0

As relações promiscuas do poder público com o setor privado reveladas – Parte II

Posted by Cottidianos on 00:00
Terça, 18  de abril

Os donos do império criminoso: Emilio Odebrecht e seu filho Marcelo

Assim como no Mito da Caverna, de Platão — a mais importante alegoria do mundo filosófico — a ignorância faz o monge, assim também, no dito popular, o hábito faz o monge.

O Mito da Caverna conta-nos a história de prisioneiros que viviam presos em uma caverna escura, com as costas voltadas para a entrada da caverna, ponto de onde entrava alguma luminosidade. De costas para entrada do ambiente, e de frente para a parede, os prisioneiros, diariamente, viam, projetadas na parede, as sombras do mundo real, e as tomavam por verdade. O ilusório era para eles real. As sombras era para eles a verdade, e eles as achavam belas. Através das cenas projetadas na parede eles davam nomes aos objetos, faziam conjecturas. Coitados, nem sabiam que atrás deles, esplendido, vibrante, com suas benesses e mazelas, alegrias e dores, estava o mundo real.

Assim também, quando entramos em um ambiente escuro, mal iluminado, nossos olhos tem, no inicio, dificuldade em acostumar-se aquela realidade, mas aos poucos nossa visão vai se acostumando a cena, e passamos a achá-la normal.

No caso das delações da Odebrecht, quando vemos o Sr. Emilio Odebrecht, o Sr. Marcelo, filho dele, os delatores, os políticos envolvidos, falando do assunto, vemos que eles falam da prática de crimes de uma forma tão natural que chega até a ser espantoso. Falam do desvio de milhões de reais dos cofres público para alimentar a goela sedenta de políticos desonestos, como se isso fosse, de fato, a realidade. E as práticas de pagamento de propina, de caixa dois, de contratos irregulares, concorrência desleal, não é normal, caros leitores e leitoras. Isso são desvirtuamentos de conduta. É o império do crime. Império que jogou o nosso país em um crise ética e moral sem precedentes, e numa crise econômica idem.

As relações econômicas e empresariais nesse Brasil que nasceu do ventre promiscuo da corrupção, é o que se pode chamar de capitalismo selvagem. Aqui, no Brasil, quando o assunto refere-se a esfera publico-privado, em termos de contrato, pode-se dizer que não vence o melhor. Vence aquele cuja propina comprou. E esse jogo de indicações políticas, apadrinhamento, essa troca de favores é péssimo para a nossa sociedade, e para a nossa economia. Algumas falas do Sr. Emilio Odebrecht nos humilham a nós brasileiros. São um verdadeiro tapa na cara.

Segundo Emilio Odebrecht, esse sistema podre de se fazer política com o Estado é uma coisa que já tem pelos menos uns trinta anos. “... Então, tudo o que está acontecendo era um negócio institucionalizado. Era uma coisa normal. Em função de todo esse número de partidos, onde o que eles brigavam era por quê? Por cargos? Não. Todo mundo sabia que não era. Era por orçamentos outros que eles queriam sabe? Ali colocavam, os partidos então colocavam seus mandatários com a finalidade de arrecadar recursos para o partido e para os políticos.”, disse o patriarca da Odebrecht.

A relação viciada entre setor privado e setor público é podre mesmo quando é legal. Isso fica claro na delação de Marcelo Odebrecht quando ele se refere ao etanol. Em 2007, 2008, no auge do combustível, a Odebrecht acabou investindo alto nesse setor, segundo o delator, o maior investimento nessa área feito pela empresa. Logo após esse megainvestimento, o governo começou a ter problemas tributários, e tirou a CID, aumentou o preço da gasolina. Isso gerou um enorme problema para a Odebrecht.

Em uma reunião com o ministro Guido Mantega, em Brasília, Marcelo, apresenta a ele, o pacote do etanol que sairia no dia seguinte. O empresário não fica nada satisfeito com esse pacote. Marcelo pede então para que Guido Mantega segure o pacote, até que ele, Marcelo, coloque técnicos para analisar a situação e encontrar a solução de um pacote mais razoável.

Os empreiteiros precisavam que voltasse a Cide (imposto dos combustíveis) na gasolina, porque essa contribuição cria um diferencial para o etanol. Pra controlar o preço da gasolina, o governo tinha tirado essa contribuição.

O governo sabia que Marcelo Odebrecht era um grande doador, então, apressou-se em solucionar o problema, não porque isso fosse bom para os negócios, mas porque o empresário era um grande doador, o maior deles, e se o governo não solucionasse o problema, então teria problemas mais á frente na época das eleições. Em qualquer governo, é normal que o setor privado dialogue com o setor público, e com ele encontre soluções para os problemas. Mas nesse caso, percebem como a relação que se estabeleceu no Brasil entre empresas e governo é viciosa? E como isso afeta os princípios republicanos?

A relação entre os políticos e os empresários sempre foi uma relação baseada no toma lá dá cá. “Eu não conheço nenhum político no Brasil que tenha conseguido fazer qualquer eleição sem caixa 2. O caixa 2 era três quartos o que eu estimo. Não existe no Brasil, ninguém eleito sem caixa 2”, diz Marcelo, mostrando que o caixa 2 não era exceção, mas sim a regra entre a politicagem brasileira. Como já foi dito, os políticos caiam em cima da Odebrecht como urubus em cima de carniça.

Desse modo, coisa pública se tornava uma via de duas mãos, um modo de pagar aqueles que haviam contribuído com suas campanhas. Eleitos os políticos, esses apresentavam leis e projetos no Congresso, não que agissem em benefício da sociedade, mas que beneficiassem a si mesmos, ou aos empresários. Até mesmo obras inviáveis eram realizadas para atender os interesses das empresas. É por isso que vemos tantas obras que ligam nada a lugar nenhum pelo Brasil afora. Com as delações da Odebrecht tudo vai ficando muito claro, e aquilo que estava entre nevoas vai sendo revelado. E é estarrecedor.

É humilhante ver Emilio Odebrecht dizer que a corrupção em nosso país é tão vultosa que seus funcionários não tinham a noção do que era uma concorrência honesta, justa, e leal, e, para que tivessem noção disso, eram enviados ao exterior para que eles vissem o que é de fato, era uma concorrência de verdade. “Todos companheiros dessa organização já passaram pelo exterior pra eles terem uma visão de mundo, convivessem com concorrência, efetiva, real, disputar, baseada em produtividade”, disse Emilio.

Se observarmos atentamente as delações premiadas da Odebrecht, vemos que a empreiteira funcionava muito mais como uma quadrilha, do que, propriamente como uma empresa. A moeda de troca, em qualquer situação, era sempre a propina. Até mesmo o os índios e a CUT receberam sua parte na propina.

O setor de Minas e Energia, especialmente, as obras da usina hidrelétrica do Rio Madeira, tiveram maior empenho da Odebrecht. Henrique Serrano, afirmou em depoimento que pagava R$ 5 mil por mês para o chefe de uma tribo indígena, e mais R$ 2 mil para outro cacique da empresa, e mais R$ 2 mil para a Associação dos Povos Karitarianos, e ainda R$ 1.500 para pequenas associações indígenas. Policiais da região também recebiam propina, segundo Henrique. A propina recebida pelos policiais era pela proteção aos canteiros de obras, principalmente, quando havia ameaça de invasões, ou em momentos críticos.

Ainda segundo Henrique, a Central Única dos Trabalhadores cobrava da empreiteira uma espécie de pedágio, para que eles não apoiassem greves. “O pessoal da CUT costumava cobrar, de fato, pedágios mensais pra eles não apoiarem greves, atos de violência, esse tipo de coisa, era preciso pagar a CUT”, disse Henrique.

Não só a CUT era cortejada pela Odebrecht, mas também outras centrais sindicais. Segundo os delatores, a empreiteira teria repassado R$ 1.200 mil ao deputado Paulo Pereira da Silva, mais conhecido como Paulinho da Força Sindical.

A questão da ilegalidade disfarçada de legalidade era tão normal entre a organização criminosa, que o promotor, coordenador da Lava Jato em Brasília, Sérgio Bruno, irritou-se, durante o depoimento de Emilio Odebrecht, e o repreendeu. É que Emilio não estava dando “nomes aos bois”, a propina, o pagamento de caixa dois, eram referidos por ele, com grande naturalidade, como “ajuda”, “pedido”, ignorando complemente que isso é crime.

De tanto ouvir durante o depoimento, as palavras citadas, em certo momento, o investigador se irritou, e disse a Emílio: “Essa ajuda se chama propina, só pro senhor saber.”

E durante muito tempo, segundo o patriarca do grupo  — , dentro do contexto, merece muito mais o nome de organização criminosa do que de empresa — as aves de rapina foram roubando nossas riquezas, nossos sonhos, minando nosso poder econômico, deteriorando nossas escolas, afundando nossa educação a níveis ridículos, precarizando nossos hospitais.

Será que os ferrenhos defensores do PT, que saiam às ruas dispostos a defender o ex-presidente Lula com unhas e dentes, terão a mesma coragem de fazer isso, após todas essas revelações? Antes eles se escondiam atrás do argumento de que era a oposição, as “elites” que jogavam pedra neles e os queriam difamar. Agora, não. As palavras vieram fortes do patriarca da Odebrecht, Emilio Odebrecht, e de seu pequeno príncipe, Marcelo. Agora é diferente. Agora são os relatos dos chefes, dos poderosos, daqueles que estão no topo da pirâmide econômica, e na base da pirâmide moral que estão falando.

O mesmo vale para os defensores dos grandes partidos como PMDB e PSDB, por exemplo, que gritavam exaltados nas ruas, “fora Lula”, “fora Dilma” fora PT”, será que eles terão a mesma coragem de sair ás ruas e gritar essas palavras de ordem sabendo que seus líderes charfudaram na mesma lama em que o PT chafurdou? Que eles beberam na mesma fonte corrupta que o PT bebeu?

Aí estão as tão esperadas delações do fim do mundo. Elas não dão — dizendo ironicamente — uma verdadeira aula de corrupção, e de como agir com retrocesso. Nelas, nossos políticos nos dão uma verdadeira aula de como dar as costas para o povo que o elegeu, a abraçar os interesses dos grandes empresários, e os deles próprios.

A organização criminosa Odebrecht loteou o Brasil. Comprou tudo e todos: policiais, índios, políticos, empresários, medidas provisórias, e quem mais ousasse atrapalhar seus planos, bem como também “recompensou” muito bem aos políticos que se dispuseram a ajudá-la.

A Lava Jato, demorou, mas chegou. Mas a Lava Jato é apenas uma operação policial, investigativa. Ela passará. E depois? O que faremos com as revelações que ela nos trouxe? O que faremos com as lições que aprendemos dela? O que faremos em relação aos traidores que ela nos revelou?

Bateremos palmas para eles e os aclamaremos, ou também lhe daremos ás costas, assim como também eles nos deram as costas. Mais do que nunca, é hora de passar o Brasil a limpo.

0

As relações promiscuas do poder público com o setor privado reveladas – Parte I

Posted by Cottidianos on 11:28
Domingo, 16 de abril


É domingo de Páscoa! Dia em que, segundo o livro sagrado dos cristãos, Cristo venceu a morte, e ressurgiu glorioso da tumba onde o haviam colocado. Por tudo isso, Páscoa significa vida nova.

Mas, lembremos que a vida nova, a vitória do Cristo sobre a morte, veio depois de muita luta, muitos sofrimentos, incompreensões, e traições.

Nós brasileiros estamos vivendo um momento muito delicado, tanto no campo econômico, quanto no campo político, e, principalmente, no campo moral. Como o mestre Jesus, experimentamos a traição quando votamos em políticos desonestos, e que nada mais querem que satisfazer sua sede de poder, luxo, e vaidade, sem se importar com a coisa pública.

Também como o Cristo carregamos a nossa cruz quando pesa a cruz da inflação. Sentimos as espadas perfurando nosso peito, quando vemos a situação em que se encontram nossas escolas, universidades, e hospitais públicos.

Não se enganem caros leitores, e leitoras, nesse meio político não existem os bons ladrões como Barrabás. Ao contrário, as empresas agem como organizações criminosas, e os políticos inescrupulosos como saqueadores.

Porém, ainda resta esperança de uma tomada de consciência da sociedade brasileira, e de parcela da sociedade que elegeu esses que aí estão, nos representando sem nos representar. E não esqueçamos que apenas com leis mais justas e com uma vigilância mais atenta da sociedade brasileira, e mais cuidado na hora de votar, é que poderemos ver o Brasil ressurgir glorioso da tumba em que o colocaram.

FELIZ PÁSCOA, a todos!

E vamos a postagem de hoje.

***



A imprensa brasileira classificou as delações da Odebrecht como as delações do “fim do mundo”... E para nossa tristeza essas tais delações são mesmo as delações do fim do mundo. Humilham a nós, brasileiros, e brasileiras, porque apresentam um Brasil terra de ninguém, onde predominam os políticos corruptos e sem o menor escrúpulo. Sabia-se que eles não estavam nem aí para o cumprimento dos objetivos e dois ideais para os quais foram eleitos, e para o povo pelo qual e para o qual deveriam trabalhar. Mas apesar de pensar que estávamos preparados para ouvir o que os delatores tinham a dizer, descobrimos que não estávamos, pois o descaso para com o Brasil, e para com os brasileiros é coisa estarrecedora. É o que mostram os vídeos dos depoimentos dos delatores que começaram a ser revelados semana passada. 

Os políticos avançavam em cima dos donos e diretores da Odebrecht como urubus avançam em cima de carniça, e o cheiro de podre começa a ser exalado para o Brasil, fazendo com que se perca o restinho de respeito que tínhamos para com a classe política. Nós não os respeitamos simplesmente porque eles não se deram ao respeito.

Mas, apesar dos pesares, depende do legislativo, reconstruir um pouco da moralidade que a classe política deixou escorrer pelo ralo.

A arrasadora dinamite atinge em cheio as principais lideranças de nosso país, e os principais partidos. Segundo os delatores, Lula, por exemplo, recebeu vantagens da empreiteira por anos a fio. As benesses não eram apenas para o partido, mas para ele mesmo, e para seus familiares. O irmão de Lula, o Frei Chico, recebeu mesada da empreiteira por cerca de treze anos seguidos. Isso sem contar a “ajuda” dada ao filho do ex-presidente, Luiz Cláudio, a reforma no sítio de Atibaia, a reforma do apartamento no Guarujá, a “mãozinha” para a construção do estádio do Coríntias, e sabe-se mais que vantagens o ex-presidente deve ter levado em cima da Odebrecht.

Mesmo após a saída de Lula da presidência, ele continuou sendo ajudado pela empreiteira como forma de recompensa pelas vantagens em contratos ilícitos com o governo que a empreiteira havia obtido.

Não só Lula, mas a ex-presidente Dilma Rousseff também é citada pelos delatores. R$ 24 milhões teriam abastecido a campanha dela em 2014, via caixa dois. Marcelo Odebrecht diz que, tanto Lula, quanto Dilma, tinham conhecimento da dimensão que a Odebrecht dava a eles e ao partido, ao longo dos anos. Marcelo, diz que, em 2015, já com a Operação Lava Jato a todo vapor, mostrou para a ex-presidente a quantidade de dinheiro que teria irrigado a campanha dela.

Nem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escapou da metralhadora de Emilio Odebrecht. Ele disse que foram feitos repasses de dinheiro via caixa dois para a campanha do ex-presidente em 1993, e em 1997. José Serra, Aécio Neves, também foram citados. Aécio Neves será alvo de cinco inquéritos. Esses inquéritos visam apurar se ele favoreceu a empreiteira em diversas situações, inclusive, se houve fraude na construção da cidade administrativa, sede do governo de Minas. Corrupção, lavagem de dinheiro, formação de cartel, e fraude à licitações são os motivos pelos quais o senador vai ser investigado.

Geraldo Alckmin também teria recebido repasse de dinheiro para duas campanhas eleitorais. Ele teria recebido R$ 2 milhões, em 2010, e R$ 8 milhões em 2014.

Em relação a José Serra, os pagamentos teriam relação com irregularidades na obra do trecho Sul do rodoanel, que liga as principais rodovias que passam pela capital paulista. O resultado das licitações teria sido combinado pelas empreiteiras em troca de R$ 1milhão e 200 mil para campanhas eleitorais.

Em outro vídeo, o ex-delator da Odebrecht, Henrique Valadares, deixa ainda mais claro a relação promiscua entre empresas privadas e públicas. Falando de Furnas, ele fala da influencia de grupos do PMBD e do PT na aera de energia. Dois diretores da estatal foram indicados por políticos desses partidos. Havia interesse da empreiteira de que esses dois diretores continuassem nos cargos. Para esse objetivo foi criado um fundo de um montante de até R$ 20 milhões, apenas para que esses diretores se mantivessem no cargo. Os dois diretores poderiam tratar com Valadares, se a necessidade exigisse, até esse limite imposto por ele, que, diga-se de passagem, não é pouca coisa.

O ex-executivo da Odebrecht, Rogério Araújo, cita em sua delação um caso envolvendo o ex-gerente da Petrobrás, Pedro Barusco. Quando percebeu que a PF poderia bater à porta dele com mandados de busca e apreensão, pediu a Araujo que guardasse consigo 24 garrafas de vinho. Detalhe, cada garrafa custava cerca de 10 mil dolares. Depois que já havia feito a delação, e tudo já estava encaminhado, a esposa dele, apareceu na portaria da residência de Araújo, dizendo que gostaria de reaver as garrafas de vinho.

A influencia maléfica da Odebrecht influenciava até áreas impensáveis para uma empreiteira influenciar, nos debates eleitorais de candidatos à presidência, por exemplo. Fernando Reis, em sua delação, contou que, nas eleições presidenciais de 2014, a Odebrecht acreditava no Pastor Everaldo, candidato por um pequeno partido, o PSC, e resolveu investir nele. Foi Eduardo Cunha que apresentou os dois. A empreiteira fez um primeiro pagamento ao Pastor Everaldo de R$ 1 milhão. Com esse dinheiro o candidato a presidente começou a se estruturar, fazer a campanha dele. No início de 2014, o Pastor Everaldo começou a aparecer nas pesquisas, ainda que com um percentual muito baixo. Vendo esses bons resultados, o candidato começou a pedir mais dinheiro para a Odebrecht. A empresa fez uma segunda contribuição para ele, em mais R$ 1 milhão.  Ao final, da campanha haviam sido pagos R$ 6 milhões para o candidato do PSC.

Naquele ano, a trágica morte do candidato Eduardo Campos mudou o rumo das eleições. Marina Silva, vice de Eduardo na chapa, passou a concorrer como candidata a presidente. Isso fez com que os eleitores do evangélico pastor Everaldo, migrassem para a campanha de Marina Silva, também evangélica. Com isso, o Pastor Everaldo começou a sumir nas pesquisas.

A Odebrecht viu então que o investimento no Pastor Everaldo havia sido muito alto para pouco retorno. Tarde demais, perceberam que ele não era o candidato certo. Como o dinheiro já estava pago, o único jeito encontrado foi de que o Pastor Everaldo ajudasse a empresa, ajudando o candidato do PSDB, Aécio Neves. Pastor Everaldo ajudaria Aécio em debates televisivos, e com isso sobraria mais tempo de TV para o candidato do PSDB.


O plano traçado era o de que o candidato usasse o tempo do debate sempre para fazer perguntas para Aécio Neves, pois assim o PSDB ficaria com mais tempo nos debates. As perguntas não precisavam ser complexas, mas, podiam ser quase infantis para um debate de candidatos à presidência. No debate exibido pela TV Globo em 02 de outubro, um dos temas sorteados para perguntas foi sobre a Previdência Social. E a pergunta feita pelo Pastor Everaldo a Aécio Neves foi: “Senador, o que o Sr. tem a dizer sobre a Previdência no Brasil?” Pastor Everaldo riu ao fazer a pergunta, talvez se lembrando de que era tudo apenas mais um ato no teatro que estava encenando. 

0

... E a tsunami chegou... E abalou o Brasil.

Posted by Cottidianos on 00:09
Sexta-feira, 14 de abril


Hoje, quinta-feira santa, dia em que o mundo cristão imerge nas lembranças de um Jesus Cristo que muito sofreu nas mãos dos poderosos de seu tempo, uma reflexão sobre o papel do servir vem muito a propósito.

Às vésperas de sofrer o pior dos martírios aplicados aos criminosos de seu tempo, a cruz, Cristo, que não era nenhum bandido, muito pelo contrário, era um servo da verdade da verdade, da justiça, da ética, e do bem comum, Ele, em sua condição divina, tinha um conhecimento pleno da natureza humana. Sabia das mazelas e potencialidades do coração humano. Tinha liderança entre o grupo de seus doze discípulos, que por sua vez, formavam seus subgrupos, por onde passavam, grupos sobre os quais Jesus também tinha forte liderança.

Mesmo em sua condição de líder entre os seus, Cristo, às vésperas de seu martírio, deu uma grande lição do que seja exercer poder e liderança em qualquer tempo: ele pegou de uma bacia com água e, humildemente, lavou os pés dos seus discípulos, mostrando que liderar é servir.

Aplicando esta lição sobre o campo da política, o que seria exatamente o sentido de exercer a arte da política? Para que os políticos são colocados em seus cargos, em suas funções? Para servir é a resposta mais adequada. Se assim é, algo está muito errado em nossa terra brasilis. Os políticos daqui leram a cartilha errada dos fundamentos democráticos. Eles não querem servir a nação, ao contrário, querem que a nação os sirva. Querem ter o povo que os elegeu, não ao seu lado, mas aos seus pés, servindo.

Ah, quem dera que os nossos políticos, aprendessem a lição do mestre de Nazaré, da Galileia.

Este blog, em coro com toda a imprensa brasileira, falou, e muito, das delações premiadas dos executivos da Odebrecht. E o tsunami chegou... E chegou com toda a força. É tanta revelação que vem aos borbotões, que a gente fica até sem saber por onde começar. Atordoados. Estupefatos. Indignados. É a palavra para definir o que o brasileiro sente diante de tanta sujeira e podridão que vem à tona no momento em que o Brasil está mais fragilizado.

Agora entendemos todo o esforço que a nossa elite política fazia, e ainda faz, no sentido de deter a força da Operação Lava Jato. Agora é perfeitamente compreensível as leis tão clamantes a eles para calar a boca dos juízes e procuradores. Eles apenas queriam deixar para sempre debaixo do tapete o deboche e o descaso que sempre tiveram para com a população brasileira.

No momento, em que atravessemos a nossa pior crise de democracia representativa, a tão esperada lista de Janot é divulgada, e o segredo de justiça quebrado. Marcelo Odebrecht, e seu séquito de ex-diretores da empreiteira que comandava resolveram falar. Na verdade, eles já falado há alguns meses, apenas não tínhamos conhecimento do conteúdo dessas tenebrosas confissões, agora reveladas.

Essa semana, Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, resolveu abrir a caixa de Pandora, e revelar os 83 inquéritos no qual estão envolvidos a nata da política brasileira. Nessa lama chafurdam deputados, senadores, governadores, presidente, e ex-presidentes.

As delações premiadas tão desprezadas por aqueles dos quais tratam trouxeram revelações que deixaram os brasileiros de cabelos em pé. Além delas, foram entregues à Justiça pelos delatores, uma série de documentos, dentre eles, números de contas bancarias, planilhas de cálculos e nomes, registros dos encontros, e-mails, além de outros documentos.

A conversa que se ouve de todos os políticos envolvidos no esquema é sempre as mesmas: “enho conduta ilibada”, “agi sempre dentro da lei”, “as doações das minhas campanhas foram todas legais”. Claro, sem deixar de lado o discurso do presidente Lula que parece não se renovar nunca: o de que é o homem mais honesto do Brasil.

Comecemos pelo nosso ex-presidente, citado por oito dos executivos e ex-executivos da Odebrecht. Depois de tanta polêmica sobre o sítio de Atibaia, que Lula insistia em dizer que não era dele, que não tinha envolvimento no caso, Emilio Odebrecht, dono da empreiteira, disse que a reforma do sítio em Atibaia foi um pedido pessoal de Marisa Letícia, esposa de Lula. Era final do mandato, e ela queria fazer uma surpresa para o marido, e para isso, pediu a ajuda de Emilio. O empresário disse que, no penúltimo dia do mandato de Lula, esteve com ele no Palácio do Planalto, e fez o seguinte comentário: “Olhe, chefe, você vai ter uma surpresa. Nós vamos garantir o prazo que nós tínhamos dado naquele programa lá do sítio”. Emilio diz que Lula não fez nenhum comentário, nem esboçou surpresa, dando a entender que já sabia do que se tratava e que, portanto, não havia nenhuma surpresa.

Em relação às palestras milionárias que Lula cobrava através do Instituto Lula, também foi revelado o segredo.

O delator Alexandrino de Alencar disse que as palestras foram um modo de recompensar Lula pelo que havia feito pela empresa durante tantos anos — no período de governo de Lula, a Odebrecht teve um crescimento fenomenal. Com o negócio da palestra, os executivos da Odebrecht viram uma nova porta de oportunidades no mundo dos negócios. Fazendo palestras em outros países, e em contatos com os presidentes e demais autoridades dos mesmos, Lula sedimentava a imagem da empreiteira a comunidade internacional, tornando o negócio das palestras atraentes para a Odebrecht.
Lula também intercedeu junto a Odebrecht por seus familiares. Foi a empreiteira que Lula pediu para que abrissem o caminho para a carreira empresarial do filho, Luiz Cláudio. A Odebrecht daria apoio a Luiz Claudio no projeto da criação de uma liga de futebol americano no Brasil, e em troca disso, Lula ajudaria a melhorar a relação difícil que Marcelo Odebrecht tinha para com Dilma Rousseff.

Emilio Odebrecht disse em sua delação que era o próprio Lula que fazia, pessoalmente, os pedidos de doações para o Partido dos Trabalhadores. Depois de acertadas as tratativas, um representante de cada lado se encarregava de negociar os valores. A sede de propina por parte de Lula e dos petista devia estar bem grande e, de certa forma, incomodando o dono da Odebrecht, pois em um momento ele chegou a falar para Lula que o pessoal dele estava com a goela muito aberta, que já estavam passando de Jacaré a crocodilo. Em outras palavras, “estavam indo com muita sede ao pote”.

Não apenas para ao filho Lula pediu ajuda, mas também para o irmão dele, o Frei Chico, como é conhecido. A empreiteira pagava uma mesada para o irmão do ex-presidente. Os pagamentos eram efetuados em dinheiro, e, segundo eles, Lula tinha conhecimento disso.

Onde achava conveniente pedir “ajuda” financeira para a Odebrecht Lula, não se intimidava. Até para o time do coração, o Coríntias, Lula pediu ajuda para a construção de um estádio privado. Na época, o custo da obra era de R$ 300 a R$ 400 milhões. O estádio do Coríntias foi construído.

O senador Aécio Neves também esteve na fila da propina, pedindo dinheiro via caixa dois para ele próprio, e para seus aliados políticos. E esse dinheiro não era pouco. Marcelo Odebrecht revelou que, para o senador, foram repassados R$ 50 milhões. Um dos inquérito no qual Aécio está envolvido apura se ele recebeu propina em troca de apoio para a construção das usinas hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia.

Nem o presidente escapa desse rolo. Um dos delatores, Marcio Faria, ex-vice-presidente da Odebrecht, disse que, em 2010, houve uma reunião, no escritório do então candidato a vice-presidente, Michel Temer. Nessa reunião, foi acertado um pagamento ao partido que ultrapassava os R$ 120 milhões de reais. Segundo o delator, além de Michel Temer, estavam nessa reunião os ex-deputados Henrique Eduardo Alves, e Eduardo Cunha, ambos do PMBD. Além do dinheiro também foi pedido pelo grupo 5% de um contrato de US$ 800 milhões. Um percentual de valor bastante alto se considerado o todo do contrato.

Enfim, as tão esperadas delações vieram e não sobrou pedra no mundo político brasileiro. Quase todas as principais lideranças políticas do Brasil estão implicadas, enroladas no esquema vicioso que levou o país ao caos econômico e político.

Isso nos joga em um vazio de lideranças que é perigoso para nossa democracia. Ano que vem temos eleições para escolher candidatos aos cargos de presidente, governadores, senadores, e deputados federais e estaduais. Em quem votar? A verdade é que os brasileiros estão em um mato sem cachorro. Simplesmente não temos opções. Se havia ainda alguma esperança ela se foi com as dinamites detonadas pelos executivos e ex-executivos da Odebrecht.

E eles ainda tem a coragem de aparecer na TV e se apresentarem como solução para o Brasil. Acreditam nisso? Vamos ver como vai se comportar o eleitor brasileiro nas próximas eleições. O bom seria que renovássemos por completo o nosso quadro político, e que nenhum desses nomes tradicionais de nossa política fossem reeleitos. Se não fosse solução, pelo menos seria uma experiência. E quem disse que em democracia não há experimentos?

0

Sepulcros caiados – Parte II

Posted by Cottidianos on 00:36
Terça-feira, 11 de abril


 A primeira parte desta postagem foi aberta com uma passagem bíblica na qual Jesus advertia os mestres da Lei e fariseus hipócritas. Não será diferente nesta segunda parte, que apesar de citar uma exortação diferente, deságua no mesmo mar de hipocrisia tão condenável pelo mestre.

A passagem a qual me refiro, está no capítulo 7 do evangelho de Mateus, que fecha o Sermão da Montanha. Diz o mestre:

“Porque você fica olhando o cisco no olho do seu irmão, e não presta atenção à trave que está no seu próprio olho? Ou como você se atreve a dizer ao seu irmão: deixe-me tirar o cisco do seu olho, quando você mesmo tem uma trave no seu? Hipócrita, tira primeiro a trave do seu próprio olho, e então você enxergará bem para tirar o cisco do olho do seu irmão”.

Ainda falando de hipocrisia, o mestre Jesus poderia dirigir essas palavras a muita gente do mundo político, porém, na postagem em questão, especialmente aos tucanos.

Por quê?

Voltemos ao final do mês de outubro de 2014. Os petistas, comemoravam vitoriosos, a vitória da chapa formada por Dilma Rousseff e Michel Temer. Foram 54.501.118 votos dados à chapa formada pelo PT/PMDB. 51,64% do total dos votos válidos. Do outro lado, tristes e inconformados, os tucanos: a chapa formada por Aécio Neves e Aloysio Nunes, ambos do PSDB, conseguiram 51.041.155 votos, o que representa o total de 48, 36% dos votos válidos.

Tão logo divulgado o resultado do pleito, o PSDB, inconformado, no dia 30 de outubro daquele ano, entrou com um pedido de auditoria, junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a fim que fosse apurada a lisura da eleição presidencial.   

A solicitação foi apresentada pelo deputado federal, Carlos Sampaio (PSDB-SP), coordenador jurídico da campanha de Aécio Neves. No pedido, o partido exigia que fosse criada uma comissão formada por representantes do tribunal e de partidos, a fim de que fosse verificado o sistema de apuração e contagem de votos.

O pedido carecia de fragilidade de argumentos, pois, para questionar a confiabilidade e infalibilidade da apuração, o texto protocolado aludia aos questionamentos populares feitos através das redes sociais. Em outras palavras, o PSDB suspeitava de que pudesse ter havido fraude na apuração.

No dia 04 de novembro, o TSE negou o pedido do PSDB para que fosse formada uma comissão com a finalidade de realizar uma auditória no sistema de votação. Apesar de indeferir o pedido, a suprema corte eleitoral não se negou a fornecer arquivos e programas que permitissem a verificação de dados questionados pelo partido.

Um ano depois, em novembro de 2015, o Tribunal Superior Eleitoral — em informava através do ministro Dias Toffoli — que o PSDB, concluía não haver encontrado indícios de fraude na apuração do resultado da campanha presidencial de 2014. Se o objetivo do partido era investigar a confiabilidade das urnas eletrônicas, esta foi confirmada.

Ainda inconformado com o resultado da eleição, e não contente com a apresentação desse pedido de verificação de lisura da eleição, no dia 18 de dezembro de 2014 — dia em que Dilma era diplomada pela Justiça Eleitoral, cumprindo dessa forma, um requisito fundamental antes de assumir o mandado, em 1o de janeiro de 2015 — o PSDB, apresentava ao TSE um pedido protocolado com a finalidade de cassar o registro da candidatura da presidente Dilma Rousseff, e de seu vice, Michel Temer.

Em 54 páginas, o advogado do PSDB no processo, o ex-ministro do TSE, Eduardo Alckmin, citava casos de uso da máquina pública nas eleições, e abuso de poder econômico por parte da chapa vencedora. Além de argumentar que dinheiro desviado da Petrobras havia irrigado a campanha da petista. Além disso, citava a convocação de rádios e pronunciamentos feita pela presidente, uso de prédios públicos durante a campanha, dentre outras questões. A essa ação, protocolada em dezembro de 2014, deu-se o nome de Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije).

Ainda dominado pelo inconformismo, no dia 02 de janeiro, um dia após a festa de posse da presidente Dilma Rousseff, e de seu vice, Michel Temer, o PSDB protocolou outra ação, desta vez, uma Ação de Impugnação de Mandato Eleitoral (Aime). O objetivo dessa ação era cassar o mandato dos dois eleitos, sempre com acusação de abuso de poder econômico e político nas eleições de 2014.

Em ambas as ações, o objetivo do partido era um só: tirar Dilma Rousseff e Michel Temer do caminho, para que assumisse a presidência, Aécio Neves, e seu vice, Aloysio Nunes.

Em fevereiro de 2015, a ministra do TSE, em decisão monocrática, Thereza de Assis Moura, negou o pedido protocolado pelo PSDB, feito no final do ano anterior para cassar o mandato de Dilma e Temer. O despacho da ministra foi dado no dia 04 daquele mês, e publicado no Diário Oficial no dia 18. Nele, a ministra argumentou que as denúncias de abuso de poder econômico foram apresentados pelo PSDB de forma genérica, sem apresentar provas concretas que pudesse justificar o andamento da ação. Diante da negação do pedido, o advogado do partido, Eduardo Alckmin, entrou com recurso contra a decisão da juíza. A outra ação, a Ação de Impugnação de Mandato Eleitoral (Aime), seguiu seu caminho com a audição de testemunhas e coleta de provas.

Em junho de 2015, o ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, esteve no Tribunal de Justiça do Rio, para ser ouvido na ação movida pelo PSDB, e que transitava no Tribunal Superior Eleitoral. Costa afirmou o que já havia dito anteriormente à Justiça: que houve repasse de verba do PP para a campanha de Dilma Rousseff em 2010. Segundo ele, havia sido feito um pedido de R$ 2 milhões para a campanha da presidente Dilma.  O ex-diretor disse ainda que o esquema de corrupção na estatal petroleira foi mantido com o consentimento dos partidos, e com a finalidade de atender aos interesses dos mesmos.

Em julho foi a vez do doleiro Alberto Yousseff ser ouvido pela justiça eleitoral. Ele disse que, no início de 2014, foi procurado por um emissário de Dilma Rousseff, que lhe pediu para trazer para o Brasil, dinheiro depositado no exterior. Felipe — o qual Yousseff disse não lembrar o sobrenome — havia pedido que o doleiro trouxesse de volta ao Brasil, a quantia entre R$ 5 e R$ 20 milhões. Segundo o próprio Yousseff as negociações não prosseguiram por causa da prisão dele em março de 2014.

A produção de provas e oitiva de testemunhas continuou, e, em agosto de 2015, o Tribunal Superior Eleitoral, através de seu presidente, Gilmar Mendes, enviou a Procuradoria Geral da República e à Polícia Federal, informações sobre a prestação de contas da campanha eleitoral de 2014, referentes a candidata Dilma Rousseff, e de seu vice, Michel Temer, a fim de que fossem investigadas eventuais irregularidades. Segundo o ministro relatou na época, havia indícios de falsidade ideológica e crimes de lavagem de dinheiro que justificavam a abertura da ação penal. Dinheiro desviado da Petrobrás havia abastecido a campanha do PT em forma de doação à campanha, e ao próprio partido.

Gilmar Mendes também enviou na ocasião, dados referentes a prestação de contas para que a Corregedoria Eleitoral do TSE avaliasse se houve irregularidades nas informações apresentadas pelo PT ao tribunal. Analises das informações foram pedidas à Receita Federal, e ao setor de prestação de contas do tribunal.

Ao pedido de Gilmar Mendes, Janot respondeu com um não, e determinou o arquivamento do pedido de Gilmar Mendes. O Procurador Geral da República entendeu naquela época que não havia indícios de irregularidades na contratação de gráficas pela organização da campanha da presidente Dilma.

Na ocasião, em seus argumentos Janot disse que o Ministério Público Eleitoral e a Justiça Eleitoral haviam agido com protagonismo exagerado no exercício da democracia, para o qual a Constituição havia trazido como atores os vencedores do pleito, e os eleitores. Era uma forma educada de dizer: “Fiquem quietos e conformem-se com a derrota".

O ano correu, e, no dia 06 de outubro de 2015, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), decidiu reabrir a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), protocolado pelo PSDB em meados de dezembro de 2014. Cinco votos ministeriais contra dois reverteram a decisão da ministra Maria Thereza que havia determinado o arquivamento da ação, decisão da qual o PSDB recorrera. A essa altura já eram quatro as ações protocoladas pelo PSDB e que pediam a anulação do pleito de 2014, e a cassação dos vencedores dele. Os ministros do TSE decidiram reabrir a ação, mas não decidiram na ocasião se juntavam as quatro ações em uma só.

Enquanto todo esse rio de incertezas políticas corria, as defesas tanto de Dilma Rousseff quanto de Michel Temer batiam sempre na mesma tecla: a de que os abundantes recursos financeiros que inundaram a campanha deles vieram todas dos rios de águas claras e límpidas, ou seja, que os recursos tinham vindo todos de doações lícitas. Pareciam papagaios que costumam repetir sempre a mesma coisa. Para eles, o que movia o PSDB a pedir a cassação da chapa era o mero e puro inconformismo. Esses também foram os argumentos da peça protocolada junto ao TSE pela defesa de Dilma, em 18 de outubro de 2016.

Unifica ou não as quatro ações protocoladas pelos pesdebistas era a dúvida dos ministros do tribunal. Enfim, no dia 17 de março de 2016, o então presidente do Supremo Tribunal Eleitoral, resolveu unificar as quatro ações que tramitavam na Corte eleitoral, e que visavam a cassação do mandato de Dilma Rousseff, e de seu vice, Michel Temer, e objetivam em seu cerne a diplomação de Aécio Neves e deu seu vice na campanha. Em sua decisão, o presidente do tribunal argumentou que isso daria mais celeridade ao andamento do caso.

Temer temia — desculpem a rima, mas ela foi inevitável — que a cassação de fato ocorresse, e seus advogados entraram então com um pedido , no dia 17 de março de 2016, para que a defesa do vice fosse feita em separado do da presidente Dilma. Aquela época o processo de impeachment caminhava a todo vapor e se tornava quase irreversível. Só um milagre salvaria a presidente, e esse milagre tão esperado não veio. Temer que não é bobo nem nada, já vislumbrou a possibilidade de pular fora do barco no qual ele navegou a braçadas largas. Era o tal do “salve-se que puder”.

Dias antes — mais precisamente no dia 11 daquele mês — do protocolo desse pedido feito pelos advogados de Temer junto ao TSE, havia sido tornado público um áudio do vice-presidente no qual ele falava como se a Câmara dos deputados já houvesse aprovado o impeachment da presidente — A Câmara dos Deputados só autorizaria a abertura do processo de impeachment em 17 de abril daquele ano.

Enquanto prosseguiam por parte do TSE os pedidos de perícias, depoimentos e provas para embasar as ações. O ministro Gilmar Mendes substituiu Dias Tóffoli na presidência do TSE, na noite de quinta-feira, 12 de maio. Na ocasião ele falou que o Brasil apático havia ficado para trás. Ao lado de Gilmar Mendes todo feliz e pomposo estava Michel Temer, agora presidente interino do Brasil — o motivo era que naquele mesmo dia, o Senado abria o processo de impeachment,e Dilma era afastada por 180 dias. 55 votos a favor, e 22 contra a abertura do processo de impeachment foi o placar geral no Senado.

O moinho do tempo foi girando, girando, e girando e os rios da Lava Jato foram parar também dentro da ação que o PSDB movia. Em junho de 2016, os marqueteiros da campanha de Dilma, João Santana e a esposa, Mônica Moura, já estavam presos pela 23a fase da Operação Lava Jato, o que deve ter deixado os petistas de cabelos em pé. As provas e depoimentos dos dois tornavam evidentes o fato de havia sido praticado o caixa dois na campanha presidencial que elegeu Dilma Rousseff e Michel Temer.

Em agosto de 2016, nova mudanças no TSE. O ministro Herman Benjamim foi nomeado novo corregedor da Justiça Eleitoral, substituindo a ministra, Maria Thereza de Assis Moura, que terminaria seu mandato na Corte, em início de setembro. Com a mudança, foi Herman quem assumiu as quatro ações movidas pelo PSDB que visavam cassar a chapa Dilma-Temer e empossar Aécio Neves como presidente. Ainda em agosto, os peritos do TSE responsáveis pela análise das contas de campanha de Dilma e Temer, identificou atitudes suspeitas de três empresas que prestaram serviços à campanha da dupla Dilma-Temer. Segundo os técnicos as empresas não haviam apresentados documentos suficientes que comprovassem os serviços prestados em campanha.

No dia 31 de agosto de 2106, Dilma Rousseff tornou-se, em definitivo, carta fora do baralho. Naquele dia, o plenário do Senado aprovou por 61 votos favoráveis e 20 contrários, o impeachment de Dilma. Temer deixava a condição de presidente interino para se tornar em efetivo o presidente da nação, tendo sido empossado no cargo em 31 de agosto.

Enquanto isso, prosseguia a queda de braço envolvendo o TSE, as ações movidas pelo PSDB, Dilma e Temer. Dilma pedia novas perícias. Executivos de empreiteiras eram ouvidos. Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobrás, e Delcídio Amaral, ex-senador, eram ouvidos como testemunha. Eike Batista também foi ouvido na ação movida pelo PSDB. O TSE criava força tarefa para analisar os serviços das gráficas que prestaram serviços a chapa vencedora. Na tentativa de atravancar o processo, a defesa de Dilma pediu para que fossem periciados 8 mil documentos, pedido que foi negado pelo TSE.

O ex-diretor da Transpetro, Sérgio Machado, também foi ouvido na ação, no dia 22 de outubro de 2016, na sede do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará, em Fortaleza, onde cumpria prisão domiciliar. Em seu depoimento, Machado disse haver sido feito pagamentos de propina a Aécio Neves quando foi candidato a presidência da Câmara dos Deputados em 1999 e 2000. Ainda segundo o depoente, foram feitas doações irregulares a Sérgio Guerra — falecido em 06 de março de 2014,  — quando este era presidente do PSDB em 2010. Disse também que haviam sido feitas doações a deputados e senadores do partido que movia a ação.

As coisas estavam tão confusas que a própria defesa de ex-presidente Dilma, em documento enviado ao TSE, afirmou que a construtora Andrade Gutierrez havia doado R$ 1 milhão à campanha de 2014, e que o dinheiro havia chegado a campanha por meio do PMDB. Segundo a defesa da presidente, o dinheiro havia sido depositado na conta de campanha do candidato a vice, Michel Temer.

Em 12 de dezembro de 2016, foi ouvido na ação, o ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, Cláudio Melo Filho. Na verdade, este era um título bonito para esconder o lado sujo da empresa. O departamento cuidava, de fato, do recebimento e pagamento de propina à políticos corruptos. Claudio revelou a roubalheira e o quanto os políticos estavam envolvidos nela. Era ele quem indicava os pagamentos aos políticos, e era Marcelo Odebrecht quem autorizava esses mesmos pagamentos.

Foi nesse depoimento, que Claudio Melo revelou que Michel Temer,nessas transações, era muito discreto. Ele apenas pedia contribuições para o partido. Embora, no ano de 2014, tenha ocorrido um jantar no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente, no qual estavam presentes, o então Vice-presidente, Michel Temer, Eliseu Padilha, à época deputado federal, e Marcelo Odebrecht. Disse que nesse jantar Marcelo Odebrecht definiu que seria repassado ao PMBD o valor de R$ 10 milhões.

Fechando o ano de 2016, um relatório elaborado por peritos do TSE informava que haviam sido encontrados pelo Ministério Público Federal, e pela Polícia Federal, indícios de fraude e desvios de recursos na campanha eleitoral de 2014, na chapa na formada por Dilma e Temer, e abrindo o ano de 2017, a PF disse em relatório haver encontrado irregularidades no pagamento feito a três gráficas que prestaram serviços a chapa vencedora.

Em março deste ano, foram ouvidos Marcelo Odebrecht, e mais três delatores da empreiteira na ação movida pelo PSDB.

Enfim, a vida dá voltas e mais voltas, e nessas voltas da vida, muita gente se enreda nelas. Nesse ínterim, o Brasil viu que político é tudo, como diz o dito popular, “farinha do mesmo saco”. Todos beberam das mesmas fontes sujas das doações ilegais de campanhas. Todos fizeram o mesmos jogos sujos. Mais um executivo da Odebrecht, Benedito Junior, afirmou em depoimento que em 2014 foram repassados R$ 9 milhões, a campanha do PSDB, por meio de caixa 2, a pedido de Aécio Neves.  

Por todas essas coisas, e também porque o PSDB agora tem cargos no governo, o partido afirmou no fim do mês passado ao TSE que não encontrou indícios de irregularidades eleitorais que tenham sido cometidas pelo presidente Temer, mas apenas por parte da ex-presidente Dilma Rousseff. As argumentações foram apresentadas na peça das alegações finais do PSDB dentro da ação que ele mesmo moveu.

No fim das contas, o PSDB entra em descrédito, e Aécio vai junto nessa. E os depoimentos dos delatores da Lava Jato enfraquecem Aécio e o PSDB, uma vez que eles praticaram os mesmos atos que condenaram na campanha de Dilma e Temer.

No início deste mês, o Tribunal Superior Eleitoral iniciou o julgamento da chapa Dilma-Temer. Não se sabe ao certo quantos meses ele vai durar, mas se sabe que isso por si só já será um grande desgaste para o presidente, que já começa a enfrentar problemas, inclusive, na base aliada, o que pode dificultar sua governabilidade e a aprovação de pautas importantes, como a reforma da Previdência Social.

E assim, caros leitores, e leitoras, a novela policialesca Brasil político esta longe de acabar... O bom seria que acabasse com todos os corruptos atrás das grades, e com o Congresso renovado, bem como todos os níveis governamentais de nosso país também renovados.

Copyright © 2009 Cottidianos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive. Distribuído por Templates