Fantasmas do passado
Campinas, 15 de outubro
Certa noite, cansado da lida do dia a dia,
adormeci profundamente.
Gradativamente fui descendo para o
insondável e misterioso reino dos sonhos. Era levado até lá por um ser de
grande porte. Uma luz azulada emanava do seu corpo etéreo. Grandes asas saiam
de saiam de seu dorso. Seu rosto emanava serenidade. Seus braços fortes e
aconchegantes me carregavam como se carrega uma criança nos braços.
Lentamente, fomos descendo cada vez mais.
Passamos por várias eras. Às vezes ouvíamos gritos de alegria, outras vezes, de
tristeza. Atravessávamos vales e desertos, regiões de luzes e sombras.
Até que chegamos enfim a um lugar que não
conhecia. Uma época de grandes instabilidades, rostos insatisfeitos e tristes
de pessoas que passavam por grandes provações e dificuldades financeiras.
-_onde estamos? Perguntei?
Antes da resposta do ser alado que havia
me levado àquele lugar, deixem-me dizer que ele era, se é que o perspicaz
leitor já não adivinhou que era.
Trata-se de Mórfeu, deus grego filho de
Hipnos, deus do sono. É ele quem molda as formas humanas enquanto sonhamos. Ele
cria as imagens nos nossos sonhos, às vezes são imagens reconfortantes, outras
não.
Para a minha pergunta feita acima Morfeu
respondeu:
_. Estamos na Alemanha, no ano de 1923,
mais precisamente na noite de 8 de novembro daquele ano. As ruas do centro do
Munique, na Baviera, estavam lotadas de pessoas. Elas marchavam pelas ruas.
Fisionomias sérias e concentradas, preocupadas. Tentam tomar o governo. Tem
como líder um revolucionário, de trinta e cinco anos, brilhante na arte da
oratória. Fazem parte de um partido político chamado nazismo, e são denominados
nazistas. Marcham determinados, porém a determinação deles esbarra num cordão
policial. Confusão. Tiros disparados. Gente correndo para todos os lados,
inclusive o líder. Resultado: 16 nazistas mortos. A partir daquele dia, os
mortos naquele confronto se tornariam para os nazistas heróis e mártires.
Hitler escapou dos tiros e da prisão em
flagrante, entretanto, dias depois foi preso, acusado de traição, e levado a
julgamento. Considerado culpado foi condenado a cinco anos de prisão, porém,
ficou apenas noves meses na prisão, sendo libertado em 20 de dezembro de 1924.
Foi na prisão que ele escreveu o livro que é considerado a bíblia do nazismo, Main Kempf, Minha Luta, na tradução em
português. Nesse livro ele já falava claramente sobre o que pensava do governo
da Alemanha e dos judeus. Não escreveu seus pensamentos nas entrelinhas do
livro, ao contrário, estava tudo ali, tão claro quanto o sol escaldante do meio
dia, para quem tivesse olhos para ler e ouvidos para entender.
Da tentativa de golpe Hitler aprendeu uma
lição: Era muito arriscado e complicado chegar ao poder através de um golpe que
envolvesse derramamento de sangue. Era mais tranquilo se infiltrar no poder
como um vírus se infiltra no corpo humano e, a partir das entranhas do
organismo humano, destruir todas as células de defesa do organismo
político-social.
E o caminho que ele encontrou para isso
foi o voto, a carreira política. A cada ano o partido nazista crescia um
pouquinho, como uma praga que se instala nos plantios e o agricultor só a
percebe quando ela já comprometeu metade da plantação.
Em
1928, o partido nazista conquistou 12 cadeiras no Reichstag, o parlamento
alemão. O número de filiados ao partido também crescia dia a dia.
A carruagem do tempo foi andando e, em
1929, veio a queda da bolsa em Wall Street provocou uma catástrofe mundial. E o
povo alemão que já vinha passando por maus bocados desde o fim da Primeira
Guerra Mundial, foi ainda mais para o fundo do poço. Vieram as dificuldades
financeiras, desemprego em massa, inflação altíssima, privações e desânimo.
Então, os alemães cansados da República, revoltados
com toda essa situação, e também cheios de amargura por terem perdido a
Primeira Guerra Mundial, começaram a buscar novas opções. E os nazistas eram
uma delas. Nas eleições de 1930, os partidos dos nazistas e o dos comunistas
foram os que obtiveram maior sucesso nas eleições. Quase 40% das cadeiras no
Reichtag ficaram com essas duas correntes ideológicas.
Os partidos moderados se
viram em uma situação delicada, uma vez que para governar precisavam de apoio
dos antidemocratas. Os comunistas, também
cansados da República, preferiram ficar ao lado dos nazistas e contra a
República. Coitados, fizeram como fazem as galinhas tolas que levam a raposa
para dentro do galinheiro, ou como a barata que se alia ao inseticida.
Nas eleições de 1932, Hitler se candidata
a presidente, e perde. Paul Von Hindenburg, candidato com o qual ele disputou a
eleição foi reeleito para a presidência da Alemanha. Hitler perdeu as eleições,
mas não perdeu a batalha: o partido nazista se tornou o maior partido do
Reichstag, porém ainda não possuía maioria.
No dia 30 de janeiro de 1933, através da
uma astuta jogada política, Hitler consegue tomar posse como chanceler da
Alemanha. E o partido nazista ainda ganhou mais dois cargos no governo. Um
sorriso de felicidade lhe brotava dos lábios: estava, finalmente, conseguindo
alcançar seus objetivos. Faltava-lhe apenas a cereja do bolo: a presidência.
Mas isso era uma questão de tempo, e ela não viria pelo voto. Ali, começava de
fato, o início de sofrimento para milhares de pessoas, especialmente para os
judeus.
Em fevereiro, um mês após começar sua
atuação como chanceler, Hitler já começava seu pacote de maldades: os direitos
civis foram a primeira vítima. Em março o parlamento lhe concedeu o direito de
fazer as leis sozinho. Em julho todos os partidos já haviam sido extintos.
Apenas o partido nazista podia existir.
Enquanto Mórfeu me levava para todos
aqueles acontecimentos. E eu estava terrificado. Foram apenas seis meses desde
a nomeação de Hitler como chanceler, e quanta coisa já havia mudado para pior
na Alemanha. E o pior e mais impressionante de tudo isso foi que a arma usada
para chegar ao poder foi apenas a caneta, nenhum tanque nas ruas, nenhuma bala
disparada, nenhuma gota de sangue derramada em confronto. Tudo se deu dentro da
mais “perfeita” legalidade. Obviamente, depois de alcançado esse objetivo, as
tropas dos exércitos de Hitler fizeram verdadeiros massacres nas ruas.
Já no ano de 1933 foram construídos os
primeiros campos de concentração, ainda não com os requintes de crueldade de
campos como o de Auschiwitz, que viriam a ser instalados tempos depois. Esses
primeiros eram apenas para “abrigar” aqueles que discordavam do regime;
comunistas, sindicalistas e qualquer outro opositor.
Depois vieram as leis contra os judeus
eles perderam a cidadania, os bens, os direitos, e a dignidade. Propagandas
nazistas associavam os judeus a ratos, e o povo bom da Alemanha, cegos por
aquela ideologia diabólica, embarcava nessas ideias absurdas.
Em agosto de 1934, através de um
plebiscito o nome de Hitler foi confirmado como presidente, unificando seus
poderes como chanceler e presidente. Oficializava-se dessa forma a ditadura que
já havia começado em 1933 quando ele assumiu como chanceler. E as teses da raça pura e do antissemitismo
ganharam ainda mais força.
Algumas categorias de pessoas nem ao menos
precisavam fazer oposição ao governo para que como diz o ditado “comer o pão
que o diabo amassou”, ou ainda pior: serem mandados para os campos de
concentração. Enfim, o horror chegou na Alemanha, e muito sangue inocente
jorrou naquela terra durante o reinado de Hitler e dos cruéis nazistas. Muitos
alemães só vieram a saber, de fato, das atrocidades que aconteciam por dentro
do regime depois do fim da guerra, depois que caiu a cortina da iniquidade. Foi
só então que a maioria dos alemães conheceu a face do monstro que eles haviam
cultuado.
O mais interessante nisso tudo, é que as
pessoas que votaram em Hitler, que o apoiaram, que ficaram cegas pela sua
ideologia, e fascinadas com sua oratória não eram pessoas monstruosas. Não,
pelo contrário, eram gente boa. Advogados, comerciantes, professores, donas de
casa, mecânicos, políticos, enfim, gente comum tomada pelo desânimo, revoltada
com as condições econômicas difíceis, com os rumos que a política estava
tomando.
E, instigadas a ter como alimento o ódio e
a revolta, foram enganadas por homens cruéis e sanguinários.
É uma reflexão que fica para nós hoje. Uma
reflexão e uma lição: Nunca se entregar de cabeça às ideologias e aos líderes
que só buscam satisfazer a sede de poder, e que ao, serem coroados com o poder
não o usam para o bem servir à nação, mas para satisfazer aos egos inflados,
aos de seus familiares, e de seu grupo fechado de apoiadores mais próximos.
Acordei sobressaltado na alta madrugada molhado de suor. Aos poucos, me vieram lembranças do sonho que tivera. “Morfeu bem que poderia ter me levado para lugar mais agradável. Com tantos paraísos para ver nesse mundo e no universo afora ele me leva logo para o inferno que foi a Alemanha da época de Hitler”, pensei eu.
Sentei-me na cama. O silêncio da madrugada
foi me acalmando aos poucos. E bem devagar fui me desligando do mundo onírico e
meus pensamentos foram aterrissando na dura realidade.
O mundo atual passa por momentos muito
conturbados. Guerras e conflitos explodem por todo o planeta. Em diversos
países ainda imperam ditaduras. Na época em que Hitler reinava soberano na
Alemanha, a situação se assemelhava a de hoje.
Ditadores e fascistas provocavam verdadeiras
crueldades e atrocidades em suas nações e para com o seu próprio povo. Foi o
caso de Josef Stalin, na União Soviética, Benito Mussolini, na Itália, e
Francisco Franco, na Espanha, todos contemporâneos de Adolf Hitler.
Hoje, o mundo converge para uma onda
perigosa de extrema-direita. Aos poucos essa corrente ideológica vai se
infiltrando nos países, nos continentes, e nas mentes das pessoas que acreditam
estar entregando seus destinos a bons pastores, mas estão, na verdade, sendo
atraídos para a boca de serpentes venenosas.
Volto ainda meu pensamento aqueles
terríveis tempos do holocausto. O horror para os judeus e demais minorias não
começou nos campos de concentração. Começou com fuzilamentos de famílias de
comunidades inteiras. Só depois que a matança começou a afetar o psicológico
dos soldados alemães, foi que se sentiu a necessidade de ‘industrializar’ a
matança, dentre as muitas soluções pensadas, os campos de concentração foram a
melhor solução encontrada para dizimar pessoas.
E para isso ajudou muito uma propaganda
bem feita, criada e pensada pelo gênio do mal da propaganda durante o cruel
regime: Joseph Goebbels, que mostrava um Hitler como ser humano perfeito, quase
um Deus, uma Alemanha forte e pungente, e muitas mentiras, hoje denominadas com
o estrangeirismo de fake news.
Tomemos como exemplo os Estados de Unidos
de Donald Trump. Como é possível que parte da sociedade americana tenha
escolhido ele como governante? Uma vez já seria demais, mas os americanos não
de deram por satisfeitos e o escolheram para um segundo mandato.
É quase inacreditável que em tempos de
drásticas mudanças climáticas, eles tenham escolhido um homem que não acredita
nelas e, por não acreditar, não move uma palha para conter os danos que são
causados pelo próprio homem ao planeta que é sua casa, sua morada. Como em
tempos em que que uma peste, uma pandemia pode se espalhar pelo mundo em poucas
semanas ou meses, os americanos escolhem um ser que despreza as vacinas, os
cientistas e a ciência. E para completar, esse homem ainda desestabiliza o
mundo, na maioria das vezes, para satisfazer seus próprios caprichos pessoais.
Desde que foi eleito para seu primeiro
mandato (2017-2021) Trump vem demolindo as bases da democracia americana.
Demolindo não seria bem a palavra, uma vez que demolição implica em fazer algo
vir ao chão de imediato. Minar, corroer as bases aos poucos, e depois ver o edifício
da democracia caindo tijolo por tijolo, seria mais apropriado para o que Trump
faz nos Estados Unidos.
E neste seu segundo mandato que começou em
2025, ele voltou ainda mais terrível e com mais poder. Está jogando o mundo em
sucessivas crises de instabilidade. Fazendo surgir guerras onde nem era
necessário que surgisse, destruindo a ordem econômica com tarifas, querendo
inclusive alterar a geopolítica do planeta.
A extrema-direita vem ganhando espaço cada
vez maior no mundo. O que assusta é que ela avança como os nazistas avançaram,
devagar, passo a passo, eleição após eleição suas bancadas crescem nos
parlamentos e aos governos, e depois que chegam ao topo, tiram suas máscaras de
bons moços, de boas moças, e revelam verdadeira face. Uma face que assusta, que
dá medo.
E eu fico pensando, na calmaria da
madrugada, ainda atordoado pelo sonho que tive: Será que as pessoas realmente
sabem o que é essa tal extrema-direita é o que ela representa?
Primeiramente, podemos afirmar que essa
corrente político-ideológica é filha do autoritarismo. Ela não pode ver uma
democracia em pleno vigor que já pensa em arruína-la. A extrema-direita joga na
panela os ingredientes do nacionalismo extremo, da xenofobia, e do autoritarismo,
faz um bom caldo com esses ingredientes e se banqueteia com ele. Para o
banquete ficar melhor ela saiu por aí a convidar pessoas que odeiem ou estejam
dispostas a odiar imigrantes, negros, pobres, nordestinos, ou qualquer outra
minoria que esteja na moda, e festa de horrores está pronta para acontecer.
Não esqueçamos que toda festa, todo
banquete deve ser regado a vinho, e vinho servido nos banquetes da festa da
extrema direita é o vinho da insanidade, do ódio, e embriagado por esse vinho
os seguidores dessa seita ficam cegos, trôpegos, cambaleantes, acham muito
normal qualquer barbaridade que os organizadores da festa digam ou façam.
Penso num exemplo que ilustra bem essa
triste embriaguez. Era um sábado, 23, de
janeiro de 2016, e o pré-candidato ao governo americano, Donald Trump, estava
em ato de campanha na cidade de Sioux Center, no estado do Iowa, quando assim
se expressou: “Tenho os eleitores mais
leais. Alguma vez vocês viram algo assim? Eu poderia parar na metade da na
Quinta Avenida, disparar contra pessoas e, mesmo assim, não perderia eleitores”.
Uma nota de tristeza me soa do coração,
juntamente, com um suspiro. Ele está errado? Não, não está. Os eleitores do
Trump, bem como os eleitores de qualquer adepto da extrema-direita estão
embriagados por vinho envenenado no qual foi pingado algumas gotas de uma
ideologia nefasta. Nefasta é uma palavra muito forte, eu sei, mas basta ver as
palavras de Trump ditas em Iowa para concluir que ela cabe perfeitamente aqui.
E assim chegamos a um Brasil em vésperas
de mais uma eleição presidencial. E temos dois candidatos. Luís Inácio Lula da
Silva, Lula que foi acusado de corrupção, preso, pagou pelos seus erros, e
voltou a vida política. Durante seus governos a frente do povo brasileiro,
criou muitos programas sociais, construiu escolas e universidades, tirou o
Brasil do mapa da fome, socorreu empresários em momentos chaves em que a
economia ia mal das pernas, fomentou a cultura, e investiu na ciência. E, muito
importante, nunca atentou contra a democracia.
De outro lado, temos um candidato filho do
bolsonarismo, e, importante que se diga, filho de Jair Bolsonaro. Flávio
Bolsonaro já homenageou miliciano matador de aluguel quando era deputado
estadual pelo Rio de Janeiro, homenageou igualmente, muitos maus policiais do
estado do Rio, montou loja de chocolate em um shopping carioca para lavar
dinheiro, e mais recentemente, descobriu-se que pediu dinheiro a Daniel
Vorcaro, o gênio do mal das finanças, para a realização do filme Dark Horse, em
homenagem a Jair Bolsonaro, e ninguém sabe onde foi para os R$ 64 milhões que
foram destinados ao filme.
As intenções de Flávio Bolsonaro já
começaram a aparecer ainda quando ele é candidato. Já disse que, se eleito,
mudaria a Constituição, note-se que ele não disse “emendar a Constituição”, ele
foi mais fundo. E a promessa de mudar a Constituição vinda de um filho do
autoritarismo, a gente até já imagina como será essa mudança. Também podemos
perceber esse autoritarismo quando ele pede ao indicado por seu pai ao STF,
Nunes Marques, que censure perfis, canais e postagens relacionados à campanha
do presidente Lula, e investigue opositores.
O mais irônico de tudo isso é que os
bolsonaristas estão desde 2018 fabricando, espalhando, e jogando aos quatro
ventos fake news de tudo quanto é tipo. Jair Bolsonaro mesmo matinha dentro do
Palácio do Planalto uma fábrica de fake news chamada de Gabinete do Ódio e eles
nunca acharam que isso mentir era incomodo.
A verdade é que, no dia 25 de outubro o
brasileiro vai às urnas para aquela que, provavelmente, seja a eleição mais
importantes de suas vidas. Não está em jogo apenas dois candidatos, mas duas
visões de mundo: uma baseada na humanidade e na ajuda aos mais necessitados, e
outra baseada no individualismo exacerbado, e entre dois modelos de sociedade:
uma que tem como base os pilares da democracia, e outra que tem como base o
autoritarismo.
Espero que a grande maioria da sociedade
brasileira não esteja inebriada com o vinho podre oferecido pela extrema
direita e faça, conscientemente, a melhor escola para o destino de nosso país,
para os destinos de nossas vidas.



.jpg)








.webp)





