0

Sabedoria de umbuzeiro

Posted by Cottidianos on 00:58
Domingo, 12 de março

Tantas vezes me mataram / Tantas vezes eu morri
Mas agora estou aqui /ressuscitando
Agradeço ao meu destino /E a essa mão com um punhal
Porque me matou tão mal /E eu segui cantando
Cantando ao sol /Como uma cigarra
Depois de um ano embaixo da terra
Igual a um sobrevivente /Regressando da guerra
(A cigarra – Renato Teixeira)


 Há na caatinga nordestina, árvores fortes, como o umbuzeiro, que suportam com dignidade e beleza a dureza dos períodos de estiagem, e matos ralos, que secam ao primeiro raio de sol que desce mais forte sobre a terra.

Na vida não é diferente, há pessoas umbuzeiros e pessoas mato ralo. Em qual das duas categorias se enquadra o caro leitor, ou leitora?

Naquele segundo ano houve dificuldades medonhas. Plantei mamona e algodão, mas a safra foi ruim, os preços baixos, vivi meses aperreado, vendendo macacos e fazendo das fraquezas forças para não ir ao fundo. Trabalhava danadamente, dormindo pouco, levantando-se às quatro da manhã, passando dias ao sol, à chuva, de facão, pistola e cartucheira, comendo nas horas de descanso um pedaço de bacalhau assado e um punhado de farinha.
O trecho acima em parágrafo recuado foi extraído do livro, São Bernardo, um dos clássicos de Graciliano Ramos. No trecho citado acima, o personagem Paulo Honório faz um balanço de sua vida na Fazenda São Bernardo. Paulo Honório é o dono da fazenda, e para conseguir os seus objetivos na vida, passa por cima de tudo e todos. Depois descobre que não é bem esse o fio condutor da vida.  Porém, não é esse o enfoque que se quer dar nesse texto, mas sim, as dificuldades vividas pelo nordestino, e principalmente, o homem do sertão.

Euclides da Cunha, em seu clássico romance, Os Sertões, diz que “o nordestino é antes de tudo um forte”. O autor foi muito feliz ao dar vida a estas palavras em seu texto. São palavras obvias para quem está imerso na realidade do povo nordestino, mas o obvio e belo está tão evidente em nossa vida, na maioria das vezes, debaixo de nosso nariz, mas ficamos procurando, o complexo, nesse jogo de simples e complexo, as grandes verdades da vida passam despercebida de nós mesmos.

Como Paulo Honório, no sentido de homem nordestino que passa por dificuldades existem muitos. Gente que se levanta quando  o sol ainda se demorará em raiar, e sai, serpenteando pelas estreitas veredas do sertão, em busca do sustento, de um bocado para comer, e dar de comer aos filhos.

A seca rouba do nordestino os sonhos de uma boa colheita, de água fácil para matar a sede dos homens e dos bichos. É preciso ser forte ao ver que os grãos plantados vão mirrando no solo seco, esturricado, as últimas folhas como braços erguidos ao céu suplicando apenas algumas gotas de chuva para saciar a sede. Mas sobre elas bate um sol impiedoso que lhes ceifa a vida, e as plantas suplicantes acabam por se tornarem tão secas quanto o solo, entristecendo sertão e sertanejo.

Junto com os rios e lagos secam também a fonte das lágrimas do homem do sertão. Já não há lágrimas para chorar. É preciso viver, mais que isso, é preciso sobreviver. Não tempo para cair, nem para desanimar.

Em meio a toda sequidão uma palavra brota do coração sertanejo, e é ela que dá vida e animo para prosseguir a dura caminhada pelas veredas:estreita faixa de terra, ladeada por galhos que parecem suplicar por chuva que lhes venham refrescar as dores, e por espinhos que ferem e cortam a pele de quem pelas veredas adentra.

A palavra que brota do coração sertanejo, e se vai escrevendo em letras garrafais, a cada nascer do sol, e a cada entardecer, se chama esperança. Esperança que sempre vem acompanhada pela fé. Sem estas duas irmãs andando juntas pelas veredas do coração do sertanejo, ele secaria como o solo e as plantas que nele foram plantadas, e depois castigadas pelo sol abrasador.

Para o sertanejo é assim: quanto maiores as dificuldades, maior a fé e a esperança em dias melhores.

A inspirar o homem do sertão em meio a toda aquela desolação, está, imponente, uma planta que é exclusiva do nordeste, chamada umbuzeiro. Símbolo de resistência, de luta, e de não se entregar as dificuldades. As árvores ao seu redor estão perecendo por falta de chuvas, mas o umbuzeiro não: ele exibe verdor e vigor. Sua verde copada pode ser vista de longe em meio a caatinga.

Seus frutos azedos e saborosos, são uma rica fonte de vitamina C. Os seus frutos são tão abundantes que não se seguram no pé quando maduros, e vem forrar o chão estéril de fartura, como que a dizer, “diante das dificuldades, resista, e ouse ser diferente”.

Essa atitude nobre do umbuzeiro permite ao nordestino um meio a mais de matar a fome e nutrir ao corpo de vitaminas essenciais, além de conseguir algum dinheiro com a venda e beneficiamento do fruto.

Para exibir toda essa imponência e fartura em meio à desolação da caatinga, o umbuzeiro usa a tática das virgens prudentes da parábola dita pelo mestre Jesus, no evangelho de Mateus (25, 1-13).

Esta parábola narra a história das dez virgens que estava esperando pelo noivo para entrarem junto com ele no salão onde se realizaria a cerimônia de casamento. Ocorre que cinco delas eram precavidas e haviam levado óleo suficiente para o caso de uma emergência. E as outras cinco não eram tão precavidas assim, e levaram óleo apenas para o tempo suficiente em que esperariam o noivo.

E o imprevisto aconteceu: o noivo demorou mais que o esperado. Todas elas acabaram dormindo. Acordaram sobressaltadas com gritos de que o noivo estava chegando.

As imprudentes, com as lâmpadas quase se apagando, pediram óleo às prudentes, ao que estas replicaram “de modo nenhum, pois o óleo pode faltar para mim e para vocês”. E lá se foram as imprudentes comprar mais óleo, enquanto as prudentes entraram com o noivo, e a porta do salão se fechou atrás delas.

Este é o segredo do umbuzeiro para se conservar verdejante enquanto as árvores da caatinga ao seu redor perecem: a árvore tem por raízes, batatas que funcionam como pequenos reservatórios d’água. Durante o período chuvoso, estas raízes vão armazenando água e, durante, o período de estiagem, estas raízes vão abastecendo o tronco, folhas, flores, e frutos, da substância vital que lhes conserva a vida. Estima-se que cada umbuzeiro consiga acumular até 1.500 litros de água.

Agora, pense você que lê este artigo, no Brasil como um grande sertão que está atravessando um período de estiagem. O monstro da inflação a ameaçar o país em recessão. Crises por todos os lados. Universidades ao abandono. Economia em colapso. Crises institucionais. Um lastro de roubalheira e corrupção que puxam o país para trás.


Mais do que nunca é hora do brasileiro agir; com a sabedoria das virgens prudentes, prevenindo-se para qualquer eventualidade; com a ciência do umbuzeiro, que não espera os dias difíceis para tomar providências, pois as providências já foram tomadas antes, nos dias de fartura de chuvas e de água; e com a fé do sertanejo, que mesmo diante das dificuldades inúmeras, jamais deixa morrer nas veredas do seu coração, a esperança consoladora. 

0

Chapa Dilma-Temer: uma chapa sob suspeita

Posted by Cottidianos on 00:33
Quinta-feira, 09 de março


Em 10 de junho de 2014, em convenção nacional, o PMDB, decidiu apoiar a candidatura da presidente Dilma Rousseff, para as eleições que seriam realizadas em outubro daquele ano, reeditando, desse modo, a chapa que tinha Michel Temer como Vice-Presidente da República. Dilma agradeceu o apoio, elogiou as qualidades do vice como articulador dentro do PMDB, fato que havia proporcionado o sucesso daquele momento.

Tudo era felicidade. Todos eram apenas sorrisos. Não sabia Dilma que do mesmo jeito que o seu querido vice havia articulado para que concorresse na chapa, junto com ela como vice, mal sabia ela que esse mesmo poder articulador, daquele eficiente senhor, acabaria por lhe derrubar da cadeira presidencial, assumindo, ele mesmo, a presidência.

Convenção feita, o processo eleitoral andou, e pelo visto, com eficiência. Todos arregaçaram as mangas. PT e PMDB unidos na corrida pela cadeira presidencial. Responsabilidades divididas. Um não ficou de braços cruzados enquanto o outro trabalhava. Não de modo algum. Foram a lutas juntos. Pediram apoio juntos. Juntos esperaram... E juntos venceram as eleições.

Em fins de outubro daquele ano, eram colhidos os frutos doces de uma afinada parceria. Dia 26 de outubro, um domingo, Dilma era reeleita presidente da República, numa das eleições mais acirradas dos últimos tempos. E ao seu lado, o fiel escudeiro, Michel Temer.

Depois veio toda aquela história do processo de impeachment, e Dilma foi deposta. Antes disso, gritou e bradou aos quatro cantos do mundo, que estava sendo vítima de um golpe — e hoje, talvez se considere que estivesse com a razão, apesar de ter feito por merecer o pé na cadeira que lhe deram — mas os gritos não funcionaram.

Ai vem o depoimento de Marcelo Odebrecht botar mais pimenta nesse molho. Há cerca de sete dias, o empresário presidiário Marcelo Odebrecht, disse, em depoimento no Superior Tribunal Eleitoral, que havia doado R$ 150 milhões para a chapa Dilma Temer, por meio de caixa 2. Segundo Marcelo, o pagamento dessa fortuna foi negociado diretamente como ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Para não chamar muito atenção, o pagamento da propina teria sido feita no exterior a João Santana, marqueteiro da chapa na qual concorriam Dilma e Temer.

Ainda segundo Marcelo, ele discutiu o assunto de doações para campanhas eleitorais, pessoalmente, com Temer, durante um jantar no Palácio do Jaburu. Mas, coisa difícil de acreditar, nesse jantar não ter sido discutido valores. Marcelo diz acreditar que os valores foram discutidos em encontro posterior entre Eliseu Padilha — atual ministro licenciado da Casa Civil — e Claudio Mello ex-diretor da empreiteira. Este último, afirmou em delação premiada que o valor definido para essa transação teria sido de R$ 10 milhões.

Nesta terça-feira (07), o Superior Tribunal Eleitoral ouviu mais três delatores na ação que investiga o uso de caixa dois, e de abuso econômico na chapa Dilma Temer, a saber: Hilberto Mascarenhas da Silva Filho, Alexandrino de Alencar, e o já citado anteriormente, Cláudio Melo.

Hilberto foi o primeiro a ser ouvido. Chegou ao TSE tampando o rosto, mas um tampar de rosto esquisito. Parecia estar mais era debochando de uma situação, do que mesmo sentindo vergonha dela. Esse parecer é emitido no sorriso cínico do delator enquanto escondia o rosto. Ele era o chefe do departamento de propina da Odebrecht. É bom que reflitam os leitores e leitoras que a própria criação de um departamento de propina é algo fora de cogitação para uma empresa que pauta seus princípios pelos valores da ética e moralidade. Para disfarçar, deram a esse desonroso departamento o pomposo nome de “Setor de Operações Estruturais”. O serviço de Hilberto nele era arrecadar e distribuir propina.

Em duas horas, o delator explicou como funcionou o pagamento de propina na eleição presidencial de 2017.

O segundo a falar, Alexandrino de Alencar, falou apenas por meia hora. Era ele o elo entre a empreiteira, e os abutres, digo, políticos. Alexandrino falou da distribuição de propina ao PDT, PP, PRB, PCdoB e PROS — partidos que deram apoio à chapa Dilma-Temer. Segundo Alexandrino, cerca de 30 milhões foram distribuídos entre esses partidos.

Claudio Mello, falou do que já havia falado antes: do tal jantar no Palácio do Jaburu, em que estavam Marcelo Odebrecht, Michel Temer, e Eliseu Padilha. Ele afirmou que Temer, pessoalmente, pediu doação a Marcelo.

À época Temer era vice-presidente, e esse pedido deve pesado muito para o líder da Odebrecht. Difícil dizer não quando se está envolvido até o pescoço, e mais do que o pescoço, até a alma, num esquema criminoso desses. Ainda segundo Claudio, foi Marcelo quem definiu de que forma seriam repartidos os R$ 10 milhões: R$ 6 milhões para a campanha de Paulo Skaf ao governo de São Paulo, e 4 milhões ficariam para serem distribuídos por Eliseu Padilha, sendo que um endereço de parte dessa dinheirama foi no escritório de José Yunes, ex-assessor de Temer.

Como a história se repete sempre quando alguém é acusado de falcatruas na Lava Jato, também nesse caso, ninguém sabe de nada, ninguém conhece ninguém, ninguém nunca viu ninguém, e todos posam de anjinhos e juram inocência.

A grande questão desses depoimentos no TSE e na ação que apura o uso de caixa dois na chapa Dilma-Temer, é que a chapa pode ser cassada. Os advogado de defesa de Temer podem alongar a fase de apuração, pedindo que sejam ouvidas novas testemunhas, contestar o próprio andamento da ação, enfim, existem mil manobras que podem ser feitas pelos advogados de defesa do presidente para protelar a ação movida pelo PSDB.

Dilma já é carta fora do baralho, então todas as atenções se voltam para Temer, e, se as supostas irregularidades podem cassar seu mandado. Caso isso aconteça, uma eleição indireta na qual apenas votarão deputados e senadores escolherá um novo presidente.

Dizendo no popular: Temer quer tirar o corpo fora, e dizer que não tem responsabilidade sobre as ações da ex-presidente Dilma quando em campanha. Como pode haver separação, se antes do processo de impeachment eles eram “unha e carne” aliados fieis. E, se foram aliados fieis na vitória, porque não sê-lo também nas falcatruas, e na punição da lei?

0

Feliz Dia Internacional da Mulher

Posted by Cottidianos on 08:56
Quarta-feira, 08 de março



Mulheres, a postagem desta manhã do dia 08 de março de 2017, é apenas para lhes parabenizar pelo Dia Internacional da Mulher. A vocês, frágeis, fortes, rainhas, do sertão, ou da cidade, aceitem os parabéns deste blog Cottidianos.

Como homenagem, segue a letra de uma música que conta a história do cangaço no sertão no sertão brasileiro, reinado de Lampião, reinado esse, onde Maria Bonita, mulher forte, determinada, e corajosa, era rainha. No sertão, ou na cidade, sempre fortes.

***

Mulher Nova Bonita E Carinhosa

Interpretação: Amelinha
Composição: Zé Ramalho E Otacilio Batista

Numa luta de gregos e troianos
Por Helena, a mulher de Menelau
Conta a história de um cavalo de pau
Terminava uma guerra de dez anos
Menelau, o maior dos espartanos
Venceu Páris, o grande sedutor
Humilhando a família de Heitor
Em defesa da honra caprichosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor

Alexandre figura desumana
Fundador da famosa Alexandria
Conquistava na Grécia e destruía
Quase toda a população Tebana
A beleza atrativa de Roxana
Dominava o maior conquistador
E depois de vencê-la, o vencedor
Entregou-se à pagã mais que formosa
Mulher nova bonita e carinhosa
Faz um homem gemer sem sentir dor

A mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino
Quem não ama o sorriso feminino
Desconhece a poesia de Cervantes
A bravura dos grandes navegantes
Enfrentando a procela em seu furor
Se não fosse a mulher mimosa flor
A história seria mentirosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor

Virgulino Ferreira, o Lampião
Bandoleiro das selvas nordestinas
Sem temer a perigo nem ruínas
Foi o rei do cangaço no sertão
Mas um dia sentiu no coração
O feitiço atrativo do amor
A mulata da terra do condor
Dominava uma fera perigosa
Mulher nova, bonita e carinhosa

Faz o homem gemer sem sentir dor

0

Dinheiro que escoa pelo ralo

Posted by Cottidianos on 18:01
Domingo, 05 de março


Observem, caros leitores, e leitoras, o comentário feito pela jornalista, especializada em economia, Miriam Leitão, sobre a situação das rodovias federais brasileiras, para o telejornal matinal global, Bom Dia Brasil:

“Não adianta culpar a natureza. E a natureza, daqui para diante vai ser mais rigorosa. Isso é o que os climatologistas estão dizendo: chuvas serão mais fortes e tudo será mais pesado, portanto a gente precisa preparar essa infraestrutura que há muito tempo não dá conta do recado. As pessoas estão correndo risco de morte, e mais do que isso: esse ano o Brasil vai crescer, isso é uma boa notícia, e não pode se transformar numa má notícia. A gente não pode crescer porque a infraestrutura não deixa? As concessionárias que recebem pedágio, elas podem ser objeto de punição pelos órgãos reguladores. As públicas, é mais complicado, então, nós que usamos esta estrutura, que pagamos. Este custo Brasil, tira a eficiência da economia, nós temos que pressionar o poder público para melhorar a qualidade das estradas”.

Esse comentário foi feito por Miriam Leitão, para o Bom Dia Brasil, em 03 de março de 2010. De lá pra cá, já se passaram sete anos, e, em relação questão da situação das rodovias federais, ao que parece, nada mudou.

Tudo bem que temos excelente notícia na economia que é o superávit recorde de R$ 4 bilhões e 560 milhões de dólares, no último mês, o melhor resultado em 27 anos. Estamos atravessando uma supersafra de grãos, que aumentou em 20%. Tivemos um aumento de 11% nas importações, e, melhor que isso, um aumento de 22% nas exportações, resultados comparados a fevereiro do ano passado. E esse aumento nas exportações não se refere apenas aos produtos agrícolas, mas às commodities em geral.

O aumento das atividades no Porto de Paranaguá, na cidade de Paranaguá, no Paraná, são sinais de que a economia brasileira não está inerte, ao contrário, ela está se mexendo. Isso, em meio ao caos econômico que vivemos, é mais que uma boa notícia, é uma excelente notícia. Apenas no mês de janeiro foram exportadas por aquele porto, 432 mil toneladas, o que equivale a 57 mil toneladas a mais do que no mesmo período do ano passado. A previsão é que esse aumento no número de exportações tenda a se elevar.
Todo esse aumento na renda agrícola faz a economia circular. 

Tudo estaria lindo e maravilhoso se não fossem as contradições. Aliás, o Brasil, se não tivesse o nome oficial de República Federativa do Brasil, poderia ser chamado de República Federativa das Contradições. Por aqui, tudo se complica. Até conta de dois mais dois vira equação de segundo grau.

A contradição em todo esse cenário econômico positivo é a questão da logística, aquela que a Miriam Leitão comentava, lá atrás, em 2010, e que pedia para que pressionássemos o poder público para melhorá-la.

Todo o dinheiro que vem dessa supersafra poderia se transformar em lucro, mas pela questão do problema logístico, grande parte dele se transforma em prejuízo.


É o que ocorre, por exemplo na BR-163, que liga Cuiabá, Mato Grosso do Sul, à Santarém, Pará. Nessa rodovia, mês passado, mais de três mil caminhões ficaram parados, atolados na lama. Se tivéssemos a oportunidade de ver do alto, veríamos da longa fila de caminhões atolados no lamaçal, a imagem de uma imensa serpente marrom vagueando em meio ao mato.

Semana passada, os caminhoneiros parados na estrada começaram a ser liberados, mas aos poucos, em meia pista. As equipes de resgate liberaram caminhões para os portos de Miritituba e Santarém, no oeste do Pará. O exército e a defesa civil também fizeram a entrega de mil cestas básicas, e de água para os caminhoneiros que ainda estavam parados. No sábado (4), a estrada voltou novamente a ser interrompida por causa das chuvas.

Segundo as associações de importações de óleos e cereais, o prejuízo causado com os caminhões parados na estrada é de R$ 1 milhão e 200 mil por dia nas importações de grãos de soja e milho. 170 quilômetros da BR-163 ainda não são asfaltados.

Um problema nunca vem sozinho, e nessa história todo mundo sai perdendo. Enquanto os caminhões ficavam parados na estrada, por causa da lama provocada pelas chuvas intensas, 11 navios ficaram parados no porto à espera dos grãos a serem embarcados. Os produtores terão que desembolsar 6 milhões de dólares, pois o navio estava à espera. As empresas que fazem o transporte marítimo estavam cumprindo a sua parte.

Também perdem os caminhoneiros que tem gastar fortunas fazendo reparos nos veículos, que quebram constantemente, por causa das estradas e rodovias em péssimas condições.

Em outras palavras, boa parte do dinheiro da supersafra, escoa pelo ralo.

O setor ruralista, e a sociedade como um todo, mas principalmente eles, deveriam exigir do governo que tratem a questão com mais seriedade, pois seriam resolvidos três problemas de uma vez só, relacionados a questão da logística: eficiência, e competitividade econômicas, e o salvamento de vidas que se perdem em acidentes em nossas estradas e rodovias.

Saindo do noticiário econômico e entrando no político, um fato que repercutiu semana passada foi o depoimento de Marcelo Odebrecht, no Superior Tribunal Eleitoral. Ele disse que R$ 150 milhões de reais foram doados a chapa Dilma-Temer, nas eleições de 2014. A doação teria sido feita através de caixa dois.

Segundo Marcelo, o dinheiro teria sido uma contrapartida por uma medida provisória, a MP dos Refis, que acabou beneficiando o grupo. O dinheiro teria sido negociado diretamente com o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ainda segundo o empresário, a ex-presidente Dilma sabia dessas negociações.

O empresário também afirmou ter tratado de doação para campanhas eleitorais, pessoalmente, com Michel Temer, no Palácio do Jaburu, quando ele ainda era vice-presidente, mas que na ocasião não discutiu valores com ele. Os valores teriam sido discutidos em outra ocasião, na qual se reuniram Eliseu Padilha — ministro licenciado da Casa Civil — e Claúdio Mello, ex-diretor da Odebrecht.  Segundo este último, em sua própria delação premiada, o valor doado teria sido no valor de R$ 10 milhões.

Houve vazamento de informações à imprensa em relação a este primeiro depoimento de Marcelo Odebrecht. A íntegra das delações premiadas de Marcelo, e de outros 76 executivos da empreiteira permanecerão em sigilo até que STF as tornem públicas.

Como se vê, caros leitores, é lama para todo lado, e dinheiro da nação escorrendo pelo ralo em qualquer das situações. Se os governos não fizessem do ato de governar balcão de negócios pessoais e partidários, e se debruçassem sobre assuntos de real interesse da nação, com certeza, teríamos boas estradas, boas rodovias, uma logística funcionando plenamente, e uma economia pujante, além de boas escolas, bons hospitais, segurança funcionando com eficiência, e por aí vai.

0

Samba do crioulo doido

Posted by Cottidianos on 23:05
Quinta-feira, 02 de março



Antes de olhar para o cenário político e sua tenebrosa trama marcada por corrupção, e os tétricos personagens nela envolvidos, lancemos um olhar sobre o samba enredo da campeã do grupo especial das escolas de samba do carnaval paulista.

Antes de chegar a São Paulo, demos um pulo no Rio. Rio de Janeiro. A bruxa esteve solta na Avenida Marques de Sapucaí, e, por pouco, não aconteceu uma tragédia. O desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio foi marcado pelos problemas envolvendo carros alegóricos.

Os problemas afetaram as escolas Paraíso do Tuiuti, União da Ilha, Unidos da Tijuca, Mocidade Independente de Padre Miguel. Os acidentes ocorreram tanto no domingo, quanto na segunda-feira de carnaval.

Um carro alegórico da escola Paraíso do Tuituti perdeu o controle e prensou algumas pessoas na grade que separa a pista das arquibancadas. Algumas delas ficaram presas nas ferragens e os bombeiros tiveram que intervir para tirá-las do apuro. Vinte pessoas ficaram feridas nesse acidente.

Outro acidente impactante ocorreu em um dos carros da Unidos da Tijuca. A parte de cima de um dos carros afundou, derrubando as pessoas que estava em cima e atingindo as que estavam logo abaixo no mesmo carro. 12 pessoas ficaram feridas, sendo duas em estado grave.

No Rio, a escola vencedora do carnaval deste ano foi a Portela.

É sempre assim: depois do leite derramado corre-se atrás do prejuízo. No caso, corre-se agora em busca de corrigir os erros para o próximo ano.

Vamos a São Paulo. Se lá alguma bruxa esteve solta, era bruxa do bem e da alegria, pois em Sampa não houve maiores incidentes durante os desfiles das escolas de samba. Em São Paulo, a vitoriosa foi a escola de samba Acadêmicos do Tatuapé.

A Acadêmicos do Tatuapé foi a quarta escola de samba a entrar na avenida, na madrugada de sábado (25). Seus 3 mil e 200 componentes, divididos em 5 alas recheadas de variadas cores e muito brilho, exibiam um sorriso de orelha a orelha, e muito samba no pé.

Entusiasmada, e disposta a levar o título, a escola entrou na avenida embalada pelo enredo, “Mãe-África conta a sua história: Do Berço Sagrado da Humanidade à Terra Abençoada do Grande Zimbawe!”

No enredo e nas fantasias, um passeio pelos reinos da África, sua cultura, e sua religião. Afinada com o empolgante som da bateria, os componentes, com garra, soltavam a voz, entoando o samba enredo, cuja letra diz:

Raiou... no horizonte meu destino
A vida nesse solo vi brotar
Sou eu .... a negra mãe da humanidade
Em meu ventre a verdade... humildade e amor
A força de um filho guerreiro
Herança de luta e dor
Abraça a liberdade... a igualdade em comunhão
A realeza estampada na pele
Coroada num só coração
Bate o tambor... deixa girar
Pra exaltar meus orixás
Um canto livre de amor
Na fé... na religião
Somos todos irmãos
Vejo meus filhos trilhando caminhos
Com a proteção de obatalá
Em poesia... brilha a cultura no olhar
Na ginga o batuque espalha magia
Meu samba hoje vai exaltar
Taí o menino da terra do ouro... um vencedor
Levo a mensagem... lição para o mundo
Tolerância... paz e amor
É de arerê... ilê, ijexá
Essa kizomba de um povo feliz
Eu sou a áfrica... derramo meu axé
Canta Tatuapé

O problema com a embriaguez do vinho da emoção é que nesse porre é comum as pessoas chamarem até urubu de meu louro. Canta-se a letras dos sambas enredos sob os auspícios da alegria, e nem se percebe que a letra do que está sendo cantado não corresponde a realidade vivida. Mas, às vezes, nem todos estão embriagados, algumas mentes alertas estão com seus radares ligados, prestando atenção se o que está sendo cantado reflete, de fato, a realidade.

E esse olhar, ou melhor, ouvido a letra do samba entoado pela campeã, coube ao jornalista, Leandro Narloch.

Ao analisar o título do enredo da samba da escola, Leandro, pensou: “Peraí, tem alguma coisa errada aqui. Eles chamam o Zimbábue, país africano, de “terra abençoada?”

E, realmente, se nos debruçarmos sobre dados estatísticos de organismos internacionais, veremos que de terra abençoada o Zimbábue não tem nada. Como pode ser abençoado um país, cuja população vive abaixo da linha da pobreza, que enfrenta graves problemas econômicos e sociais, subnutrição, e que, mesmo sem recursos, ainda tem que conviver com a praga do HIV?

Baseado nestas reflexões, Leandro Narloch escreveu o artigo intitulado, Tatuapé enlouqueceu ao dizer que Zimbábue é 'terra abençoada'.  O artigo foi publicado na Folha de São Paulo, na quarta-feira (01).

Excelente reflexão. Apenas discordo do jornalista no ponto em que ele releva a importância da herança que a África nos legou através dos negros aprisionados lá e trazidos para cá em condições sub-humanas. É inegável a contribuição que os negros africanos trouxeram para apimentar a nossa cultura, nossa música, e nosso jeito de ser.

Abaixo, este blog, compartilha, com autorização do jornalista, Leandro Narloch, o artigo publicado na Folha. Leandro é jornalista, mestre em filosofia, e autor do “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, entre outros. Escreve para a Folha às quarta-feiras.

Ademais, e apesar das críticas, parabéns a Acadêmicos do Tatuapé, pela vitória. Vitória essa que é fruto de um ano inteiro de muito trabalho.

***



Tatuapé enlouqueceu ao dizer que Zimbábue é 'terra abençoada'

Leandro Narloch

Se existe um lugar triste nesse mundo, um país amaldiçoado a só produzir notícias de atentados à liberdade e à igualdade, esse país é o Zimbábue, que a Acadêmicos do Tatuapé, campeã do carnaval de São Paulo, homenageou e chamou de "terra abençoada".

Eu sei, não dá para levar sambas-enredo a sério. A expressão "samba do crioulo doido" define há muito tempo a mistureba sem sentido das músicas dos desfiles. Escolas criam homenagens a qualquer um que oferecer um bom cascalho —pelo patrocínio, já houve sambas-enredo em louvor à Guiné Equatorial, ao iogurte, a Simón Bolívar, ao "cacau é show" e até mesmo, pasme o leitor, a Itanhaém.

Ainda assim, não consigo deixar de me impressionar com a obsessão dos carnavalescos com a África. Eles passam o ano todo assistindo série americana na TV. Quando podem viajar para fora do Brasil nas férias, correm para Nova York e para a torre Eiffel. Mal sabem apontar o Zimbábue no mapa. Mas, na hora de criar o samba-enredo, só dá "mãe África".

"A descoberta do clarinete por Mozart foi uma contribuição maior do que toda África nos deu até hoje", dizia Paulo Francis. Podemos ir mais longe em se tratando de um país específico. A última temporada de "Malhação" foi uma contribuição maior que todo o Zimbábue nos deu até hoje.

O Zimbábue é um dos poucos países do mundo onde a expectativa de vida caiu nas últimas décadas. Passou de 61 anos em 1987 para 42 em 2003 - o índice voltou a subir e, em 2012, chegou a 58 anos, segundo o Banco Mundial. Milhares de zimbabuanos (dei um Google para descobrir o gentílico do Zimbábue) morrem todos os anos de Aids e malnutrição.

Em 2009, o governo desistiu de ter uma moeda nacional e deixou os moradores adotarem o dólar. É que a inflação havia ultrapassado 230 milhões por cento. Nos anos 1990, depois de uma reforma agrária que confiscou a terra de colonos brancos e asiáticos, a produção agrícola despencou. "Terra abençoada", sério mesmo, Acadêmicos do Tatuapé?

O samba-enredo da escola fala em "lição para o mundo, tolerância, paz e amor" vinda do Zimbábue ou da África em geral. Mas peraí: de 55 países africanos, 34 proíbem a homossexualidade, alguns com pena de morte. O socialista Robert Mugabe, líder do Zimbábue há 36 anos, diz que os gays são repugnantes e "degradam a dignidade humana". Também persegue opositores e frauda eleições.

Não que a África não mereça atenção e grandes obras. Os livros de Mia Couto ou V.S. Naipaul encantam qualquer um ao contar a história recente da África e o mal que revoluções disseminaram por ali. Mas parece que o samba-enredo da Acadêmicos de Tatuapé fala de outro país, outro continente. "Alegria", "tolerância" e "paz" não combinam muito bem com Zimbábue.

Copyright © 2009 Cottidianos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive. Distribuído por Templates