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Um salto para o sucesso... E um salto para a morte

Posted by Cottidianos on 00:43

Campinas, 17 de junho



Começo a postagem de hoje fazendo uma homenagem.

É coisa difícil os marginalizados, aqueles que estão na base da pirâmide conseguirem um diploma universitário no Brasil. As dificuldades até que se atinja esse objetivo são inúmeros. Muitos estudantes vão ficando pelo caminho ao longo dos anos escolares, dentre os principais motivos estão as dificuldades financeiras, a necessidade de trabalhar para se manter e/ou ajudar a família. E também o desconhecimento de políticas públicas que os ajudem a chegar ao topo da montanha da educação.

É difícil, porém não impossível. Muitos estudantes já provaram que, com fé, determinação, e coragem, é possível chegar lá.

Um desses jovens que conseguiu não apenas um diploma de curso superior, mas também o título de Ph.D. em Economia, foi Gilberto José Nogueira Júnior, 43 anos, mais conhecido pelos brasileiros pelo nome de Gil do Vigor. A cerimônia de formatura de Gil aconteceu na quinta-feira, 11, na Universidade da Califórnia em Davis (UC Davis), nos Estados Unidos.

Gil nasceu e cresceu em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Para um menino, negro, pobre, da periferia, e que se descobriu e se assumiu gay ao longa da caminhada, chegar ao topo da caminhada educacional é um grande feito.

Em suas redes sociais, ele escreveu:

“Eu venci através da educação. Eu venci porque eu acreditei e vou continuar acreditando pra sempre.

Muitas pessoas falaram que eu venci por conta do Big Brother ou por outros motivos. E eu sei que o Big Brother foi uma parte importantíssima na minha vida, mas a verdade é que sem a educação, a minha mãe, os meus professores e os amigos que seguraram minha mão enquanto eu morava em outro país, eu nada seria.

Só quem estava próximo a mim sabe o quanto foi difícil, quantas vezes eu chorei e quantas vezes eu pensei em desistir.

Mas se tem uma coisa que eu aprendi com a minha família e meus amigos é que desistir nunca será uma opção e que a educação sempre será minha primeira opção”.

Ele cita o programa Big Brother Brasil por ter participado em 2021 da vigésima primeira edição deste programa. Não chegou à final, chegou muito perto. Depois do BBB foi convidado a participar do programa Mais Você, onde encontrou em Ana Maria Braga, uma fada-madrinha, alguém que lhe deu o apoio e o valor que ele precisava.

Depois do sucesso que conseguiu na TV por causa de sua simpatia e empatia com o público, e sua responsabilidade, ele decidiu levantar a bandeira da educação, e ajudar tantos jovens que, como ele, sonham com um futuro melhor através da educação.

 

***

Ponte do Esqueleto, Limeira-SP 

Falamos do Gil Vigor, um indivíduo que conquistou êxito e sucesso, mas que não se deixou deslumbrar pela “luze, câmera, ação”. O que é coisa difícil no meio artístico.

Mas, e quando esse deslumbramento não é de um indivíduo, mas de todo um organismo social? O que fazer quando os indivíduos estão afetados por um comportamento que os faz agir como autônomos, sem pensar.

Tenho visto o caso de muitas pessoas que, literalmente, arriscam a vida à beira de precipícios, ou rochedos à beira, e em muitas outras situações de perigo, apenas para conseguir a foto perfeita.

Trago para vocês dois casos curiosos que aconteceram, recentemente, no Brasil. Um deles, infelizmente, terminou de forma bem trágica. Talvez vocês já tenham visto na impressa, pois foi um caso de grande repercussão. O outro poderia ter ido pelo mesmo caminho, felizmente, o protagonista dele teve melhor sorte.

 Era manhã de sábado, 13 de junho, em Limeira, cidade localizada a 145km da capital São Paulo. Um grupo de pessoas aguardava na Ponte do Esqueleto, uma estrutura desativada, localizada na divisa das cidades Limeira e Cordeirópolis, no Estado de São Paulo.

A ponte fica na Estrada Dr. Cássio de Freitas, que dista cerca de 7km do centro de Limeira. De cima da ponte apreciavam a paisagem rural cercada de muito verde de um lado e de outro da ponte desativada. De onde estavam era fácil observar as trilhas que cortam a mata, trilhas essas muito usadas e apreciadas por corredores, ciclistas, ou por quem gosta de fazer caminhada em meio à natureza. O lugar também não passa despercebido por quem gosta de praticar esportes radicais como os praticantes rapel e rode jump.

Desde que foi desativada há cerca de trinta anos o local não é mais utilizado pelos meios de transporte como ligação entre uma cidade e outra, tornando-se então um ponto turístico muito frequentado na região.  

E era por isso que o grupo estava ali: para a prática de rode jump. Para se jogar no vácuo de 40 metros que separam a ponte do solo lá embaixo.

Era também para experimentar essa emoção, essa aventura, esse frio na barriga que estava ali a linda jovem de 21 anos, Maria Eduarda Rodrigues de Freitas. A jovem era estudante de Educação e trabalhava em uma academia de ginástica, em Jandira, cidade na qual morava. Jandira fica a 152 km de distância da cidade de Limeira.

Outros saltos aconteciam antes de chegar a vez de Maria Eduarda. Os funcionários das empresas Entre Cordas e Ih Voei responsáveis pela realização dos saltos orientavam os clientes, amarravam as cordas ao corpo deles, checavam se estava tudo em ordem, e os ajudavam a saltar, em alguns casos, literalmente, os jogavam ponte abaixo.

Enquanto isso, Maria Eduarda aproveitava para abastecer suas redes sociais com fotos do lugar, as pulseiras de identificação, e imagens dos funcionários da empresa saltando da ponte em saltos demonstrativos. As fotos de natureza e atividades ao ar livre era constante da jovem amante da natureza.

A última postagem feita pela jovem, feita às 7h31min, mostra o local de onde eram feitos os saltos, e nela a jovem escreveu: “Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte???

Enfim, chega o grande momento para Maria Eduarda. Há duas escolhas de modalidade. Em uma delas os participantes pulam por livre e espontânea vontade. No outro a pessoa escolhe ser jogada da ponte. Essa foi a escolha da jovem.

Dois funcionários que estão sobre um dos pilares que funcionaria como plataforma de lançamento. Outro permanece em cima da ponte, próximo a borda. Este segura Maria Eduarda pelos pés, os dois já em cima da plataforma de lançamento, um a segura pela cintura, e outro a segura pelos ombros. E assim, posicionada a cliente, eles caminham para a beira da plataforma de lançamento. E lançam Maria Eduarda para aquele que seria seu último salto. Seu último ato, sua última cena no teatro da vida.

Os funcionários da empresa lançaram Maria Eduarda no vazio. Sob a ponte permaneceu a corda que deveria estar amarrada ao corpo dela. Apenas quando a jovem já tinha sido lançada da ponte é que se ouvem os gritos de espanto de quem estava lá esperando para ser o próximo a saltar, alertando de que Maria Eduarda teria sido lançada sem a corda.

Ao perceber que uma tragédia havia acontecido as outras pessoas que estavam sob a ponte entraram em choque. Os funcionários entraram em pânico. Uma enfermeira que estava no local como turista desceu até o local onde a jovem havia caído. Ela percebeu que havia pulsação no corpo dela, fraca, mas havia. Então a enfermeira Rayza Dias tentou acalmá-la, dizendo “Calma! Tenha calma! Ninguém morre no meu plantão”.

Mas não houve jeito. Ali mesmo, embaixo daquela ponte, e cercada pela natureza que tanto amava, Maria Eduarda exalou seu último suspiro.

Quando a polícia chegou ao local ainda estavam perto do corpo da jovem, a enfermeira e dois funcionários da empresa responsável pelo salto. A dupla de funcionários entregou à polícia os documentos pessoais, mas acabaram fugindo para a mata quando os policiais se afastaram para prestar apoio ao resgate, sendo localizados depois pelo helicóptero Águia da PM.

Luís Feliciano Egoroff, Vitor de Freitas Gonçalves, e Maicon Fernandes Cintra, foram presos em flagrante. Foram autuados por homicídio com dolo eventual – quando não há intenção de matar, mas se assume o risco de. Eles estão em prisão preventiva. Seguem as investigações do crime, pois o que aconteceu com Maria Eduarda não foi fatalidade, foi assassinato.

Presa ao corpo da jovem, havia uma câmera que gravou os últimos instantes dela, e, consequentemente, do salto. Essa câmera desapareceu depois da queda. A polícia está à procura dessas gravações pois nela podem estar contidas as provas que mostram a dinâmica do crime, e a responsabilidade de cada envolvido.

E aqui eu volto ao início dessa narrativa quando falava desse deslumbramento. Várias pessoas estavam lá filmando o salto, e ninguém percebeu que faltava o principal num salto de rode jump: a corda. Três funcionários estavam ali, certamente devem ter ajustado a câmera no corpo do jovem. Como não perceberam que faltava a corda a ser presa ao corpo dela?

Não culpo Maria Eduarda pela sua própria morte. Ela estava envolvida com o ato de saltar, nervosa, ansiosa, provavelmente era a primeira vez que fazia isso. Muito menos, a culpa é de quem estava ali em cima da ponte na hora do salto, esperando sua vez. A responsabilidade pelo que aconteceu é exclusivamente dos funcionários que jogaram a jovem da ponte, e que deveriam ter checado se estava tudo de acordo para a efetivação do salto.

Mas percebem que em tudo isso há o desejo de registrar as imagens? É disso que falo é isso que quero destacar.

***


Outro fato interessante aconteceu Foz do Iguaçu, oeste do Paraná, no sábado, 06 de junho.

Um turista brasileiro estava em cima da passarela, nas Cataratas do Iguaçu. O celular do homem cai. Ele se dependura na passarela, desce, entra na água, e recupera o celular que havia caído. Após isso, ele sobe e retorna à passarela.

E não é falta de orientação. Ao entrar no parque os visitantes recebem orientações de segurança que atuam no local. Dentre outras coisas é dito a eles que não ultrapassem, subam ou sentem no guarda-corpos para tirar selfies, ou recuperar objetos. Também é dito a eles que, caso algum objeto caia nas encostas, no rio, eles devem acionar os bombeiros para que façam o resgate do objeto perdido.

Bastaria apenas um pequeno escorregão e o homem poderia ser arrastado para o abismo das águas. Situação perigosa.

Outra cena impressionante e irresponsável, aconteceu no dia 17 de fevereiro deste ano.

Naquele dia, um homem foi visto segurando um bebê por cima das grades de segurança no mirante da Garganta do Diabo, que fica no lado argentino das Cataratas do Iguaçu. O local tem uma área com queda d´’agua de 80 metros de altura. Olhe o leitor para um leitor para um prédio de 27 andares e veja o que essa altura significa. O homem ergue o bebê pouco acima das águas, enquanto uma mulher faz a foto.

Bastaria apenas um deslize e o bebê escorregaria pelas mãos do irresponsável, provavelmente, o pai da criança.

É certo que costumamos dizer hoje em dia que a nossa vida está no celular. Mas não devemos morrer por causa do celular. Muito menos fazer selfies maravilhosas em locais de alto risco que depois irão apenas servir como uma triste recordação para os nossos entes queridos.

Encerro esse texto com uma frase para reflexão e que fez parte de uma campanha de trânsito lançada em 2024, durante a Semana de Trânsito daquele ano. A frase enfatiza a importância de reduzir a velocidade com o objetivo de promover a segurança nas vias e, consequentemente, salvar vidas. A frase é: SEU BEM MAIOR É A VIDA!

Essa frase foi pensada para um contexto de segurança no trânsito, mas pode servir também para qualquer situação que nos coloque em perigo. Não esqueça disso você que ora lê esse texto.

 


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Santo do pau oco

Posted by Cottidianos on 23:48

Campinas, 02 de junho de 2026



Ontem à noite, em clima de entusiasmo, a seleção brasileira embarcou para os Estados Unidos para participar da Copa do Mundo de Futebol. Mais uma copa e mais uma esperança de vencer. A seleção partiu embalada pela vitória expressiva de 6 x 2 sobre o Panamá. E para a seleção brasileira, faço meu o verso da canção Voa Canarinho, escrita por Nonô e Memeco; “Voa canarinho voa, mostra pra esse povo que és um rei”. A Copa do Mundo de Futebol, edição 2026, começará em 11 de junho, e terá partidas disputadas em cidades do México, Estados Unidos e Canadá.

Quem também voa, e voa rápido, é o tempo. O inexorável tempo nos empurra para o campeonato democrático das eleições, a serem realizadas em 4 de outubro, e se houver segundo turno, também em 25 de outubro. Os brasileiros irão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais.

Até agora, temos os seguintes pré-candidatos à presidência da República. São eles;

Lula (PT)

Flávio Bolsonaro (PL)

Ronaldo Caiado (PSD)

Romeu Zema (Novo)

Renan Santos (Missão)

Cabo Daciolo (Mobiliza)

Augusto Cury (Avante)

Hertz Dias (PSTU)

Samara Martins (UP)

Rui Costa Pimenta (PCO)

São pré-candidatos e serão considerados nessa condição até agosto quando acontecerão as convenções partidárias, e o registro das candidaturas no TSE, e então eles serão, efetivamente, considerados candidatos.

As pesquisas realizadas até o momento mostram que Lula (PT), e Flávio Bolsonaro (PL), são os candidatos mais bem colocados na corrida presidencial, seguidos de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).

Há quem fale que Caiado e Zema são candidatos que representariam uma terceira via, o que não é verdade. Ora, se a polarização se estabeleceu entre Lula e Bolsonaro,  e sendo Flávio, filho de Bolsonaro, o herdeiro dos votos dele, após sua condenação e prisão por tentativa de golpe de Estado, Caiado e Zema legítimos representantes e defensores das ideias bolsonaristas como poderiam eles representar algo diferente? Podemos considera-los apenas como candidaturas satélites.

Vamos abrir um parêntese aqui e falar de um fenômeno natural chamado pororoca. Esse fenômeno natural ocorre na foz do Rio Amazonas e seus afluentes do litoral do Amapá e do Pará, e envolve os rios Araguari, Maiacaré, Guamá, Capim e Moju. Pororoca nada mais é que o encontro das águas do rio com as águas do mar formando ondas grandes e violentas que chegam a atingir seis metros de altura uma velocidade de 30km por hora.  O fenômeno atrai muitos turistas e quem já presenciou, diz que o embate entre rio e mar causa grande barulho.

E eu aqui pensando: Quando foi que começou essa pororoca eleitoral que vivemos hoje na política brasileira? Lembro que houve tempos em que águas de rio e mar da política, apesar de serem diferentes, de terem propriedades diferentes conviviam em harmonia, embates haviam, o que é inevitável quando duas ou mais correntes de pensamentos se encontram, mas não havia todo esse barulho, essa violência que se observa hoje.

Chego a conclusão de que foi em 2018 que começou todo esse ambiente tóxico. Naquele ano havia um forte sentimento antipetismo.  Naquele ano Lula estava preso por acusação de corrupção. O juiz Sérgio Moro o havia condenado em de julho de 2017 a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, em uma ação penal que envolvia um triplex no Guarujá.

Não podendo concorrer, Lula escolheu Fernando Haddad para substituí-lo na corrida presidencial. No outro extremo, surgiu Jair Bolsonaro, um azarão, deputado do centrão, do chamado “baixo-clero” do clero do congresso.

Então de um lado, estava um país com um forte sentimento antipetista, e de outro um candidato barulhento que empunhava a bandeira da luta contra a corrupção, da rejeição aos métodos da velha política, e prometia melhoras na segurança pública e na economia.

O discurso e atitudes altamente tóxicos de Jair Bolsonaro, somadas às intensas práticas nada ortodoxas de atuação dos bolsonaristas nas redes sociais foram fundamentais para que a polarização igualmente tóxica se alastrasse como veneno pelo nosso, então pacífico Brasil.

Mas o discurso contra a corrupção dos Bolsonaro, e dos seus aliados é como diz o ditado “coisa pra inglês ver”. É um discurso que só existe na teoria, na prática a história é outra. Então eles despejam essas ideias nos grupos bolsonaristas, e ali, a lavagem cerebral é muito bem-feita. Qualquer coisa, sem exageros que se divulgue naqueles grupos, passa a aceito ser aceito como verdade pelos adeptos da “seita” bolsonaristas.

Esse ano vai ser interessante o enredo da oposição para as eleições. Os bolsonaristas não podem mais levantar a bandeira da luta contra a corrupção, pois Flávio Bolsonaro foi “pego com a boca na botija”, foi pego na mentira. Não é nenhum santo.

Dias atrás, o site The Intercpet Brasil divulgou áudios de diálogos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro preso, Daniel Vorcaro. O engraçado foi que horas antes da divulgação dos áudios, Flávio Bolsonaro participava de um evento quando os jornalistas o abordaram e lhe fizeram perguntas. Foi o repórter do Intercept, já sabedor dos áudios que seriam divulgados horas depois, perguntou se o senador havia pedido dinheiro a Vorcaro para financiar o filme, ao que Flávio respondeu com uma sonora gargalhada irônica, abandonou a entrevista, e ainda chamou o jornalista de militante.

Horas depois o The Intercept divulgou os áudios que mostravam que Vorcaro havia se comprometido a pagar a quantia de R$ 134 milhões de reais para a realização do filme “Dark Horse” que narra a história de Jair Bolsonaro. Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões, mas então a Polícia Federal descobriu o rombo enorme que ele estava causando no sistema financeiro nacional, e o prendeu. Essas reviravoltas dificultaram os repasses do banqueiro ao filme.

Mesmo assim, Flávio queria que Vorcaro pagasse o restante do dinheiro. Os áudios mostram ainda que Flávio encontrou-se com Vorcaro, mesmo quando ele já se encontrava em prisão domiciliar, e com tornozeleira eletrônica.

Impossível não acompanhar essas notícias sem que algumas perguntas fiquem em nossa cabeça. Onde foi parar todo esse dinheiro que o banqueiro investiu no filme? Pelos trailers do filme que já foram divulgados, vemos que o dinheiro não foi parar ali. Não vemos no filme nenhum ar de superprodução no estilo Hollywood. Tenho uma suspeita de que esse dinheiro esteja financiando a vida tranquila do falso patriota, Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos.

Outra pergunta que nós fazemos é porque o Vorcaro daria tanto dinheiro para a realização de um filme? A troco de quê? Certamente, pelo perfil do banqueiro já vimos que ele não é um homem bonzinho e que gosta de fazer caridade. Vorcaro está mais para mafioso do que para caridoso.

Até agora Flávio Bolsonaro não deu nenhuma explicação plausível para essa sede de pegar o dinheiro do Vorcaro. Aliás, quando mais ele fala sobre o assunto, mais ele se enrola.

Quando esse filme for lançado vai ser no mínimo irônico ver os bolsonaristas indo ver o filme sobre a vida do Bolsonaro feita com dinheiro sujo, com dinheiro roubado. Logo eles que, desde 2018, gritam em alto e bom som que Lula é o ladrão.

                                                                       Adriano da Nóbrega

Outra coisa que soa bastante hipócrita é o fato de ouvir o Flávio Bolsonaro dizer o Lula defende bandido. Logo ele que era amigo de um dos maiores milicianos do Rio, e chefe de um grupo de extermínio, Adriano da Nobrega. Em 2003, Flávio homenageou o então tenente da Polícia Militar, Adriano, com uma Menção de Louvor por sua atuação no combate à criminalidade. Mais tarde, em 2005, O miliciano se encontrava preso sob acusação de homicídio. Mesmo nessa condição, Adriano foi homenageado por Flávio com a Medalha Tiradentes, maior honraria que o Estado do Rio pode conceder a um cidadão.

Adriano da Nobrega foi absolvido pelo crime de homicídio, depois foi expulso da PM. Tempos mais tarde, mesmo já sendo apontado como chefe de milícia e de um grupo de extermínio chamado de Escritório do Crime, Flávio empregou a mãe e a mulher de Adriano em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Na época, Flávio praticava o esquema de “rachadinha” que era gerenciado por Fabrício Queiroz, policial militar e ex-assessor de Flávio. Parte do dinheiro ficava com Adriano da Nóbrega. Curioso isso, não? Por que Flávio dividia o dinheiro da rachadinha com Adriano?

E não foi apenas Adriano da Nóbrega que foi homenageado por Flávio, vários outros policiais militares envolvidos com o submundo do crime foram homenageados por Flávio durante o mandato dele como deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

Ainda sobre Adriano da Nobrega, ele foi morto em um confronto com policiais militares em um sítio na zona rural da cidade de Esplanada, na Bahia. As circunstâncias da morte do miliciano têm cara e jeito de queima de arquivo. O nome de Adriano também surgiu nas investigações da vereadora Marielle Franco e do motorista dela, Anderson Gomes. Ronnie Lessa, um dos assassinos de Marielle e Anderson, disse à época das investigações que Adriano teria sido um possível intermediário do crime.

Então quando você um candidato levantando a bandeira da corrupção e prometendo ser implacável com a criminalidade, e quando você olha para ele e vê a ligação dele com o submundo dos crimes financeiros e com milicianos, a gente vê que a hipocrisia reina solta, mesmo entre aqueles que assumem ares de bom moço. São os chamados santos do pau oco. Hipócritas. E de onde vem essa expressão “santo do pau oco”?

Durante o período colonial, as imagens de santos esculpidas em pau oco, ajudavam os mineiros a contrabandear ouro. Eles escondiam o ouro dentro das imagens, assim ficava mais fácil contrabandeá-los e escapar dos altos impostos.


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Retornos

Posted by Cottidianos on 22:50

 Terça-feira, 26 de maio


 

Onde a máquina me leva não há nada

Horizontes e fronteiras são iguais

Se agora tudo que eu mais quero já ficou pra trás

Qualquer um que leva a vida nessa estrada

Só precisa de uma sombra pra chegar

A saudade vai batendo e o coração dispara

(Retrovisor – Raimundo Fagner)

 

Muitas vezes a gente sai por aí pelas estradas da vida guiando a máquina de nossas consciências, olhando a paisagem a nossa frente que, às vezes é alegre, às vezes é triste, às vezes cinzenta, às vezes colorida. E vai guiando, guiando, percorrendo quilômetros e mais quilômetros, e quando vê a gente está longe de alguém, de algum lugar e sente vontade de retornar para quem a gente ama, ou para fazer algo que gostamos. Indo mais profundo, ás vezes a gente precisa voltar para se reencontrar consigo mesmo.

E realmente voltamos, e dizemos para nós mesmos:

Eu voltei pra juntar pedaços

De tanta coisa que passei

Envolto nessas reflexões, sentamos na margem do rio da vida que corre serenamente, olhamos para a nossa imagem refletida no espelho e dizemos para nós mesmos:

Rio, voltei no curso,

Revi o meu percurso, me perdi no Leste,

E a lama renasceu com flores de algodão,

No coração do agreste

É com essas canções que, através de metáforas, falam de retornos, que abro esse texto.

A primeira canção, conforme destacado entre parênteses é um trecho da música, Retrovisor, interpretada por Fagner. E a segunda, cujos trechos estão também entre aspas, são da música Coração do Agreste, de Aldir Blanc e Moacyr Luz, e interpretada lindamente por Fafá de Belém.

É quase impossível não falar de Coração de Agreste, de Fafá de Belém, sem lembrar da fictícia Sant’Ana do Agreste, lugar onde é ambientado o romance intitulado Tieta, do grande escritor baiano, o saudoso Jorge, Amado.

O romance foi adaptado para a televisão e foi transformado na novela, Tieta, de grande sucesso, e exibida pela TV Globo entre 14 de agosto de 1989 a 30 de março de 1990. O texto de Jorge Amado também foi adaptado para o cinema.

O romance narra a história de Tieta, uma jovem que é expulsa da cidade natal, consegue se estabelecer na vida, e volta 25 anos depois, vez rica e poderosa. Tieta volta a morar no mesmo universo conservador que a expulsou. Porém, a nova condição financeira de Tieta abre muitas portas dentro da conservadora Sant’Ana do Agreste, e dessa vez, ninguém tem coragem de expulsá-la. Como diz o dito popular: “ A vida imita a arte”.

Perdidos nessas reflexões, olho pelo retrovisor do tempo e vejo que a última postagem nesse blog foi em 25 de julho de 2023, e nele tratei de desfecho do caso da vereadora Marielle Franco, e do motorista dela Anderson Gomes, ambos assassinado na cidade do Rio de Janeiro, em 14 de março de 2018.

Impressionante como o tempo passa rápido. Quase dois anos se passaram desde aquela última postagem. Muita estrada já foi percorrida, e muita água rolou por baixo da ponte. Nesse intervalo de tempo muita coisa mudou, no Brasil e fora dele.

O mundo hoje está mergulhado em guerras e conflitos em diversas regiões do planeta. Guerras perigosas. Conflitos regionais que tem o poder de arrastar o mundo para uma nova guerra mundial, o que poderia ser devastador para todos. Não existe guerra santa. Todas as guerras são estúpidas. Revelam o lado mais cruel da humanidade.

Roda mundo, roda-gigante

Rodamoinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente

Até não poder resistir”,

Diz Chico Buarque na canção Roda Viva.

E nas voltas que o mundo dá, resolvi voltar a escrever neste espaço.

Porque parei de escrever? Na verdade, nem eu mesmo sei direito. Não tive maiores problemas que me impedissem de fazer isto. Sentia-me nadando contra a corrente, tentando escrever, mas a maré sempre me levava para longe desse objetivo. Mas enfim, chegou a hora de retornar, juntar pedaços de tanta coisa que se passa no mundo e com elas provocar reflexão.

Às vezes desconfio que tenha parado de escrever desmotivado por onde de polarização, violência e negatividade pelo qual passa não só o Brasil, mas também o mundo. Entretanto, não podemos submergir no mar de negatividade. É preciso levantar, sacudir a poeira, dar a volta por cima, e fazer brilhar o sol da esperança.

Vamos para a frente, prossigamos, pois ainda tem muito sobre o que escrever, muito assunto para falar, bastante para refletir.

O texto de hoje, foi apenas para dizer um “oi”. Para dizer que estou de volta.


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Pacto de silêncio quebrado

Posted by Cottidianos on 22:29

 Terça-feira, 25 de julho



Carlos Bolsonaro

PSC


106657

3,64%

Tarcísio Motta

PSOL


90473

3,09%

Cesar Maia

DEM


71468

2,44%

Rosa Fernandes

PMDB


57868

1,98%

Marielle Franco

PSOL


46502

1,59%

 Assim, o TSE sacramentava o resultado das eleições para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que aconteceram no dia 02 de outubro, do ano de 2016. Naquele ano,

Marielle Franco estava radiante. Naquele 2016, a realização da campanha eleitoral no Rio disputara espaço com a realização dos Jogos Olímpicos, que ocorreram entre os dias 5 e 21 de agosto, e dos jogos Paraolímpicos, entre os dias 7 e 18 de setembro. Além disso, os cariocas tiveram como pano de fundo, uma crise financeira que atrasou o pagamento de salários dos servidores estaduais de todo o estado do Rio de Janeiro.

Assim, como as Olímpiadas e Paraolimpíadas haviam coroado muitos atletas, através de muito esforço e treino, haviam chegado ao alto do pódio, e colocado no pescoço suas medalhas de ouro, prata e bronze, aquele terminava para Marielle com grande vitória.

Aos 37 anos, fora eleita a 5ª vereadora mais votada do Rio de Janeiro. Agora, sim, ela podia dar vazão ao sonho de ajudar os menos favorecidos. Ela conhecia bem os anseios dessa gente. Afinal de contas não estava apenas do lado da multidão de gente marginalizada, estava no meio dela, entre ela, e era, ela própria, marginalizada.

A vida nos joga nos braços missão que aqui viemos realizar por dois modos: pelo amor, ou pela dor. E Marielle enveredou pelas trilhas dos Direitos pela dor. Na época em que fazia pré-vestibular comunitário houve um tiroteio entre polícia e traficantes na favela do Complexo da Maré. Nesse confronto, uma amiga muito querida de Marielle acabou morrendo, vítima de bala perdida.

Ela prosseguiu o caminho sem amiga. Formou-se pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e depois fez mestrado em Administração Pública, na Universidade Federal Fluminense (UFF). Escolheu como tema de dissertação de mestrado, “UPP: A redução da favela a três letras”.

Aos 19 anos, ela se tornou mãe de uma menina, o que a fez experimentar os desafios de ser mulher, negra, mãe, e moradora de favela. E assim, a vida foi guiando Marielle para os caminhos dos Humanos Direitos.

E foi essa luta que fez Marielle Franco segurar a bandeira dos Direitos Humanos com unhas e dentes, como faz uma leoa com sua cria.

Foi com esse espírito que, ela militante do PSOL, ingressou, como vereadora, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. E todas as bandeiras e pautas que defendeu durante sua atividade política apontavam sempre na direção de um mundo mais justo.

E as pautas defendidas por ela eram; Justiça Racial e Segurança Pública, Gênero e Sexualidade, Direito à Favela e à Periferia, Justiça Econômica, Social e Ambiental. Saúde Pública Gratuita, de Qualidade e Integral, Educação Pública, Gratuita, de Qualidade e Transformadora, Cultura, Esporte e Lazer.

Marielle não era uma vereadora de gabinete. Ela estava sempre junta às suas bases, trabalhando, colocando a mão na massa.

Porém, os seres das trevas não gostam dos filhos da luz. E enquanto ela olhava para o sol e irradiava para seus irmãos cariocas a luz que vem dele, os seres trevosos, desde o ano de 2017, tramavam uma forma de tirar a vida dela. Naquele ano, tentaram, mas não conseguiram, devido a uma falha mecânica no carro que seria usado na execução dela.

E um dia, finalmente, eles conseguiram silenciar a voz de Marielle Franco.

Era noite de quarta-feira, 14 de março de 2018. Um grupo de mulheres na Casa das Pretas – espaço coletivo destinado a mulheres negras, localizada na Lapa, centro do Rio. Eram quase 19 horas, e elas estavam ansiosas, à espera da vereadora do PSOL, Marielle Franco.

No local seria realizado o debate Jovens Negras Movendo Estrutura, cuja mediadora seria, justamente, a vereadora. O debate estava marcado para começar as 18hs, mas por causa de alguns contratempos na Câmara, a vereadora não conseguiu chegar a tempo. Por fim, conseguiu se juntar as mulheres pouco depois das 19hs. O evento também seria transmitido pela página de Marielle no Facebook.

O debate transcorreu de modo tranquilo. Sem incidentes. Para finalizar sua participação, a vereadora escolheu uma frase da escritora americana, negra, feminista, e gay, Audre Lorde. Diz a frase: “Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”.

Maria explicou ao público presente e a quem assistia ao evento pela rede social que havia escolhido essa frase em um curso de inglês. Fora pedido a ela no curso que ela citasse alguma mulher que tivesse como referência. E ela escolheu a escritora americana. Havia, claramente, nessa escolha uma auto identificação, sendo ela mesma, Marielle, mulher, negra, e gay.

“O lugar de mulher, mulher negra, bissexual, agora estou casada com uma mulher, mas tenho uma filha. Dessas muitas representações a gente vai aprendendo, conhecendo e estudando mais”, disse Marielle, finalmente, encerrando o debate.

Ao final do encontro, foi o momento de posar para as fotos, para aquela conversinha animada, enfim, celebrar mais um encontro bem-sucedido. Aline Lorena, cineasta, amiga de Marielle, e que também estava participando do debate, sugeriu que o grupo fosse comemorar em algum bar no bairro boêmio da Lapa.

Marielle não quis. Tivera um dia muito cansativo na Câmara de vereadores. E por esse motivo, preferia ir para casa descansar. Além do mais, foram duas horas de debate intenso. Era quase nove da noite, e ela teria que estar na Câmara cedo no dia seguinte.  Lá fora, os inimigos já a aguardavam. E a intenção deles não era das melhores.

Algumas das mulheres não desistiram de fechar a noite tomando cerveja. Pouco depois da nove e meia da noite, quando já estavam desfrutando de uma gostosa cerveja gelada, chegou a notícia pelo WhatsApp: Marielle havia assassinada. Impossível, pensaram elas. Só pode ser fake news. Afinal, não faz nem meia hora que nos despedimos dela, do motorista, Anderson Gomes, e da jornalista e assessora, Fernanda Chaves, e estava tudo bem.

Apreensivas elas ligaram para pessoas do PSOL, partido de Marielle, e eles confirmaram a tragédia. Enquanto se dirigiam para casa, um carro emparelhou com o veículo onde os três estavam, disparando uma saraivada de metralhadora. Marielle e Anderson, morreram na hora, Fernanda Chaves, milagrosamente, escapou com ferimentos leves provocados pelos estilhaços.

Desde então, duas perguntas ainda não foram respondidas: Quem mandou matar Marielle, e porquê? Após o assassinato, a extrema direita tentou de todas as formas, desqualificar a figura daquela que havia, como uma brava guerreira, tombado em combate. Enxurrada de notícias falsas invadiram as redes bolsonaristas, algumas delas ligando Marielle ao tráfico.

O pacto de silêncio entre os criminosos foi quebrado essa semana, e depois de cinco anos, podemos estar mais perto dessas duas perguntas que, há tempos, o Brasil se faz.

Um dos envolvidos no crime, o ex-policial militar Élcio Queiroz, resolveu, através de uma delação premiada, quebrar o pacto de silêncio. E deu detalhes importantes sobre o crime. Trechos da delação premiada feito pelo ex-policial foram divulgadas nesta segunda-feira, 24.

Ele contou que dia 14 de março de 2018, estava prestando serviços de segurança particular para as Casas Bahia. Por volta do meio dia, teria recebido uma mensagem de Ronnie Lessa. Ronnie pedia que, às 16hs, fosse encontra-lo em sua casa, na Barra da Tijuca, e que evitasse o horário de pico. As mensagens foram recebidas através do aplicativo Confide, que apaga as mensagens depois que elas são lidas.

Élcio só conseguiu chegar à casa de Ronnie às 17hs. E o encontrou com uma mala preta contendo a arma do crime. Ele sabia que seria uma execução, mas não sabia ainda quem seria o alvo. A seguir, entram no carro de Ronnie e vão até uma rua sem saída, e entram num Cobalt branco, que seria usado no crime. A pedido de Ronnie os celulares não levados, ficando no carro dele.

Os dois saem pelas ruas do Rio, apenas durante o trajeto é que Élcio fica sabendo que o alvo é Marielle Franco, e que ela estará na Casa das Pretas. Estacionam o Cobalto, e Ronnie diz par Élcio. Agora você ter que me ajudar. Ele dobra o banco e se arrasta para o banco traseiro. Ronnie começa então a se equipar: coloca um casaco preto, tira a submetralhadora da bolsa, instala o silenciador, coloca uma toca na cabeça, e pega um binóculo. Pacientemente, esperam que a vereadora saia do evento.

Finalmente, Marielle sai da Casa das Pretas, acompanhada da assessora. Ronnie quer executá-la ali mesmo. Élcio diz que é loucura por causa do movimento de pessoas que acompanham Marielle.

Marielle se despede do grupo de mulheres e entra no carro, junto com o Anderson, e Fernanda Chaves. O Cobalt passa então a seguir o carro de Marielle. Em um momento do trajeto, o carro da vereadora diminui a velocidade. Ronnie sente que chegou a hora. Pede que Élcio emparelhe o carro com o deles, e efetua os disparos. O crime que eles achavam perfeito estava consumado. Élcio sente as capsulas caírem sobre ele.

Depois do assassinato, às 21h48, os dois seguem para a casa da mãe de Ronnie, no Méier, onde haviam deixado o carro. De lá, chamam um táxi e vão para um bar, na Barra da Tijuca. Lá se encontram com Maxwell. Os três ficam bebendo até as 3h da manhã. Foi ainda no bar, pela TV, que ficaram sabendo que não haviam matado apenas Marielle, mas também o motorista.

No dia seguinte, dia 15, foram retirar as capsulas que haviam caído do carro, trocar a placa, e levar o carro para Rocha Miranda, local onde seria feita a desova do automóvel por Edmilson Barbosa dos Santos, mais conhecido como orelha.

Apoiada na delação de Élcio, a PF e o Ministério Público do Rio de Janeiro realizaram, na manhã de segunda-feira, 24, a operação Élpis. A operação prendeu o ex-sargento do Corpo de Bombeiros, Maxwel Simões Correia, também conhecido como Suel. O ex-bombeiro já havia sido preso em 2020. As investigações mostraram que ele ajudou a descartar armas escondidas por Ronnie Lessa. Após a delação de Élcio a PF chegou à conclusão de que a participação dele no crime vai além de ajudar a destruir provas. Ele participou do planejamento do crime. Por isso, responderá por duplo homicídio, junto com Élcio Queiroz e Ronnie Lessa.

As investigações mostraram também que os suspeitos de executarem Marielle e Anderson movimentaram milhões de reais após o cometimento do crime. Apresentando renda incompatível coma as atividades que desenvolviam.

Ainda não sabemos quem mandou matar Mariele e Anderson, nem porquê? O fato é que famoso ou não, essa pessoa é muito poderosa. Também é certo que só houve avanços importantes nessa investigação devido a mudança de governo. Agora vemos uma luz no fim do túnel, pois se tivesse permanecido do poder o presidente Jair Bolsonaro, essa luz no fim do túnel ficaria cada vez mais distante, mais opaca, e, por fim, se apagaria.


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Vinícius Junior: Um guerreiro negro

Posted by Cottidianos on 23:19

Terça-feira, 23 de maio

Guerreiros são pessoas

São fortes, são frágeis

Guerreiros são meninos

No fundo do peito

Precisam de um descanso

Precisam de um remanso

Precisam de um sonho

Que os tornem perfeitos

(Guerreiro Menino – Gonzaguinha)



Prezados leitores e leitoras,

Permitam-me relatar aqui um caso passado comigo no sábado à noite. Faltou-me a manteiga em casa, então resolvi ir a uma padaria comprar. Assim que entrei na loja, o segurança já me olhou com aquele olhar intimidante, constrangedor, que me fez sentir até um arrepio na espinha. Ele me olhou como se eu tivesse entrado lá para roubar alguma coisa e não comprar algum produto. Desconcertado, desisti de fazer compras naquele estabelecimento, e fui a um supermercado que fica algumas quadras à frente.

Aquilo me feriu por dentro. No caminho para casa, fiquei pensando: se um olhar do segurança me fez passar mal, imagina então o que deve sofrer o Vinícius Junior na Espanha, e outras pessoas que sofrem uma forma mais agressiva de racismo.

Veio a manhã de segunda-feira e a tristeza que havia sentido no sábado voltou novamente ao ver mais desprezível caso de racismo sofrido pelo Vinícius Junior, neste domingo, 21.

O caso aconteceu durante uma partida entre o Real Madrid e o Valência. O inferno já aconteceu antes do jogo. Quando o ônibus do Real Madri chegou ao estádio, uma multidão de brancos irascíveis já recebia o Vinícius Junior com insultos e gritos de macaco.   

A partida começou e as ofensas continuaram tendo como ápice o segundo tempo do jogo. Aos 29 minutos do segundo tempo, tentava armar uma jogada pela esquerda, momento em que torcedores do Valência jogaram uma segunda bola em campo, com o claro propósito de atrapalhar a jogada.

O juiz da partida paralisou o jogo. Nesse momento os cânticos racistas ficaram mais audíveis. Vinícius correu para trás do gol onde estava a torcida do Valência e começou a apontar para os torcedores que o ofendiam, chamando-o de macaco.

Mas o racismo já tinha contaminado totalmente o jogo tenso. Aos 50 minutos o clima dentro de campo esquentou. Vini se envolveu em uma confusão com o goleiro Giorgi Mamardashvilli. Uma confusão se formou. Vários jogadores do Valência foram para cima de Vini, como também é conhecido o jogador. Hugo Doro conteve o jogador brasileiro aplicando-lhe um mata-leão. Ao se desvencilhar Vini revidou com tapa na cara do adversário.

O árbitro do vídeo mostrou ao juiz da partida apenas a imagem na qual Vini acertava o rosto do adversário, escondendo a agressão que ele havia sofrido. Vini saiu de campo aplaudindo, de forma irônica, e fazendo o número dois com os dedos mão, provocando o time adversário que luta para não cair para a segunda divisão.

O Valência ganhou o jogo por 1x 0. Ao final do jogo uma repórter se aproximou do técnico do Real Madrid, Carlo Anceloti, e queria falar sobre o jogo. Com semblante carregado o técnico respondeu: “Queres falar de futebol? Eu não quero falar de futebol. Do que quero falar? Do que aconteceu aqui. Isto é mais importante do que uma derrota. O que se passou não pode acontecer. É evidente. Quando todo o estádio chama macaco a um jogador e um treinador pensa tirar um jogador por causa disso, algo de mal se passa nesta Liga

Um repórter ainda teve o disparate de pergunta ao jogador brasileiro, enquanto ele dava autógrafos e tirava fotos antes de entrar no ônibus, se ele se arrependia de ter feito provocação ao Valência. Surpreso, o jogador pergunta: “Você é tonto”? Em outras palavras: “Você é burro? ”

Não parou por aí. O clima esquentou ainda mais depois do jogo.

Vini Junior foi às redes sociais e escreveu: “Não foi a primeira vez, nem a segunda e nem a terceira. O racismo é o normal na La Liga. A competição acha normal, a Federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi hoje é dos racistas. Uma nação linda, que me acolheu e que amo, mas que aceitou exportar a imagem para o mundo de um país racista. Lamento pelos espanhóis que não concordam, mas hoje, no Brasil, a Espanha é conhecida como um país de racistas. E, infelizmente, por tudo o que acontece a cada semana, não tenho como defender. Eu concordo. Mas eu sou forte e vou até o fim contra os racistas. Mesmo que longe daqui”.

Javier Treblas Medrano também foi ás redes sociais, não para condenar o racismo e os racistas, mas sim, para atacar Vinícius Junior. “Não podemos permitir que se manche a imagem de uma competição que é sobre o símbolo de união de povos, onde mais de 200 jogadores são de origem negra em 42 clubes que recebem em cada rodada o respeito e o carinho da torcida, sendo o racismo um caso extremamente pontual (nove denúncias) que vamos eliminar”.

Não Sr. Medrano, o racismo no futebol não são casos isolados. Primeiro que foram vários casos de racismo contra Vini Jr., e a lei e a sociedade espanhola não fizeram nada para evitar o crime se repetisse, e ele se repetiu.  Segundo, outros jogadores negros, brasileiros, que passaram por lá também sofreram com o racismo.

Em 1997, o jogador Roberto Carlos, jogava no Real Madrid. Ele teve a parte traseira de seu carro riscada com a palavra “makako”, usada para ofender os negros. O fato aconteceu em Madrid. O então lateral da seleção brasileira havia dito doze dias antes que Madrid era a cidade mais racista da Espanha. O comentário do jogador se deu pelo fato de o jogador ter sido insultado, juntamente com o jogador, Clarence Seedorf, também negro, durante uma partida entre Barcelona e Real Madrid, válida pela Copa Rey.

O mesmo Roberto Carlos, dessa vez jogando pelo Anzhi, na Rússia, deixou o campo durante uma partida porque um jogador jogou uma banana em campo.

A diferença entre Vinícius Junior e Roberto Carlos foi que o primeiro não abaixou a cabeça, nem se calou diante das ofensas sofridas. Ele, corajosamente, enfrentou os seus algozes, e fez um país inteiro olhar para si mesmo e ver que sua roupa branca estava toda manchada pela lama desprezível do racismo. Vini fez a Espanha refletir. Tanto é que, durante a partida, nem durante o intervalo do jogo, os jornais e televisões espanholas não falaram de racismo. Apenas vieram a fazer isso depois que os vídeos viralizaram nas redes sociais, e o caso ganhou grande repercussão mundial, unindo nessa luta, futebol e política.

Essa postagem do Vinicius, feita no Instagram, após o ocorrido no domingo, mostra bem a coragem dele:

Cada rodada fora de casa uma surpresa desagradável. E foram muitas nessa temporada. Desejos de morte, boneco enforcado, muitos gritos criminosos.... Tudo registrado.

Mas o discurso sempre cai em “casos isolados”, “um torcedor”. Não, não são casos isolados. São episódios contínuos espalhados por várias cidades da Espanha (e até em um programa de televisão).

As provas estão aí no vídeo. Agora pergunto: quantos desses racistas tiveram nomes e fotos expostos em sites? Eu respondo pra facilitar: zero. Nenhum pra contar uma história triste ou pedir aquelas falsas desculpas públicas.

O que falta para criminalizarem essas pessoas? E punirem esportivamente os clubes? Por que os patrocinadores não cobram a La Liga? As televisões não se incomodam de transmitir essa barbárie a cada fim de semana?

O problema é gravíssimo e comunicados não funcionam mais. Me culpar para justificar atos criminosos também não.

No és fútbol, és inhumano.

As palavras de Lula, durante a reunião do G7, que começou na sexta-feira, 19 de maio, e terminou no domingo, 21. Ao final do evento, no domingo, 21, Lula abriu uma entrevista coletiva de imprensa, falando sobre o lamentável episódio de racismo ocorrido na partida entre Real Madrid e Valência.

“Ele [Vinicius Jr.] foi fortemente atacado, sendo chamado de macaco. Não é possível que, quase no meio do século 21, a gente tenha o preconceito racial ganhando força em vários estádios de futebol na Europa. Não é justo que um menino pobre, que venceu na vida, que está se transformando num dos melhores jogadores do mundo, certamente do Real Madrid é o melhor, ser ofendido em cada estádio que comparece. Penso que é importante que a Fifa, a Liga Espanhola e as ligas de outros países tomem sérias providências porque nós não podemos permitir que o fascismo tome conta, e o racismo, dentro dos estádios de futebol”.

A fala de Lula, numa reunião do G7 teve grande peso e foi muito importante, trazendo a questão para o campo diplomático.

O caso ganhou ampla repercussão mundial ganhando matérias em grandes jornais como o The New York Times e o The Guardian. Toda essa repercussão levou à Justiça espanhola a fazer o que se esperava que ela fizesse: agir. E apenas fez isso por causa da repercussão que o caso, senão teria tudo “acabado em pizza’.

A polícia espanhola prendeu sete pessoas.  Quatro delas pelo envolvimento no caso do boneco pendurado em uma ponte em frente ao centro de treinamento do Real Madrid enforcado, usando a camisa 20 do Vinícius Junior. Os criminosos ornaram o boneco com uma faixa nas cores vermelho e branco, cores do Atlético de Madrid. Na faixa escreveram: “Madrid odeia o real”. E ainda teve ainda esse episódio grotesco acontecido em janeiro. Uma violência psicológica sem tamanho para qualquer pessoa. Os outros três foram presos pelas ofensas racistas ocorridas no domingo.

Desde os fatos ocorridos na Espanha, no domingo, a redes sociais tem sido invadidas por hastgs, pronunciamento, palavras de apoio, que são coisas válidas, mas isso não vai acabar com o racismo, aqui no Brasil, nem na Espanha, nem em qualquer lugar.

Para acabar com racismo é preciso mais que tudo ações e leis que punam os criminosos que praticam esse ato desprezível que é o racismo. O racismo é desprezível e quem o pratica é igualmente desprezível.

Para finalizar, vai solidariedade deste blog, ao grande jogador Vinícius Junior, hoje, uma das estrelas de primeira grandeza do futebol mundial. Mas, o que surpreende não é tanto o futebol que ele joga. Antes dele, já houveram muitos negros bons de bola. O que surpreende em Vinícius Junior é a força mental que ele demonstra, ao não se curva ao racismo escancarado que reina no futebol espanhol, ao se posicionar contra esse crime, ao enfrentar os seus algozes.

Assim agem os grandes homens. Assim agem os guerreiros.


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