Daniel Vorcaro: Um diabo no mundo dos negócios
Quinta-feira,
17 de setembro
Começo este artigo jornalístico com uma passagem bíblica. Não, não é sermão, é artigo jornalístico, embora não seja comum começar um desta forma. O faço porque esse texto bíblico é uma lição de ética e respeito aos princípios nos quais se acredita. E também por que cabe como uma luva para o presente artigo.
Vamos
lá então, fazer uma visita a passagem bíblica que fala da tentação de Jesus no
deserto, que pode ser lida nos evangelhos de Mateus e de Lucas, ambos no
capítulo 4.
Nos
dizem os evangelistas que Jesus havia voltado do Jordão onde fora batizado por
João Batista. E, em espírito, foi levado pelo espírito ao deserto. E na bíblia
tudo é simbólico, e o deserto, no caso, remete a um período de preparação,
aprendizado.
Ali,
na solidão do deserto, o Mestre jejuou durante quarenta dias. E o diabo, só de
longe, observando. Ao termino desse período, obviamente, Jesus sentiu fome. O
diabo deve ter esfregado as mãos, sorrindo cinicamente, afinal, era a vez de
ele entrar em ação.
_
Se tú és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pão,
disse ele.
_
Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus,
respondeu Jesus.
Para
a fome o diabo apresentou uma sugestão simples, em forma de desafio.
Transformar pedras em pão. Bastaria que o filho de Deus fizesse esse milagre e
tudo estaria resolvido. Não obteve êxito. Ainda não era hora de Jesus começar
os milagres. Na vida, tudo tem sua hora, seu momento.
O
diabo partiu para sua segunda tentativa. Levou Jesus para o alto de um monte, e,
de lá, lhe mostrou uma visão deslumbrante na qual podiam se ver todos os reinos
do mundo. Glória e poder diante do Mestre. Bastaria que Ele fizesse apenas uma
coisa simples.
_
Tudo isso será teu se, de joelhos, me adorares. Disse o príncipe das
trevas.
_
Afasta-te de mim, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor Deus adorarás e
somente a ele servirás.
Era
uma proposta tentadora. Dominar reinos, governar pessoas, tê-las ao seu serviço.
Mas novamente, a proposta não atraiu Jesus. O filho de Deus não iria dobrar o
joelho diante do inimigo. Decepcionado, o diabo resolveu tentar mais uma vez.
Quem sabe oferecendo a fé como espetáculo, fazendo do poder religioso uma
ferramenta para dominar a mente das pessoas.
Ele
então levou Jesus para o alto de um templo e disse:
_
Se és filho de Deus, lança-te daqui para baixo; por que está escrito: Mandará
os seus anjos juntos a ti para te acompanharem, para que não tropeces com teu
pé em pedra.
_
Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus, disse,
resolutamente, Jesus.
Vencido
em todas as suas tentativas de fazer o filho de Deus cair em pecado, o diabo se
afastou. Interessante é que, no evangelho de Lucas é acrescentada a expressão “por algum tempo”, ou seja, o diabo não
desistiu, apenas deu um tempo.
***
O
diabo esperto como é, e profundo conhecedor das fraquezas, dos desejos, e das
necessidades mais íntimas que residem, adormecidas ou não, no coração do homem,
sempre dá um jeito de aparecer em algum lugar. Numa dessas suas andanças ele
resolveu aparecer no mundo financeiro do Brasil, encarnado na pele de um jovem
empresário mineiro.
***
Segunda-feira,
17 de novembro de 2025
Aeroporto
de Guarulhos – SP
21
horas
Daniel Vorcaro se preparava para viajar com destino a Malta, pequeno país independente, localizado no coração do Mediterrâneo, situado entre a Sicília, Itália e o Norte da África. Mais perto daquela que desta.
De
Malta, o empresário seguiria para Dubai, nos Emirados Árabes, santuário do
luxo, aliás, um lugar que tinha tudo a ver com ele. Apesar disso, o banqueiro
demonstrava uma certa ansiedade, como se estivesse com pressa de deixar o país.
O objetivo da viagem, segundo ele havia relatado a amigos e funcionários, era
assinar o contrato de venda do Banco Master.
O
dia fora cansativo. Cheio de coisas importantes para decidir. Logo cedo da
manhã ele já estava em contato com o ministro do STF, Alexandre de Moraes.
Comunicava ao ministro que queria antecipar a venda do banco ao grupo Fictor. E
que essa transação ocorreria com investidores da terra dos sheiks, e que
viajaria para lá com esse objetivo.
Às
oito horas da manhã uma representante de Vorcaro já estava em frenética
atividade tentando vender um apartamento de cobertura no empreendimento
Vizcaya, na avenida Horácio Lafer, em São Paulo. Alegava ela que a transação já
vinha sendo articulada desde o dia 14 de novembro. Apesar de toda pressão para
fechar negócio ela não teve êxito nessa empreitada.
Vorcaro
volta novamente a se comunicar com Alexandre de Moraes às 8h16min. Era a
segunda vez que entrava em contato com o ministro naquele dia.
Às
11h08min o site O Bastidor, cujo dono
é o jornalista e empresário Diego Escoteguy, havia publicado uma matéria
dizendo que havia um processo criminal tramitando em sigilo na 10ª Vara Federal
de Brasília, processo este que investigava fraudes nas carteiras de créditos
vendidas pelo Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). Tudo combinado. Vorcaro
havia pago dois milhões de reais para o jornalista publicar a reportagem. E com
que objetivo?
Isso
proporcionaria aos advogados de defesa do banqueiro entrar com alguma ação a
fim de evitar a prisão do banqueiro, caso essa fosse decretada. Na verdade,
como Vorcaro tinha acesso a informações sigilosas dentro da PF, os advogados já
sabiam que isso iria acontecer.
De
fato, ainda naquele dia 17, o advogado Wander pede acesso a investigação
citando a tal reportagem como fonte de informação. Passam o dia tentando
contato com o juiz que estava à frente do processo.
Às
6h30min da manhã daquele dia Vorcaro já estava em contato também com os
servidores do Banco Central, Ailton Aquino chefe do Departamento de Supervisão
Bancária, e com Paulo Sérgio, Diretor de Fiscalização e Chefe Adjunto de
Supervisão. Além de outros técnicos. A reunião é realizada às 13h35min. Após a
reunião começa a circular reportagens sobre a venda do Banco Master ao Fictor.
Às
15h30min o juiz Ricardo Soares Leite decreta a prisão do banqueiro. Dezoito
minutos depois, os advogados de defesa dele, que ainda nem haviam sido
comunicados oficialmente da decisão, protocolam uma petição na 10ª Vara se
posicionando contra medidas cautelares que viessem a ser adotadas contra seu
cliente, alegando que isso poderia provocar prejuízos enormes ao Banco Master.
De posse de informação privilegiada, agiram como se não soubesse da decretação
da prisão.
E
o restante da tarde decorreu com o mesmo frenesi com o qual tinha começado o
dia, ainda antes do sol nascer. Vorcaro se preparava para a viagem (ou seria
fuga?), e o tempo que sobrou foi consumido em arrumar bagagens, providenciar passaporte,
e essas coisas relativas a viagens internacionais.
Às
20h48min Vorcaro troca a última mensagem com Alexandre de Moraes, informando a
este que estava no aeroporto, pronto para ir aos Emirados Árabes fechar o
contrato de venda do Master.
Às
22hs chegou enfim o momento de partir de terras brasileiras, quem sabe, ficar
longe por um bom tempo. Mas nem sempre as coisas saem como planejado. Na hora
da partida chega a visita indesejada por Vorcaro da Polícia Federal. Em vez de
Dubai ele foi levado para uma cela da PF.
***
Em
pouco tempo, ele construiu um império, colocou as mais altas autoridades do
país aos seus pés, e enganou milhões de brasileiros, que confiaram suas
economias e cuja matéria de trabalho eram as operações fraudulentas.
Entre
as autoridades que colocou a seus pés estão deputados, senadores, governadores,
servidores do Banco Central, e até ministros do Supremo Tribunal Federal.
Entre
as milhões de pessoas que ele enganou estão pequenos investidores, aposentados,
e dinheiro de fundos de pensão de funcionários públicos.
Em
relação aos poderosos, ele agia como o diabo tentando um faminto Jesus no
deserto. No caso, Jesus tinha fome de paz e de justiça divina e de
justiça social. Os poderosos aos quais Vorcaro tentou, não apenas três, mas
várias vezes, tinha fome de poder, de dinheiro, de prazeres sexuais. A uns ele
tentava oferecendo contratos milionários, soma vultuosas para financiar
produções cinematográficas medíocres, que, na verdade, eram destinadas a outros
usos corruptos. A outros ele tentava com pequenos luxos, uma viagem à Disney,
caronas em seus jatos particulares, diárias em resorts. A outras ainda oferecia
a tentação da bebedeira e do sexo oferecendo uísques caríssimos e festas com
prostitutas de luxo.
O
diabo do deserto tentou o mestre Jesus tanto quanto pode. Porém em nenhuma
delas obteve êxito, pois a conduta do mestre estava pautada por uma sólida base
ética e moral. Ele tinha uma missão, um trabalho a cumprir e não poderia fazer
isso com a consciência pesada.
Quanto aos poderosos desse nosso Brasil, muitos dos quais se dizem seguidores de Jesus, e gritam a plenos pulmões nas praças, nas igrejas, e em cima dos palanques que o amam, estão, na verdade a anos luz de distância dos preceitos éticos e morais daquele a quem dizem seguir. Inebriados pelo vinho do luxo, do poder, do sexo, e da riqueza, não tem forças para dizer ao tentador: “Afasta-te de mim, Satanás”, pois tenho uma missão a cumprir junto ao meu povo e a minha nação brasileira”.


.jpg)








.webp)










