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Daniel Vorcaro: Um diabo no mundo dos negócios

Posted by Cottidianos on 23:38

Quinta-feira, 17 de setembro


Começo este artigo jornalístico com uma passagem bíblica. Não, não é sermão, é artigo jornalístico, embora não seja comum começar um desta forma. O faço porque esse texto bíblico é uma lição de ética e respeito aos princípios nos quais se acredita. E também por que cabe como uma luva para o presente artigo.

Vamos lá então, fazer uma visita a passagem bíblica que fala da tentação de Jesus no deserto, que pode ser lida nos evangelhos de Mateus e de Lucas, ambos no capítulo 4.

Nos dizem os evangelistas que Jesus havia voltado do Jordão onde fora batizado por João Batista. E, em espírito, foi levado pelo espírito ao deserto. E na bíblia tudo é simbólico, e o deserto, no caso, remete a um período de preparação, aprendizado.

Ali, na solidão do deserto, o Mestre jejuou durante quarenta dias. E o diabo, só de longe, observando. Ao termino desse período, obviamente, Jesus sentiu fome. O diabo deve ter esfregado as mãos, sorrindo cinicamente, afinal, era a vez de ele entrar em ação.

_ Se tú és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pão, disse ele.

_ Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus, respondeu Jesus.

Para a fome o diabo apresentou uma sugestão simples, em forma de desafio. Transformar pedras em pão. Bastaria que o filho de Deus fizesse esse milagre e tudo estaria resolvido. Não obteve êxito. Ainda não era hora de Jesus começar os milagres. Na vida, tudo tem sua hora, seu momento.

O diabo partiu para sua segunda tentativa. Levou Jesus para o alto de um monte, e, de lá, lhe mostrou uma visão deslumbrante na qual podiam se ver todos os reinos do mundo. Glória e poder diante do Mestre. Bastaria que Ele fizesse apenas uma coisa simples.

_ Tudo isso será teu se, de joelhos, me adorares. Disse o príncipe das trevas.

_ Afasta-te de mim, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor Deus adorarás e somente a ele servirás.

Era uma proposta tentadora. Dominar reinos, governar pessoas, tê-las ao seu serviço. Mas novamente, a proposta não atraiu Jesus. O filho de Deus não iria dobrar o joelho diante do inimigo. Decepcionado, o diabo resolveu tentar mais uma vez. Quem sabe oferecendo a fé como espetáculo, fazendo do poder religioso uma ferramenta para dominar a mente das pessoas.

Ele então levou Jesus para o alto de um templo e disse:

_ Se és filho de Deus, lança-te daqui para baixo; por que está escrito: Mandará os seus anjos juntos a ti para te acompanharem, para que não tropeces com teu pé em pedra.

_ Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus, disse, resolutamente, Jesus.

Vencido em todas as suas tentativas de fazer o filho de Deus cair em pecado, o diabo se afastou. Interessante é que, no evangelho de Lucas é acrescentada a expressão “por algum tempo”, ou seja, o diabo não desistiu, apenas deu um tempo.

 

***

 

O diabo esperto como é, e profundo conhecedor das fraquezas, dos desejos, e das necessidades mais íntimas que residem, adormecidas ou não, no coração do homem, sempre dá um jeito de aparecer em algum lugar. Numa dessas suas andanças ele resolveu aparecer no mundo financeiro do Brasil, encarnado na pele de um jovem empresário mineiro.

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Segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Aeroporto de Guarulhos – SP

21 horas


 Daniel Vorcaro se preparava para viajar com destino a Malta, pequeno país independente, localizado no coração do Mediterrâneo, situado entre a Sicília, Itália e o Norte da África. Mais perto daquela que desta.

De Malta, o empresário seguiria para Dubai, nos Emirados Árabes, santuário do luxo, aliás, um lugar que tinha tudo a ver com ele. Apesar disso, o banqueiro demonstrava uma certa ansiedade, como se estivesse com pressa de deixar o país. O objetivo da viagem, segundo ele havia relatado a amigos e funcionários, era assinar o contrato de venda do Banco Master.

O dia fora cansativo. Cheio de coisas importantes para decidir. Logo cedo da manhã ele já estava em contato com o ministro do STF, Alexandre de Moraes. Comunicava ao ministro que queria antecipar a venda do banco ao grupo Fictor. E que essa transação ocorreria com investidores da terra dos sheiks, e que viajaria para lá com esse objetivo.

Às oito horas da manhã uma representante de Vorcaro já estava em frenética atividade tentando vender um apartamento de cobertura no empreendimento Vizcaya, na avenida Horácio Lafer, em São Paulo. Alegava ela que a transação já vinha sendo articulada desde o dia 14 de novembro. Apesar de toda pressão para fechar negócio ela não teve êxito nessa empreitada.

Vorcaro volta novamente a se comunicar com Alexandre de Moraes às 8h16min. Era a segunda vez que entrava em contato com o ministro naquele dia.

Às 11h08min o site O Bastidor, cujo dono é o jornalista e empresário Diego Escoteguy, havia publicado uma matéria dizendo que havia um processo criminal tramitando em sigilo na 10ª Vara Federal de Brasília, processo este que investigava fraudes nas carteiras de créditos vendidas pelo Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). Tudo combinado. Vorcaro havia pago dois milhões de reais para o jornalista publicar a reportagem. E com que objetivo?

Isso proporcionaria aos advogados de defesa do banqueiro entrar com alguma ação a fim de evitar a prisão do banqueiro, caso essa fosse decretada. Na verdade, como Vorcaro tinha acesso a informações sigilosas dentro da PF, os advogados já sabiam que isso iria acontecer.

De fato, ainda naquele dia 17, o advogado Wander pede acesso a investigação citando a tal reportagem como fonte de informação. Passam o dia tentando contato com o juiz que estava à frente do processo.

Às 6h30min da manhã daquele dia Vorcaro já estava em contato também com os servidores do Banco Central, Ailton Aquino chefe do Departamento de Supervisão Bancária, e com Paulo Sérgio, Diretor de Fiscalização e Chefe Adjunto de Supervisão. Além de outros técnicos. A reunião é realizada às 13h35min. Após a reunião começa a circular reportagens sobre a venda do Banco Master ao Fictor.

Às 15h30min o juiz Ricardo Soares Leite decreta a prisão do banqueiro. Dezoito minutos depois, os advogados de defesa dele, que ainda nem haviam sido comunicados oficialmente da decisão, protocolam uma petição na 10ª Vara se posicionando contra medidas cautelares que viessem a ser adotadas contra seu cliente, alegando que isso poderia provocar prejuízos enormes ao Banco Master. De posse de informação privilegiada, agiram como se não soubesse da decretação da prisão.

E o restante da tarde decorreu com o mesmo frenesi com o qual tinha começado o dia, ainda antes do sol nascer. Vorcaro se preparava para a viagem (ou seria fuga?), e o tempo que sobrou foi consumido em arrumar bagagens, providenciar passaporte, e essas coisas relativas a viagens internacionais.

Às 20h48min Vorcaro troca a última mensagem com Alexandre de Moraes, informando a este que estava no aeroporto, pronto para ir aos Emirados Árabes fechar o contrato de venda do Master.

Às 22hs chegou enfim o momento de partir de terras brasileiras, quem sabe, ficar longe por um bom tempo. Mas nem sempre as coisas saem como planejado. Na hora da partida chega a visita indesejada por Vorcaro da Polícia Federal. Em vez de Dubai ele foi levado para uma cela da PF.

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Não há como negar: Daniel e um gênio do mundo das finanças. Porém, a genialidade de uma pessoa tanto pode ser usada tanto para o bem, quanto para o mal. A história da humanidade está repleta de exemplos desse tipo. Infelizmente, Daniel Vorcaro escolheu a segunda opção.

Em pouco tempo, ele construiu um império, colocou as mais altas autoridades do país aos seus pés, e enganou milhões de brasileiros, que confiaram suas economias e cuja matéria de trabalho eram as operações fraudulentas.

Entre as autoridades que colocou a seus pés estão deputados, senadores, governadores, servidores do Banco Central, e até ministros do Supremo Tribunal Federal.

Entre as milhões de pessoas que ele enganou estão pequenos investidores, aposentados, e dinheiro de fundos de pensão de funcionários públicos.

Em relação aos poderosos, ele agia como o diabo tentando um faminto Jesus no deserto.  No caso, Jesus tinha fome de paz e de justiça divina e de justiça social. Os poderosos aos quais Vorcaro tentou, não apenas três, mas várias vezes, tinha fome de poder, de dinheiro, de prazeres sexuais. A uns ele tentava oferecendo contratos milionários, soma vultuosas para financiar produções cinematográficas medíocres, que, na verdade, eram destinadas a outros usos corruptos. A outros ele tentava com pequenos luxos, uma viagem à Disney, caronas em seus jatos particulares, diárias em resorts. A outras ainda oferecia a tentação da bebedeira e do sexo oferecendo uísques caríssimos e festas com prostitutas de luxo.

O diabo do deserto tentou o mestre Jesus tanto quanto pode. Porém em nenhuma delas obteve êxito, pois a conduta do mestre estava pautada por uma sólida base ética e moral. Ele tinha uma missão, um trabalho a cumprir e não poderia fazer isso com a consciência pesada.

Quanto aos poderosos desse nosso Brasil, muitos dos quais se dizem seguidores de Jesus, e gritam a plenos pulmões nas praças, nas igrejas, e em cima dos palanques que o amam, estão, na verdade a anos luz de distância dos preceitos éticos e morais daquele a quem dizem seguir. Inebriados pelo vinho do luxo, do poder, do sexo, e da riqueza, não tem forças para dizer ao tentador: “Afasta-te de mim, Satanás”, pois tenho uma missão a cumprir junto ao meu povo e a minha nação brasileira”.


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Venturas e desventuras do 7 de Setembro

Posted by Cottidianos on 20:51

Campinas, 10 de setembro de 2026


Entre altos e baixos, avanços e retrocessos na economia e na política, e em meio a uma crise institucional gigantesca, que tem como epicentro o STF, chegamos a mais um de 7 de setembro, celebrado há apenas três dias.

Nas regiões Sul, Sudeste, e Centro-Oeste, o feriado chegou e trouxe junto com ele o frio intenso e céu nublado. Nem mesmo o sol se arriscou a mostrar seu brilho. Nenhum raio de sol atravessando as nuvens.

Ironicamente, o clima chuvoso e frio é um retrato em preto e branco da crise institucional pela qual atravessa o Judiciário Maior. Por lá o céu está cinzento, sombrio, clima pesado, e a previsão de tempo por lá anuncia raios e tempestades. Institucionalmente também está difícil os raios de sol da esperança romperem as pesadas nuvens e se derramar pelas cidades e campos da nação brasileira.


Voltemos as comemorações do 7 de setembro. Essa importante data cívica é marcada por eventos de três matizes principais; a cívica, a militar, e a social. Esta última é marcada por um movimento de grande significância chamado “Grito dos Excluídos”.

A sementinha que viria a da origem a esse movimento foi plantada entre 1993 e 1994.  Tempo no qual a Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil promoveu a Segunda Semana Social Brasileira. Participaram desse evento o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, e organizações sociais que trabalha com a promoção da justiça social. A semente plantada ficou em algum lugar no coração e na mente daqueles que participaram dessa semana social.

Em 1995 essa semente desabrochou, floresceu e deu frutos. Desde então essas manifestações ocorrem na Semana da Pátria e tem como ponto alto o feriado de 7 de setembro.

O Grito dos Excluídos é aquela voz profética que grita no alto da montanha e denúncia as inúmeras situações de desigualdade e exclusão pelas quais passam as pessoas menos favorecidas em nosso país. Ao mesmo tempo em que denuncia o movimento também aponta caminhos para uma sociedade mais justa.

Outro momento marcante no 7 de setembro são os desfiles dos militares da três Forças Armadas: Marinha, Exército e Aeronáutica. Perfilados, e orgulhosos eles desfilam altivos pelas ruas do país. Em algumas cidades também é possível ver no céu um show proporcionado pela Esquadrilha da Fumaça, cujas apresentações são de tirar o fôlego. Antes ou depois do desfile dos militares, também acontecem o desfile das escolas municipais. É bonito ver a garotada, concentrada, orgulhosa de fazer parte destes eventos. E eles são firmes; façam chuva, faça sol, frio ou calor lá estão eles desfilando.

E assim era o 7 de setembro: Uma data para celebrar o orgulho de ser brasileiro em evento marcado pela neutralidade partidária. Havia um alinhamento entre os três Poderes da República. O Grito dos Excluídos, apesar de ser um evento marcado por organizações de esquerda não representava, necessariamente, um movimento partidário.

A harmonia reinava nas mentes e corações brasileiros. Os brasileiros iam às ruas no 7 de setembro para ver misturada toda de movimentos cívicos-militares. E tudo era muito bonito. Até que esse cenário foi contaminado com a carga tóxica de Jair Bolsonaro. O ex-presidente e o Bolsonarismo se apropriaram do 7 de setembro e sequestraram os símbolos nacionais como fossem eles fossem coisa exclusivamente deles. Usar a bandeira do Brasil passou a ser sinônimo de ser bolsonarista, “patriota”. Até a camisa da seleção, que tanto orgulho já nos deu, eles se apropriaram. A amarelinha, carinhosamente usada pelos brasileiros nos jogos da Copa do Mundo, torneios sul-americanos, e em amistosos da seleção passou a ser usado pelos bolsonaristas para vestir uma ideologia que tem cor e jeito de fascismo.

Jair Bolsonaro foi eleito em fins de 2018 e, durante os quatro anos que durou o seu mandato, ele mudou a cara do 7 de setembro, incluiu nele mais um matiz, o político-partidária. Transformou as ruas pacíficas em arenas de guerra na qual eram atacados o Congresso Nacional e o STF e integrantes dessas instituições. Até sobrou ataques para as urnas eletrônicas e a defesa do voto impresso.

O primeiro 7 de setembro sob a regência de Bolsonaro aconteceu em 2019. O desfile ocorrido na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, ainda conseguiu passar um ar de normalidade, entretanto ali já começou as quebras de protocolos promovidas pelo presidente e que escalariam nos anos seguintes. Durante o desfile Bolsonaro desceu do carro oficial para caminhar entre a multidão, chegando até mesmo a convidar uma criança dentre o público presente para desfilar no carro oficial.


Em 2020, o mundo era acometido pela terrível peste da Covid 19, não sendo possível realizar os desfiles da forma tradicional, reunindo multidão nas ruas. A solução encontrada foi fazer uma cerimônia simples com hasteamento da bandeira nos jardins do Palácio da Alvorada, e a apresentação da esquadrilha da fumaça. 

Obviamente, Bolsonaro aproveitou a ocasião para criar polêmica ao criticar as políticas de isolamento social determinadas por prefeitos e governadores para conter o vírus. Na entrada da residência oficial haviam se reunido alguns negacionistas apoiadores do presidente, e indo contra as orientações dos profissionais da área de saúde, que recomendavam para aquele momento da história, isolamento social e uso de máscara, Bolsonaro foi até eles e com eles interagiu sem o uso de máscara.

No 7 de setembro de 2022 comemorava-se o Bicentenário da Independência. O país estava às vésperas de mais uma eleição presidenciável. O governo Bolsonaro usou de forma ostensiva a máquina estatal em prol da reeleição. Até o coração de D. Pedro I foi trazido de Portugal, cedido pelo governo português, veio parar no Palácio do Itamaraty. O desfile ocorreu, como de costume, na Praça dos Três Poderes. Porém, a poucos metros do palanque oficial foi posicionado um trio elétrico. Bolsonaro desceu do palanque oficial e, em seguida subiu no trio elétrico, e o que era evento oficial transformou-se em comício eleitoral.  

À tarde daquele mesmo dia, Bolsonaro foi ao Rio de Janeiro e lá, deslocou o desfile que tradicionalmente ocorria na Avenida Presidente Vargas, e o colocou na Orla de Copacabana, ponto de encontro das manifestações bolsonaristas, e mais uma vez, transformou evento oficial em comício.

Por essas e outras infrações cometidas Bolsonaro pagou um preço alto: a inelegibilidade. Em julgamento encerrado na tarde de sexta-feira, 30 de junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por maioria de 5 votos a 2, declarou a inelegibilidade de Bolsonaro.

O que mais pesou nessa decisão foi uma reunião no Palácio da Alvorada feita com a presença de embaixadores estrangeiros, em 18 de julho de 2021. Bolsonaro reuniu os embaixadores para atacar as urnas eletrônicas, e dizer que elas não eram confiáveis. Os ministros do TSE concluíram que houve por parte do então presidente, abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

Outra pena ainda mais dura viria em 11 de setembro de 2025, quando a Primeira Turma do Tribunal Superior Eleitoral, condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por participação na trama golpista. Foi a primeira vez que um ex-presidente foi condenado por golpe de estado.

E agora o filho de Bolsonaro concorre as eleições deste ano. Será que o Brasil cometerá o mesmo erro que em 2022? Será que abraçará o golpismo? Tempos estranhos e sombrios este em que vivemos.


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