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Daniel Vorcaro: Um diabo no mundo dos negócios

Posted by Cottidianos on 23:38

Quinta-feira, 17 de setembro


Começo este artigo jornalístico com uma passagem bíblica. Não, não é sermão, é artigo jornalístico, embora não seja comum começar um desta forma. O faço porque esse texto bíblico é uma lição de ética e respeito aos princípios nos quais se acredita. E também por que cabe como uma luva para o presente artigo.

Vamos lá então, fazer uma visita a passagem bíblica que fala da tentação de Jesus no deserto, que pode ser lida nos evangelhos de Mateus e de Lucas, ambos no capítulo 4.

Nos dizem os evangelistas que Jesus havia voltado do Jordão onde fora batizado por João Batista. E, em espírito, foi levado pelo espírito ao deserto. E na bíblia tudo é simbólico, e o deserto, no caso, remete a um período de preparação, aprendizado.

Ali, na solidão do deserto, o Mestre jejuou durante quarenta dias. E o diabo, só de longe, observando. Ao termino desse período, obviamente, Jesus sentiu fome. O diabo deve ter esfregado as mãos, sorrindo cinicamente, afinal, era a vez de ele entrar em ação.

_ Se tú és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pão, disse ele.

_ Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus, respondeu Jesus.

Para a fome o diabo apresentou uma sugestão simples, em forma de desafio. Transformar pedras em pão. Bastaria que o filho de Deus fizesse esse milagre e tudo estaria resolvido. Não obteve êxito. Ainda não era hora de Jesus começar os milagres. Na vida, tudo tem sua hora, seu momento.

O diabo partiu para sua segunda tentativa. Levou Jesus para o alto de um monte, e, de lá, lhe mostrou uma visão deslumbrante na qual podiam se ver todos os reinos do mundo. Glória e poder diante do Mestre. Bastaria que Ele fizesse apenas uma coisa simples.

_ Tudo isso será teu se, de joelhos, me adorares. Disse o príncipe das trevas.

_ Afasta-te de mim, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor Deus adorarás e somente a ele servirás.

Era uma proposta tentadora. Dominar reinos, governar pessoas, tê-las ao seu serviço. Mas novamente, a proposta não atraiu Jesus. O filho de Deus não iria dobrar o joelho diante do inimigo. Decepcionado, o diabo resolveu tentar mais uma vez. Quem sabe oferecendo a fé como espetáculo, fazendo do poder religioso uma ferramenta para dominar a mente das pessoas.

Ele então levou Jesus para o alto de um templo e disse:

_ Se és filho de Deus, lança-te daqui para baixo; por que está escrito: Mandará os seus anjos juntos a ti para te acompanharem, para que não tropeces com teu pé em pedra.

_ Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus, disse, resolutamente, Jesus.

Vencido em todas as suas tentativas de fazer o filho de Deus cair em pecado, o diabo se afastou. Interessante é que, no evangelho de Lucas é acrescentada a expressão “por algum tempo”, ou seja, o diabo não desistiu, apenas deu um tempo.

 

***

 

O diabo esperto como é, e profundo conhecedor das fraquezas, dos desejos, e das necessidades mais íntimas que residem, adormecidas ou não, no coração do homem, sempre dá um jeito de aparecer em algum lugar. Numa dessas suas andanças ele resolveu aparecer no mundo financeiro do Brasil, encarnado na pele de um jovem empresário mineiro.

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Segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Aeroporto de Guarulhos – SP

21 horas


 Daniel Vorcaro se preparava para viajar com destino a Malta, pequeno país independente, localizado no coração do Mediterrâneo, situado entre a Sicília, Itália e o Norte da África. Mais perto daquela que desta.

De Malta, o empresário seguiria para Dubai, nos Emirados Árabes, santuário do luxo, aliás, um lugar que tinha tudo a ver com ele. Apesar disso, o banqueiro demonstrava uma certa ansiedade, como se estivesse com pressa de deixar o país. O objetivo da viagem, segundo ele havia relatado a amigos e funcionários, era assinar o contrato de venda do Banco Master.

O dia fora cansativo. Cheio de coisas importantes para decidir. Logo cedo da manhã ele já estava em contato com o ministro do STF, Alexandre de Moraes. Comunicava ao ministro que queria antecipar a venda do banco ao grupo Fictor. E que essa transação ocorreria com investidores da terra dos sheiks, e que viajaria para lá com esse objetivo.

Às oito horas da manhã uma representante de Vorcaro já estava em frenética atividade tentando vender um apartamento de cobertura no empreendimento Vizcaya, na avenida Horácio Lafer, em São Paulo. Alegava ela que a transação já vinha sendo articulada desde o dia 14 de novembro. Apesar de toda pressão para fechar negócio ela não teve êxito nessa empreitada.

Vorcaro volta novamente a se comunicar com Alexandre de Moraes às 8h16min. Era a segunda vez que entrava em contato com o ministro naquele dia.

Às 11h08min o site O Bastidor, cujo dono é o jornalista e empresário Diego Escoteguy, havia publicado uma matéria dizendo que havia um processo criminal tramitando em sigilo na 10ª Vara Federal de Brasília, processo este que investigava fraudes nas carteiras de créditos vendidas pelo Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). Tudo combinado. Vorcaro havia pago dois milhões de reais para o jornalista publicar a reportagem. E com que objetivo?

Isso proporcionaria aos advogados de defesa do banqueiro entrar com alguma ação a fim de evitar a prisão do banqueiro, caso essa fosse decretada. Na verdade, como Vorcaro tinha acesso a informações sigilosas dentro da PF, os advogados já sabiam que isso iria acontecer.

De fato, ainda naquele dia 17, o advogado Wander pede acesso a investigação citando a tal reportagem como fonte de informação. Passam o dia tentando contato com o juiz que estava à frente do processo.

Às 6h30min da manhã daquele dia Vorcaro já estava em contato também com os servidores do Banco Central, Ailton Aquino chefe do Departamento de Supervisão Bancária, e com Paulo Sérgio, Diretor de Fiscalização e Chefe Adjunto de Supervisão. Além de outros técnicos. A reunião é realizada às 13h35min. Após a reunião começa a circular reportagens sobre a venda do Banco Master ao Fictor.

Às 15h30min o juiz Ricardo Soares Leite decreta a prisão do banqueiro. Dezoito minutos depois, os advogados de defesa dele, que ainda nem haviam sido comunicados oficialmente da decisão, protocolam uma petição na 10ª Vara se posicionando contra medidas cautelares que viessem a ser adotadas contra seu cliente, alegando que isso poderia provocar prejuízos enormes ao Banco Master. De posse de informação privilegiada, agiram como se não soubesse da decretação da prisão.

E o restante da tarde decorreu com o mesmo frenesi com o qual tinha começado o dia, ainda antes do sol nascer. Vorcaro se preparava para a viagem (ou seria fuga?), e o tempo que sobrou foi consumido em arrumar bagagens, providenciar passaporte, e essas coisas relativas a viagens internacionais.

Às 20h48min Vorcaro troca a última mensagem com Alexandre de Moraes, informando a este que estava no aeroporto, pronto para ir aos Emirados Árabes fechar o contrato de venda do Master.

Às 22hs chegou enfim o momento de partir de terras brasileiras, quem sabe, ficar longe por um bom tempo. Mas nem sempre as coisas saem como planejado. Na hora da partida chega a visita indesejada por Vorcaro da Polícia Federal. Em vez de Dubai ele foi levado para uma cela da PF.

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Não há como negar: Daniel e um gênio do mundo das finanças. Porém, a genialidade de uma pessoa tanto pode ser usada tanto para o bem, quanto para o mal. A história da humanidade está repleta de exemplos desse tipo. Infelizmente, Daniel Vorcaro escolheu a segunda opção.

Em pouco tempo, ele construiu um império, colocou as mais altas autoridades do país aos seus pés, e enganou milhões de brasileiros, que confiaram suas economias e cuja matéria de trabalho eram as operações fraudulentas.

Entre as autoridades que colocou a seus pés estão deputados, senadores, governadores, servidores do Banco Central, e até ministros do Supremo Tribunal Federal.

Entre as milhões de pessoas que ele enganou estão pequenos investidores, aposentados, e dinheiro de fundos de pensão de funcionários públicos.

Em relação aos poderosos, ele agia como o diabo tentando um faminto Jesus no deserto.  No caso, Jesus tinha fome de paz e de justiça divina e de justiça social. Os poderosos aos quais Vorcaro tentou, não apenas três, mas várias vezes, tinha fome de poder, de dinheiro, de prazeres sexuais. A uns ele tentava oferecendo contratos milionários, soma vultuosas para financiar produções cinematográficas medíocres, que, na verdade, eram destinadas a outros usos corruptos. A outros ele tentava com pequenos luxos, uma viagem à Disney, caronas em seus jatos particulares, diárias em resorts. A outras ainda oferecia a tentação da bebedeira e do sexo oferecendo uísques caríssimos e festas com prostitutas de luxo.

O diabo do deserto tentou o mestre Jesus tanto quanto pode. Porém em nenhuma delas obteve êxito, pois a conduta do mestre estava pautada por uma sólida base ética e moral. Ele tinha uma missão, um trabalho a cumprir e não poderia fazer isso com a consciência pesada.

Quanto aos poderosos desse nosso Brasil, muitos dos quais se dizem seguidores de Jesus, e gritam a plenos pulmões nas praças, nas igrejas, e em cima dos palanques que o amam, estão, na verdade a anos luz de distância dos preceitos éticos e morais daquele a quem dizem seguir. Inebriados pelo vinho do luxo, do poder, do sexo, e da riqueza, não tem forças para dizer ao tentador: “Afasta-te de mim, Satanás”, pois tenho uma missão a cumprir junto ao meu povo e a minha nação brasileira”.


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Venturas e desventuras do 7 de Setembro

Posted by Cottidianos on 20:51

Campinas, 10 de setembro de 2026


Entre altos e baixos, avanços e retrocessos na economia e na política, e em meio a uma crise institucional gigantesca, que tem como epicentro o STF, chegamos a mais um de 7 de setembro, celebrado há apenas três dias.

Nas regiões Sul, Sudeste, e Centro-Oeste, o feriado chegou e trouxe junto com ele o frio intenso e céu nublado. Nem mesmo o sol se arriscou a mostrar seu brilho. Nenhum raio de sol atravessando as nuvens.

Ironicamente, o clima chuvoso e frio é um retrato em preto e branco da crise institucional pela qual atravessa o Judiciário Maior. Por lá o céu está cinzento, sombrio, clima pesado, e a previsão de tempo por lá anuncia raios e tempestades. Institucionalmente também está difícil os raios de sol da esperança romperem as pesadas nuvens e se derramar pelas cidades e campos da nação brasileira.


Voltemos as comemorações do 7 de setembro. Essa importante data cívica é marcada por eventos de três matizes principais; a cívica, a militar, e a social. Esta última é marcada por um movimento de grande significância chamado “Grito dos Excluídos”.

A sementinha que viria a da origem a esse movimento foi plantada entre 1993 e 1994.  Tempo no qual a Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil promoveu a Segunda Semana Social Brasileira. Participaram desse evento o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, e organizações sociais que trabalha com a promoção da justiça social. A semente plantada ficou em algum lugar no coração e na mente daqueles que participaram dessa semana social.

Em 1995 essa semente desabrochou, floresceu e deu frutos. Desde então essas manifestações ocorrem na Semana da Pátria e tem como ponto alto o feriado de 7 de setembro.

O Grito dos Excluídos é aquela voz profética que grita no alto da montanha e denúncia as inúmeras situações de desigualdade e exclusão pelas quais passam as pessoas menos favorecidas em nosso país. Ao mesmo tempo em que denuncia o movimento também aponta caminhos para uma sociedade mais justa.

Outro momento marcante no 7 de setembro são os desfiles dos militares da três Forças Armadas: Marinha, Exército e Aeronáutica. Perfilados, e orgulhosos eles desfilam altivos pelas ruas do país. Em algumas cidades também é possível ver no céu um show proporcionado pela Esquadrilha da Fumaça, cujas apresentações são de tirar o fôlego. Antes ou depois do desfile dos militares, também acontecem o desfile das escolas municipais. É bonito ver a garotada, concentrada, orgulhosa de fazer parte destes eventos. E eles são firmes; façam chuva, faça sol, frio ou calor lá estão eles desfilando.

E assim era o 7 de setembro: Uma data para celebrar o orgulho de ser brasileiro em evento marcado pela neutralidade partidária. Havia um alinhamento entre os três Poderes da República. O Grito dos Excluídos, apesar de ser um evento marcado por organizações de esquerda não representava, necessariamente, um movimento partidário.

A harmonia reinava nas mentes e corações brasileiros. Os brasileiros iam às ruas no 7 de setembro para ver misturada toda de movimentos cívicos-militares. E tudo era muito bonito. Até que esse cenário foi contaminado com a carga tóxica de Jair Bolsonaro. O ex-presidente e o Bolsonarismo se apropriaram do 7 de setembro e sequestraram os símbolos nacionais como fossem eles fossem coisa exclusivamente deles. Usar a bandeira do Brasil passou a ser sinônimo de ser bolsonarista, “patriota”. Até a camisa da seleção, que tanto orgulho já nos deu, eles se apropriaram. A amarelinha, carinhosamente usada pelos brasileiros nos jogos da Copa do Mundo, torneios sul-americanos, e em amistosos da seleção passou a ser usado pelos bolsonaristas para vestir uma ideologia que tem cor e jeito de fascismo.

Jair Bolsonaro foi eleito em fins de 2018 e, durante os quatro anos que durou o seu mandato, ele mudou a cara do 7 de setembro, incluiu nele mais um matiz, o político-partidária. Transformou as ruas pacíficas em arenas de guerra na qual eram atacados o Congresso Nacional e o STF e integrantes dessas instituições. Até sobrou ataques para as urnas eletrônicas e a defesa do voto impresso.

O primeiro 7 de setembro sob a regência de Bolsonaro aconteceu em 2019. O desfile ocorrido na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, ainda conseguiu passar um ar de normalidade, entretanto ali já começou as quebras de protocolos promovidas pelo presidente e que escalariam nos anos seguintes. Durante o desfile Bolsonaro desceu do carro oficial para caminhar entre a multidão, chegando até mesmo a convidar uma criança dentre o público presente para desfilar no carro oficial.


Em 2020, o mundo era acometido pela terrível peste da Covid 19, não sendo possível realizar os desfiles da forma tradicional, reunindo multidão nas ruas. A solução encontrada foi fazer uma cerimônia simples com hasteamento da bandeira nos jardins do Palácio da Alvorada, e a apresentação da esquadrilha da fumaça. 

Obviamente, Bolsonaro aproveitou a ocasião para criar polêmica ao criticar as políticas de isolamento social determinadas por prefeitos e governadores para conter o vírus. Na entrada da residência oficial haviam se reunido alguns negacionistas apoiadores do presidente, e indo contra as orientações dos profissionais da área de saúde, que recomendavam para aquele momento da história, isolamento social e uso de máscara, Bolsonaro foi até eles e com eles interagiu sem o uso de máscara.

No 7 de setembro de 2022 comemorava-se o Bicentenário da Independência. O país estava às vésperas de mais uma eleição presidenciável. O governo Bolsonaro usou de forma ostensiva a máquina estatal em prol da reeleição. Até o coração de D. Pedro I foi trazido de Portugal, cedido pelo governo português, veio parar no Palácio do Itamaraty. O desfile ocorreu, como de costume, na Praça dos Três Poderes. Porém, a poucos metros do palanque oficial foi posicionado um trio elétrico. Bolsonaro desceu do palanque oficial e, em seguida subiu no trio elétrico, e o que era evento oficial transformou-se em comício eleitoral.  

À tarde daquele mesmo dia, Bolsonaro foi ao Rio de Janeiro e lá, deslocou o desfile que tradicionalmente ocorria na Avenida Presidente Vargas, e o colocou na Orla de Copacabana, ponto de encontro das manifestações bolsonaristas, e mais uma vez, transformou evento oficial em comício.

Por essas e outras infrações cometidas Bolsonaro pagou um preço alto: a inelegibilidade. Em julgamento encerrado na tarde de sexta-feira, 30 de junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por maioria de 5 votos a 2, declarou a inelegibilidade de Bolsonaro.

O que mais pesou nessa decisão foi uma reunião no Palácio da Alvorada feita com a presença de embaixadores estrangeiros, em 18 de julho de 2021. Bolsonaro reuniu os embaixadores para atacar as urnas eletrônicas, e dizer que elas não eram confiáveis. Os ministros do TSE concluíram que houve por parte do então presidente, abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

Outra pena ainda mais dura viria em 11 de setembro de 2025, quando a Primeira Turma do Tribunal Superior Eleitoral, condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por participação na trama golpista. Foi a primeira vez que um ex-presidente foi condenado por golpe de estado.

E agora o filho de Bolsonaro concorre as eleições deste ano. Será que o Brasil cometerá o mesmo erro que em 2022? Será que abraçará o golpismo? Tempos estranhos e sombrios este em que vivemos.


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Show de horrores: Bastidores da Copa 2026

Posted by Cottidianos on 23:37

 Campinas, terça-feira, 13 de julho


O rei dos torneios do mundo futebol está chegando ao fim. Jogado nos gramados dos Estados Unidos, Canadá, e México, a Copa do Mundo, edição de 2026, é a primeira a reunir 48 equipes. Um aumento de 16 equipes em relação àquela realizada em 2022, no Catar, que contou com a participação de 32 equipes.

De certa forma, a Copa do Mundo lembra os circos romanos, na qual milhares de pessoas se reuniam para ver bravos guerreiros competindo nas corridas de bigas. Para os competidores era um esporte bastante perigoso, pois eles tinham que mostrar habilidade de conduzir suas bigas em meio a dezenas de competidores. Era preciso equilibrar velocidade com habilidade. Era pura adrenalina.

Para os espectadores era pura diversão. Oportunidade de se deixar extasiar vendo aquelas corridas eletrizantes, cheias de rivalidade, acidentes espetaculares, e oportunidade de esquecer, ainda que por alguns momentos, as dificuldades e as lutas do dia a dia. Por lá também tinha a paixão das torcidas.

Basta olharmos para os estádios lotados, para as torcidas apaixonadas incentivando as suas seleções, e para os atletas em campo, dando o melhor de si. A diferença dos remotos das arenas romanas é que, hoje em dia, além das milhares de pessoas que lotam as arenas esportivas, outras milhões de pessoas assistem aos jogos pela TV ou pela Internet.

Uma coisa permanece igual: No final haverá sempre um vencedor que exibe o troféu da vitória, e o perdedor que chora o título perdido.

Está sendo um espetáculo lindo ver toda essa paixão, toda essa dedicação, todo entusiasmo da torcida, aliados ao esforço e a dedicação dos jogadores em campo.

Porém, algumas notas tristes tem destoado de todo esse clima de alegria. Coisas que não tem nada a ver com futebol, mas com política.

A primeira polêmica ocorreu antes de a bolar rolar em campo. Apesar da Somália não estar entre as seleções classificadas para a Copa, o mundo esportivo daquele país estava orgulhoso. Afinal de contas, iria ter, pela primeira vez, um de seus árbitros apitando jogos de Copa do Mundo.

Omar Artan, 34 anos, estava entre os 52 árbitros escalados pela FIFA para atuar nas partidas dos jogos da Copa do Mundo deste ano. entretanto o governo dos Estados Unidos jogou um balde de água fria nessa festa. Ele negou a entrada de Omar em solo americano, apesar de não haver irregularidades no visto dele. A Somália é um dos países cujos cidadãos não são bem vindos nos Estados Unidos.

De volta à Somália Omar foi recebido como herói por uma multidão de pessoas. Ele também foi convidado pela Uefa para apitar a supercopa da Europa em reconhecimento ao seu trabalho dentro de campo.

Vimos as restrições sofridas pelos jogadores iranianos. Eles foram proibidos de se hospedar nos Estados Unidos. Nos jogos disputados em solo americano eles foram obrigados a estabelecer a base de treinamento deles na cidade de Tijuana, México, e só podiam atravessar a fronteira no dia dos jogos, retornando após o término deles. Não é difícil imaginar o quanto esses atletas chegavam cansados às partidas que disputaram. Apesar de todos esses desafios a seleção iraniana encerrou sua participação invicta ainda na primeira fase, com três empates.

Porém, as dores de cabeça da equipe iraniana começaram antes de pisar em solo americano. Os jogadores e integrantes da comissão técnica só receberam autorização para entrar nos Estados Unidos uma semana antes de viajar. Dirigentes da federação iraniana tiveram a entrada vetada. Torcedores iranianos que desejavam assistir aos jogos de sua seleção também tiveram visto negado.

Vamos para a frente que ainda não acabou o show de horrores.

A próxima vítima foi a seleção uruguaia. No dia 15 de junho a seleção uruguaia embarcou empolgada no ônibus que os levaria ao Hard Rock Stadium, em Miami, onde jogou com a Arabia Saudita, tendo empatado o jogo em 1 x 1.

A desagradável surpresa se deu quando eles desembarcaram na porta do estádio. Lá, os aguardavam agentes de segurança. Eles fizeram os jogadores ficarem em uma fila ao lado do ônibus enquanto os agentes faziam uma revista rigorosa nas malas e mochilas deles. Cães farejadores também foram usados na “operação”. Pensem na humilhação que devem ter sentido jogadores e comissão técnica.

Os jogadores da seleção senegalesa não escaparam dos vexames. Eles foram revistados ainda na pista do aeroporto, ao descerem da aeronave nos Estados Unidos. Nas imagens que foram divulgadas aparecem os agentes de segurança fazendo revista individual nos jogadores e comissão técnica.

Posteriormente, dirigentes da seleção do Senegal soltou uma nota dizendo que o “procedimento aconteceu em conformidade com as regras de segurança”, a imagem por si só, soou estranha.

Porém, a grande polêmica desta copa foi a anulação da suspensão do jogador da seleção americana, Folarin Balogun. O árbitro brasileiro havia aplicado um cartão vermelho ao atleta o que o deixaria fora da próxima partida. Dois dias depois o presidente Donald Trump revelou ter conversado com Gianni Infantino, presidente da Fifa, e lhe pediu para anular a suspensão, no que foi prontamente atendido.

E assim assistimos a bravos jogadores suando a camisa dentro de campo, e uma Fifa submissa a Donald Trump. A primeira cena transmite uma imagem de ideal esportivos. A segunda cena, nos transmite a imagem de algo desprezível.


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Venezuela: o luto e o sofrimento de um povo

Posted by Cottidianos on 23:34

 Campinas, 07 de julho



  

 Comecei o post anterior falando de pessoas que, literalmente, se matam por uma foto, por uma selfie, muitas vezes arriscando a vida em locais perigosos, lugares em que um deslize, uma falha pode ser fatal.

Antes de entrar no assunto dessa postagem propriamente dito, volto ao tema da postagem anterior ainda que de maneira breve.

Por que volto ao assunto? Por que depois da última postagem aconteceu mais uma tragédia relacionada a esse tema. Vamos aos fatos.

Fazia uma bela e ensolarada manhã de domingo, 28 de junho. Caio Rocha Aguiar Arrabal, 44 anos, estava feliz em meio a vista deslumbrante que se descortinava aos seus olhos enquanto percorria a trilha da Pedra dos Macacos, em São José do Imbassaí, bairro do munícipio de Maricá, cidade da Grande Rio. A trilha fica a cerca de sete quilômetros do centro de Maricá.

Ele fazia parte de um grupo que guiava pessoas que vieram de Araruama para fazer percorrer aquela trilha. Apesar de atuar no grupo que conduzia os aventureiros, para ele também era novidade: era a primeira vez que ele próprio percorria o trajeto.

Encantado com a beleza do lugar, o homem caiu na armadilha do vídeo perfeito para viralizar nas redes sociais. Ele se deparou então com uma formação rochosa e resolveu subir nela, enquanto uma amiga fazia as filmagens.

Caio desceu de costas para a pedra. A mulher que filmava chega a pedir para ele ter cuidado. Certamente percebia o tamanho da encrenca na qual ele estava se metendo. Quando ele virou o corpo para descer de frente, se desequilibrou e acabou caindo de uma altura de cento e cinquenta metros em uma área de mata fechada, densa, e de difícil acesso. Como era a primeira vez dele na trilha, aconteceu de ele descer pelo lado errado da pedra. Um erro fatal que lhe custou a vida.

O acidente aconteceu por volta das onze e meia da manhã, mas devido à dificuldade de acesso ao local, os bombeiros só conseguiram chegar até o corpo de Caio, no meio da tarde. E não foi fácil chegar até ele. Foi preciso usar helicóptero, bombeiros especializados em rapel, fazer escalada, e ascensão com cordas.

Em novos tempos de redes sociais, continua valendo a velha máxima: “O bem maior é a vida”.

 

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Saindo das tragédias individuais falemos das tragédias de grandes proporções. Aquelas que independem de redes sociais para que ocorram.

A vida dos venezuelanos seguia relativamente tranquila. Digo relativamente porque, devido a governos tiranos e corruptos, a vida daquele povo sofrido deixou de ser tranquila faz tempo.

Mas a vida tem que seguir acontecendo, em meio a democracias ou em meio a ditaduras as pessoas precisam trabalhar, precisam fazer comprar, precisam amar, enfim precisam estar vivas e fazer coisas que pessoas vivas fazem.

E fizeram tudo isso naquele dia. Às dez horas da noite, entretanto, muitos venezuelanos descansavam depois de um dia de labuta. Outros saiam para se divertir. Outros ainda estavam no trabalho nos hospitais, nos bares e restaurantes, postos de gasolina, e etc.

Então a terra, furiosa, tremeu, e tremeu forte. Um tremor de magnitude 7,2 abalou o chão da Venezuela. E não parou por aí. Trinta e nove segundos depois um segundo tremor de magnitude 7,5, seguiu-se ao primeiro. Prédios inteiros desabaram vitimando milhares de pessoas.

Pelos dados atualizados até o momento pelo governo da Venezuela já chegam a 3.685 o número de mortos, de 17 mil o de pessoas feridas. As autoridades venezuelanas evitam falar em número de desaparecidos, mas segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), esse número pode chegar a 50 mil. De qualquer modo, se parássemos apenas no número de mortos atual já teríamos uma tragédia de grandes proporções.

Os tempos sombrios em que a Venezuela viveu e vive até hoje, sofrendo nas mãos de políticos que só pensam em enriquecer a si mesmo jogaram o país na miséria. Primeiro foi Hugo Chaves, depois Nicolas Maduro, e agora com o governo interino de Delcy Rodrigues.

O impressionante é que a Venezuela poderia ser um dos países mais ricos do mundo. Debaixo daquele solo existe muito ouro negro: o petróleo, riqueza cobiçada em todo o mundo. Haja visto, o que acontece atualmente no estreito de Ormuz e como as ameaças do Irã de fechá-lo põe o mundo em polvorosa.

Na verdade, a Venezuela já foi considerada um dos países mais ricos do mundo. Isso se deu na década de 50. Naqueles tempos áureos, em termos de petróleo e de PIB o país só ficava atrás dos Estados Unidos, Suíça e Nova Zelândia. Poderosa era a Venezuela, não era? Chegava a fazer inveja nos países vizinhos.

O país também já foi referência quando o assunto era liberdade. Viver e expressar opiniões com liberdade. Pessoas fugiam de ditaduras na América Latina e na Europa e iam se abrigar na Venezuela. O petróleo ajudava a financiar grandes obras, e tudo corria como num sonho.

E assim foi até a década de 1980. Entretanto, a Venezuela não diversificou a economia, deixou-a muito dependente do petróleo, esse foi seu maior erro. Em fins dos anos 80, o preço do ouro negro no mercado externo caiu, e isso trouxe para a Venezuela inflação e aumento de pobreza.

Em 1989 a população não aguentou a crise e foi às ruas em protestos violentos que resultaram em centenas de mortos. Todo esse turbilhão de acontecimentos preparou o terreno para as cobras venenosas. Aquelas que ficam ali quietas, só esperando o momento certo para dar o bote e envenenar suas presas. Ou para os lobos em pele de cordeiro. Aqueles que chegam prometendo uma coisa e fazem outra completamente diferente.

Hugo Chavez surgiu como promessa de colocar tudo nos eixos novamente. Até aprovou uma nova constituição e reforçou o papel do Estado na economia. Mas depois, mostrou sua verdadeira face. Rasgou a constituição e jogou o país numa ditadura. Conseguiu eleger seu sucessor, Nicolas Maduro, e o país desceu de vez ladeira abaixo. Até ocorre eleições na Venezuela. Mas, como temos visto pelos noticiários, elas são apenas fachada para dar um verniz de democracia a uma ditadura.

Todos esses anos de descaso para com o país e para o povo venezuelano é inevitável que se revelem os fracassos em momentos de crise, ou de catástrofes, como essa de agora, por exemplo.

Os venezuelanos tem reclamado muito da lentidão do governo venezuelano. Temos visto pelos noticiários os cidadãos do país, retirarem os escombros com as próprias mãos, sem o auxílio de nenhum instrumento. Militares e equipes de resgates demoram a chegar aos locais atingidos pela tragedia e onde há pessoas sob os escombros.

Felizmente, a solidariedade humana se mostra forte nesses momentos. E muitos países tem enviado socorro ao povo venezuelano, seja através de pessoal de apoio, médicos, e outros voluntários, além de enviarem também artigos básicos como água e comida para aquele povo já tão sofrido.


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Um salto para o sucesso... E um salto para a morte

Posted by Cottidianos on 00:43

Campinas, 17 de junho



Começo a postagem de hoje fazendo uma homenagem.

É coisa difícil os marginalizados, aqueles que estão na base da pirâmide conseguirem um diploma universitário no Brasil. As dificuldades até que se atinja esse objetivo são inúmeros. Muitos estudantes vão ficando pelo caminho ao longo dos anos escolares, dentre os principais motivos estão as dificuldades financeiras, a necessidade de trabalhar para se manter e/ou ajudar a família. E também o desconhecimento de políticas públicas que os ajudem a chegar ao topo da montanha da educação.

É difícil, porém não impossível. Muitos estudantes já provaram que, com fé, determinação, e coragem, é possível chegar lá.

Um desses jovens que conseguiu não apenas um diploma de curso superior, mas também o título de Ph.D. em Economia, foi Gilberto José Nogueira Júnior, 43 anos, mais conhecido pelos brasileiros pelo nome de Gil do Vigor. A cerimônia de formatura de Gil aconteceu na quinta-feira, 11, na Universidade da Califórnia em Davis (UC Davis), nos Estados Unidos.

Gil nasceu e cresceu em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Para um menino, negro, pobre, da periferia, e que se descobriu e se assumiu gay ao longa da caminhada, chegar ao topo da caminhada educacional é um grande feito.

Em suas redes sociais, ele escreveu:

“Eu venci através da educação. Eu venci porque eu acreditei e vou continuar acreditando pra sempre.

Muitas pessoas falaram que eu venci por conta do Big Brother ou por outros motivos. E eu sei que o Big Brother foi uma parte importantíssima na minha vida, mas a verdade é que sem a educação, a minha mãe, os meus professores e os amigos que seguraram minha mão enquanto eu morava em outro país, eu nada seria.

Só quem estava próximo a mim sabe o quanto foi difícil, quantas vezes eu chorei e quantas vezes eu pensei em desistir.

Mas se tem uma coisa que eu aprendi com a minha família e meus amigos é que desistir nunca será uma opção e que a educação sempre será minha primeira opção”.

Ele cita o programa Big Brother Brasil por ter participado em 2021 da vigésima primeira edição deste programa. Não chegou à final, chegou muito perto. Depois do BBB foi convidado a participar do programa Mais Você, onde encontrou em Ana Maria Braga, uma fada-madrinha, alguém que lhe deu o apoio e o valor que ele precisava.

Depois do sucesso que conseguiu na TV por causa de sua simpatia e empatia com o público, e sua responsabilidade, ele decidiu levantar a bandeira da educação, e ajudar tantos jovens que, como ele, sonham com um futuro melhor através da educação.

 

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Ponte do Esqueleto, Limeira-SP 

Falamos do Gil Vigor, um indivíduo que conquistou êxito e sucesso, mas que não se deixou deslumbrar pela “luze, câmera, ação”. O que é coisa difícil no meio artístico.

Mas, e quando esse deslumbramento não é de um indivíduo, mas de todo um organismo social? O que fazer quando os indivíduos estão afetados por um comportamento que os faz agir como autônomos, sem pensar.

Tenho visto o caso de muitas pessoas que, literalmente, arriscam a vida à beira de precipícios, ou rochedos à beira, e em muitas outras situações de perigo, apenas para conseguir a foto perfeita.

Trago para vocês dois casos curiosos que aconteceram, recentemente, no Brasil. Um deles, infelizmente, terminou de forma bem trágica. Talvez vocês já tenham visto na impressa, pois foi um caso de grande repercussão. O outro poderia ter ido pelo mesmo caminho, felizmente, o protagonista dele teve melhor sorte.

 Era manhã de sábado, 13 de junho, em Limeira, cidade localizada a 145km da capital São Paulo. Um grupo de pessoas aguardava na Ponte do Esqueleto, uma estrutura desativada, localizada na divisa das cidades Limeira e Cordeirópolis, no Estado de São Paulo.

A ponte fica na Estrada Dr. Cássio de Freitas, que dista cerca de 7km do centro de Limeira. De cima da ponte apreciavam a paisagem rural cercada de muito verde de um lado e de outro da ponte desativada. De onde estavam era fácil observar as trilhas que cortam a mata, trilhas essas muito usadas e apreciadas por corredores, ciclistas, ou por quem gosta de fazer caminhada em meio à natureza. O lugar também não passa despercebido por quem gosta de praticar esportes radicais como os praticantes rapel e rode jump.

Desde que foi desativada há cerca de trinta anos o local não é mais utilizado pelos meios de transporte como ligação entre uma cidade e outra, tornando-se então um ponto turístico muito frequentado na região.  

E era por isso que o grupo estava ali: para a prática de rode jump. Para se jogar no vácuo de 40 metros que separam a ponte do solo lá embaixo.

Era também para experimentar essa emoção, essa aventura, esse frio na barriga que estava ali a linda jovem de 21 anos, Maria Eduarda Rodrigues de Freitas. A jovem era estudante de Educação e trabalhava em uma academia de ginástica, em Jandira, cidade na qual morava. Jandira fica a 152 km de distância da cidade de Limeira.

Outros saltos aconteciam antes de chegar a vez de Maria Eduarda. Os funcionários das empresas Entre Cordas e Ih Voei responsáveis pela realização dos saltos orientavam os clientes, amarravam as cordas ao corpo deles, checavam se estava tudo em ordem, e os ajudavam a saltar, em alguns casos, literalmente, os jogavam ponte abaixo.

Enquanto isso, Maria Eduarda aproveitava para abastecer suas redes sociais com fotos do lugar, as pulseiras de identificação, e imagens dos funcionários da empresa saltando da ponte em saltos demonstrativos. As fotos de natureza e atividades ao ar livre era constante da jovem amante da natureza.

A última postagem feita pela jovem, feita às 7h31min, mostra o local de onde eram feitos os saltos, e nela a jovem escreveu: “Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte???

Enfim, chega o grande momento para Maria Eduarda. Há duas escolhas de modalidade. Em uma delas os participantes pulam por livre e espontânea vontade. No outro a pessoa escolhe ser jogada da ponte. Essa foi a escolha da jovem.

Dois funcionários que estão sobre um dos pilares que funcionaria como plataforma de lançamento. Outro permanece em cima da ponte, próximo a borda. Este segura Maria Eduarda pelos pés, os dois já em cima da plataforma de lançamento, um a segura pela cintura, e outro a segura pelos ombros. E assim, posicionada a cliente, eles caminham para a beira da plataforma de lançamento. E lançam Maria Eduarda para aquele que seria seu último salto. Seu último ato, sua última cena no teatro da vida.

Os funcionários da empresa lançaram Maria Eduarda no vazio. Sob a ponte permaneceu a corda que deveria estar amarrada ao corpo dela. Apenas quando a jovem já tinha sido lançada da ponte é que se ouvem os gritos de espanto de quem estava lá esperando para ser o próximo a saltar, alertando de que Maria Eduarda teria sido lançada sem a corda.

Ao perceber que uma tragédia havia acontecido as outras pessoas que estavam sob a ponte entraram em choque. Os funcionários entraram em pânico. Uma enfermeira que estava no local como turista desceu até o local onde a jovem havia caído. Ela percebeu que havia pulsação no corpo dela, fraca, mas havia. Então a enfermeira Rayza Dias tentou acalmá-la, dizendo “Calma! Tenha calma! Ninguém morre no meu plantão”.

Mas não houve jeito. Ali mesmo, embaixo daquela ponte, e cercada pela natureza que tanto amava, Maria Eduarda exalou seu último suspiro.

Quando a polícia chegou ao local ainda estavam perto do corpo da jovem, a enfermeira e dois funcionários da empresa responsável pelo salto. A dupla de funcionários entregou à polícia os documentos pessoais, mas acabaram fugindo para a mata quando os policiais se afastaram para prestar apoio ao resgate, sendo localizados depois pelo helicóptero Águia da PM.

Luís Feliciano Egoroff, Vitor de Freitas Gonçalves, e Maicon Fernandes Cintra, foram presos em flagrante. Foram autuados por homicídio com dolo eventual – quando não há intenção de matar, mas se assume o risco de. Eles estão em prisão preventiva. Seguem as investigações do crime, pois o que aconteceu com Maria Eduarda não foi fatalidade, foi assassinato.

Presa ao corpo da jovem, havia uma câmera que gravou os últimos instantes dela, e, consequentemente, do salto. Essa câmera desapareceu depois da queda. A polícia está à procura dessas gravações pois nela podem estar contidas as provas que mostram a dinâmica do crime, e a responsabilidade de cada envolvido.

E aqui eu volto ao início dessa narrativa quando falava desse deslumbramento. Várias pessoas estavam lá filmando o salto, e ninguém percebeu que faltava o principal num salto de rode jump: a corda. Três funcionários estavam ali, certamente devem ter ajustado a câmera no corpo do jovem. Como não perceberam que faltava a corda a ser presa ao corpo dela?

Não culpo Maria Eduarda pela sua própria morte. Ela estava envolvida com o ato de saltar, nervosa, ansiosa, provavelmente era a primeira vez que fazia isso. Muito menos, a culpa é de quem estava ali em cima da ponte na hora do salto, esperando sua vez. A responsabilidade pelo que aconteceu é exclusivamente dos funcionários que jogaram a jovem da ponte, e que deveriam ter checado se estava tudo de acordo para a efetivação do salto.

Mas percebem que em tudo isso há o desejo de registrar as imagens? É disso que falo é isso que quero destacar.

***


Outro fato interessante aconteceu Foz do Iguaçu, oeste do Paraná, no sábado, 06 de junho.

Um turista brasileiro estava em cima da passarela, nas Cataratas do Iguaçu. O celular do homem cai. Ele se dependura na passarela, desce, entra na água, e recupera o celular que havia caído. Após isso, ele sobe e retorna à passarela.

E não é falta de orientação. Ao entrar no parque os visitantes recebem orientações de segurança que atuam no local. Dentre outras coisas é dito a eles que não ultrapassem, subam ou sentem no guarda-corpos para tirar selfies, ou recuperar objetos. Também é dito a eles que, caso algum objeto caia nas encostas, no rio, eles devem acionar os bombeiros para que façam o resgate do objeto perdido.

Bastaria apenas um pequeno escorregão e o homem poderia ser arrastado para o abismo das águas. Situação perigosa.

Outra cena impressionante e irresponsável, aconteceu no dia 17 de fevereiro deste ano.

Naquele dia, um homem foi visto segurando um bebê por cima das grades de segurança no mirante da Garganta do Diabo, que fica no lado argentino das Cataratas do Iguaçu. O local tem uma área com queda d´’agua de 80 metros de altura. Olhe o leitor para um leitor para um prédio de 27 andares e veja o que essa altura significa. O homem ergue o bebê pouco acima das águas, enquanto uma mulher faz a foto.

Bastaria apenas um deslize e o bebê escorregaria pelas mãos do irresponsável, provavelmente, o pai da criança.

É certo que costumamos dizer hoje em dia que a nossa vida está no celular. Mas não devemos morrer por causa do celular. Muito menos fazer selfies maravilhosas em locais de alto risco que depois irão apenas servir como uma triste recordação para os nossos entes queridos.

Encerro esse texto com uma frase para reflexão e que fez parte de uma campanha de trânsito lançada em 2024, durante a Semana de Trânsito daquele ano. A frase enfatiza a importância de reduzir a velocidade com o objetivo de promover a segurança nas vias e, consequentemente, salvar vidas. A frase é: SEU BEM MAIOR É A VIDA!

Essa frase foi pensada para um contexto de segurança no trânsito, mas pode servir também para qualquer situação que nos coloque em perigo. Não esqueça disso você que ora lê esse texto.

 


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