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Santo do pau oco

Posted by Cottidianos on 23:48

Campinas, 02 de junho de 2026



Ontem à noite, em clima de entusiasmo, a seleção brasileira embarcou para os Estados Unidos para participar da Copa do Mundo de Futebol. Mais uma copa e mais uma esperança de vencer. A seleção partiu embalada pela vitória expressiva de 6 x 2 sobre o Panamá. E para a seleção brasileira, faço meu o verso da canção Voa Canarinho, escrita por Nonô e Memeco; “Voa canarinho voa, mostra pra esse povo que és um rei”. A Copa do Mundo de Futebol, edição 2026, começará em 11 de junho, e terá partidas disputadas em cidades do México, Estados Unidos e Canadá.

Quem também voa, e voa rápido, é o tempo. O inexorável tempo nos empurra para o campeonato democrático das eleições, a serem realizadas em 4 de outubro, e se houver segundo turno, também em 25 de outubro. Os brasileiros irão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais.

Até agora, temos os seguintes pré-candidatos à presidência da República. São eles;

Lula (PT)

Flávio Bolsonaro (PL)

Ronaldo Caiado (PSD)

Romeu Zema (Novo)

Renan Santos (Missão)

Cabo Daciolo (Mobiliza)

Augusto Cury (Avante)

Hertz Dias (PSTU)

Samara Martins (UP)

Rui Costa Pimenta (PCO)

São pré-candidatos e serão considerados nessa condição até agosto quando acontecerão as convenções partidárias, e o registro das candidaturas no TSE, e então eles serão, efetivamente, considerados candidatos.

As pesquisas realizadas até o momento mostram que Lula (PT), e Flávio Bolsonaro (PL), são os candidatos mais bem colocados na corrida presidencial, seguidos de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).

Há quem fale que Caiado e Zema são candidatos que representariam uma terceira via, o que não é verdade. Ora, se a polarização se estabeleceu entre Lula e Bolsonaro,  e sendo Flávio, filho de Bolsonaro, o herdeiro dos votos dele, após sua condenação e prisão por tentativa de golpe de Estado, Caiado e Zema legítimos representantes e defensores das ideias bolsonaristas como poderiam eles representar algo diferente? Podemos considera-los apenas como candidaturas satélites.

Vamos abrir um parêntese aqui e falar de um fenômeno natural chamado pororoca. Esse fenômeno natural ocorre na foz do Rio Amazonas e seus afluentes do litoral do Amapá e do Pará, e envolve os rios Araguari, Maiacaré, Guamá, Capim e Moju. Pororoca nada mais é que o encontro das águas do rio com as águas do mar formando ondas grandes e violentas que chegam a atingir seis metros de altura uma velocidade de 30km por hora.  O fenômeno atrai muitos turistas e quem já presenciou, diz que o embate entre rio e mar causa grande barulho.

E eu aqui pensando: Quando foi que começou essa pororoca eleitoral que vivemos hoje na política brasileira? Lembro que houve tempos em que águas de rio e mar da política, apesar de serem diferentes, de terem propriedades diferentes conviviam em harmonia, embates haviam, o que é inevitável quando duas ou mais correntes de pensamentos se encontram, mas não havia todo esse barulho, essa violência que se observa hoje.

Chego a conclusão de que foi em 2018 que começou todo esse ambiente tóxico. Naquele ano havia um forte sentimento antipetismo.  Naquele ano Lula estava preso por acusação de corrupção. O juiz Sérgio Moro o havia condenado em de julho de 2017 a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, em uma ação penal que envolvia um triplex no Guarujá.

Não podendo concorrer, Lula escolheu Fernando Haddad para substituí-lo na corrida presidencial. No outro extremo, surgiu Jair Bolsonaro, um azarão, deputado do centrão, do chamado “baixo-clero” do clero do congresso.

Então de um lado, estava um país com um forte sentimento antipetista, e de outro um candidato barulhento que empunhava a bandeira da luta contra a corrupção, da rejeição aos métodos da velha política, e prometia melhoras na segurança pública e na economia.

O discurso e atitudes altamente tóxicos de Jair Bolsonaro, somadas às intensas práticas nada ortodoxas de atuação dos bolsonaristas nas redes sociais foram fundamentais para que a polarização igualmente tóxica se alastrasse como veneno pelo nosso, então pacífico Brasil.

Mas o discurso contra a corrupção dos Bolsonaro, e dos seus aliados é como diz o ditado “coisa pra inglês ver”. É um discurso que só existe na teoria, na prática a história é outra. Então eles despejam essas ideias nos grupos bolsonaristas, e ali, a lavagem cerebral é muito bem-feita. Qualquer coisa, sem exageros que se divulgue naqueles grupos, passa a aceito ser aceito como verdade pelos adeptos da “seita” bolsonaristas.

Esse ano vai ser interessante o enredo da oposição para as eleições. Os bolsonaristas não podem mais levantar a bandeira da luta contra a corrupção, pois Flávio Bolsonaro foi “pego com a boca na botija”, foi pego na mentira. Não é nenhum santo.

Dias atrás, o site The Intercpet Brasil divulgou áudios de diálogos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro preso, Daniel Vorcaro. O engraçado foi que horas antes da divulgação dos áudios, Flávio Bolsonaro participava de um evento quando os jornalistas o abordaram e lhe fizeram perguntas. Foi o repórter do Intercept, já sabedor dos áudios que seriam divulgados horas depois, perguntou se o senador havia pedido dinheiro a Vorcaro para financiar o filme, ao que Flávio respondeu com uma sonora gargalhada irônica, abandonou a entrevista, e ainda chamou o jornalista de militante.

Horas depois o The Intercept divulgou os áudios que mostravam que Vorcaro havia se comprometido a pagar a quantia de R$ 134 milhões de reais para a realização do filme “Dark Horse” que narra a história de Jair Bolsonaro. Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões, mas então a Polícia Federal descobriu o rombo enorme que ele estava causando no sistema financeiro nacional, e o prendeu. Essas reviravoltas dificultaram os repasses do banqueiro ao filme.

Mesmo assim, Flávio queria que Vorcaro pagasse o restante do dinheiro. Os áudios mostram ainda que Flávio encontrou-se com Vorcaro, mesmo quando ele já se encontrava em prisão domiciliar, e com tornozeleira eletrônica.

Impossível não acompanhar essas notícias sem que algumas perguntas fiquem em nossa cabeça. Onde foi parar todo esse dinheiro que o banqueiro investiu no filme? Pelos trailers do filme que já foram divulgados, vemos que o dinheiro não foi parar ali. Não vemos no filme nenhum ar de superprodução no estilo Hollywood. Tenho uma suspeita de que esse dinheiro esteja financiando a vida tranquila do falso patriota, Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos.

Outra pergunta que nós fazemos é porque o Vorcaro daria tanto dinheiro para a realização de um filme? A troco de quê? Certamente, pelo perfil do banqueiro já vimos que ele não é um homem bonzinho e que gosta de fazer caridade. Vorcaro está mais para mafioso do que para caridoso.

Até agora Flávio Bolsonaro não deu nenhuma explicação plausível para essa sede de pegar o dinheiro do Vorcaro. Aliás, quando mais ele fala sobre o assunto, mais ele se enrola.

Quando esse filme for lançado vai ser no mínimo irônico ver os bolsonaristas indo ver o filme sobre a vida do Bolsonaro feita com dinheiro sujo, com dinheiro roubado. Logo eles que, desde 2018, gritam em alto e bom som que Lula é o ladrão.

                                                                       Adriano da Nóbrega

Outra coisa que soa bastante hipócrita é o fato de ouvir o Flávio Bolsonaro dizer o Lula defende bandido. Logo ele que era amigo de um dos maiores milicianos do Rio, e chefe de um grupo de extermínio, Adriano da Nobrega. Em 2003, Flávio homenageou o então tenente da Polícia Militar, Adriano, com uma Menção de Louvor por sua atuação no combate à criminalidade. Mais tarde, em 2005, O miliciano se encontrava preso sob acusação de homicídio. Mesmo nessa condição, Adriano foi homenageado por Flávio com a Medalha Tiradentes, maior honraria que o Estado do Rio pode conceder a um cidadão.

Adriano da Nobrega foi absolvido pelo crime de homicídio, depois foi expulso da PM. Tempos mais tarde, mesmo já sendo apontado como chefe de milícia e de um grupo de extermínio chamado de Escritório do Crime, Flávio empregou a mãe e a mulher de Adriano em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Na época, Flávio praticava o esquema de “rachadinha” que era gerenciado por Fabrício Queiroz, policial militar e ex-assessor de Flávio. Parte do dinheiro ficava com Adriano da Nóbrega. Curioso isso, não? Por que Flávio dividia o dinheiro da rachadinha com Adriano?

E não foi apenas Adriano da Nóbrega que foi homenageado por Flávio, vários outros policiais militares envolvidos com o submundo do crime foram homenageados por Flávio durante o mandato dele como deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

Ainda sobre Adriano da Nobrega, ele foi morto em um confronto com policiais militares em um sítio na zona rural da cidade de Esplanada, na Bahia. As circunstâncias da morte do miliciano têm cara e jeito de queima de arquivo. O nome de Adriano também surgiu nas investigações da vereadora Marielle Franco e do motorista dela, Anderson Gomes. Ronnie Lessa, um dos assassinos de Marielle e Anderson, disse à época das investigações que Adriano teria sido um possível intermediário do crime.

Então quando você um candidato levantando a bandeira da corrupção e prometendo ser implacável com a criminalidade, e quando você olha para ele e vê a ligação dele com o submundo dos crimes financeiros e com milicianos, a gente vê que a hipocrisia reina solta, mesmo entre aqueles que assumem ares de bom moço. São os chamados santos do pau oco. Hipócritas. E de onde vem essa expressão “santo do pau oco”?

Durante o período colonial, as imagens de santos esculpidas em pau oco, ajudavam os mineiros a contrabandear ouro. Eles escondiam o ouro dentro das imagens, assim ficava mais fácil contrabandeá-los e escapar dos altos impostos.

 

 


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