GP de Cingapura — quando teve que abandonar a
prova devido a problemas no carro — e esperava com ansiedade o duelo entre os
dois.
Com
uma determinação fora de série, Rosberg conseguiu a pole. Hamilton, fez a
proeza de bater o carro no último treino livre e deu bastante trabalho aos
pilotos da equipe, fazendo com que corressem contra o tempo na tentativa de
consertar o carro. Os mecânicos fizeram milagre e Hamilton voltou à pista,
conseguindo a segunda posição no grid de largada.
Após
o termino dos treinos, Hayako, que estava de folga do trabalho naquele fim de
semana, saiu para fazer suas atividades corriqueiras na cidade de Suzuka. O sol
já descia no horizonte, mas enquanto a noite não chegava, o astro rei resolveu
presentear a todos com uma esplêndida despedida. Um deslumbrante céu pintado nas cores, azul,
amarelo ouro, roxo e laranja, com predominância dessas duas últimas cores.
Centenas de turistas posicionavam suas câmeras em busca do melhor foco para
registrar o fenômeno. Alguns pilotos também aproveitaram para postar o
momento nas redes sociais. O jovem japonês ficou pensando no significado daquela
obra de arte no céu. Seria algum sinal de calmaria antes de violenta
tempestade?
À
noite o jovem Hayako, saiu com a namorada para uma festa no Evolution Club. Ele
e a namorada adoravam o estilo Black Music e divertiram-se bastante.
O
domingo chegou e o tão esperado e anunciado tufão, não apareceu. Entretanto,
mandou sua prima, a chuva... E ela chegou com intensidade. Parecia que os
deuses do tempo tinham ficado bastante irritados, assim, de repente. O céu
cinzento e pesado, em nada lembrava o esplendido céu ao entardecer do dia
anterior. O jovem pensou em ir ao Suzuka Circuit para ver de perto a corrida.
Tinha comprado ingressos para a ocasião, porém, não se animou a sair de casa.
Com o tempo naquelas condições, preferiu assistir a corrida pela TV.
Como
era de se esperar, as condições no circuito não estavam nada animadoras. Chovia
torrencialmente e as imagens da TV mostravam um circuito alagado. Alguns
trechos da pista, mais pareciam pequenos rios. “Como é que os caras realizam
uma corrida nessas condições?”, Perguntou-se a si mesmo.
Por
questões de segurança, a corrida iniciou-se com a proteção do safety car. A
direção de prova viu que não havia condições de os pilotos prosseguirem com a
disputa naquele momento e decidiu que eles deveriam voltar aos boxes, apenas
terem dado três voltas no circuito. Esperou-se dez minutos. Após esse tempo,
foi determinada uma nova largada, também com safety car.
Após
a sétima volta, a direção de prova decidiu liberar totalmente a corrida e os
pilotos aceleraram, já em condições um pouco mais favoráveis. Apesar das
condições adversas para os pilotos, a corrida seguia sem maiores incidentes. A
disputa seguia acirrada, com Rosberg na frente, até que na 29a volta, Hamilton assumiu a ponta.
Faltavam
treze voltas para o final da corrida quando a Sauber do alemão Adrian Sutil,
aquaplanou, saiu da pista e bateu contra a proteção de pneus. Um guindaste foi
introduzido no circuito, em uma área de escape, para fazer a retirada do carro
de Sutil. Enquanto essa operação era realizada, Jules Bianchi aquaplanou no
mesmo ponto no qual Sutil havia aquaplanado. A mais de 200km por hora, Bianchi
perdeu o controle de sua Marussia e bateu violentamente contra o guindaste que
retirava a Sauber. A batida foi tão violenta que suspendeu o guindaste, fazendo
com que o carro do francês entrasse embaixo do pesado veículo. Com o impacto a
Marussia ficou destruída. Momentos de tensão, suspense e preocupação.
Sentado
no sofá de casa, Hayako acompanhava com bastante preocupação o estado do
piloto. Era preciso fazer um esforço para ver o que estava ocorrendo, pois a
forte chuva dificultava, até mesmo, o registro de imagens. “Que erro absurdo,
esse da direção de prova. Estava escuro, a pista cheia de água que mais parecia
um rio, os pilotos reclamando da visibilidade, um guindaste no circuito e os
caras não pararam a corrida. Foi preciso acontecer o pior para que eles,
finalmente, resolvessem encerrar a prova. Esse acidente poderia, ter sido
perfeitamente, evitado. Faltavam
apenas sete voltas. Poderiam ter finalizado a corrida que não iria alterar o
resultado e os pilotos ainda sairiam agradecidos”, resmungava ele.
Primeiramente,
Jules Bianchi foi levado, inconsciente, ao centro médico do circuito onde
recebeu os primeiros atendimentos. As péssimas condições do tempo não permitiam
que um helicóptero decolasse, então o jeito foi levar o piloto, de ambulância
mesmo. Transferiram-no para um uma unidade hospitalar que fica a cerca de
quinze quilômetros do circuito. O piloto, que havia sofrido traumatismo
craniano, foi submetido a uma cirurgia para deter uma hemorragia e conter a
pressão intracraniana.
No
pódio estavam: Hamilton, em primeiro; Nico Rosberg, em segundo e Sebastian
Vettel, em terceiro. Não houve exageros na comemoração. Aliás, nem houve
comemoração. Nem se fez o tradicional estouro de champanhe. Com um companheiro
de pista, gravemente ferido no hospital, não havia mesmo, clima para festa.
Ao
ver todas aquelas cenas, envolvendo o francês Jules Bianchi, Hayako não deixou
de pensar, mais uma vez, no acidente que vitimara o seu maior ídolo na Fórmula
1: o brasileiro Ayrton Senna, durante o GP de San Marino, em 1994. Desligou a
TV e desejou que o jovem piloto de 25 anos, completados em 03 de agosto, se
recuperasse o mais rápido possível e voltasse a brilhar nas pistas.
Nascido
na opulência da Côte d'Azur, em Nice, no dia 03 de agosto de 1989, filho de uma
família rica e próspera, Jules Bianchi entrou para a Ferrari Academy em 2009,
após uma passagem pela Fórmula 3 e de ter feito duas temporadas pela GP2, nessa
última, conseguiu terminar os campeonatos de 2010 e 2011 em terceiro lugar.
Impressionada com o desempenho do francês, a Marussia o chamou para a temporada
de 2013. O grave acidente de domingo interrompeu uma carreira em ascensão, que
Hayako, como todos os fãs de Fórmula 1, esperam que seja retomada, logo após a
recuperação de Jules.
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