Santo do pau oco
Campinas, 02 de junho de 2026
Ontem à noite, em clima de entusiasmo, a
seleção brasileira embarcou para os Estados Unidos para participar da Copa do
Mundo de Futebol. Mais uma copa e mais uma esperança de vencer. A seleção
partiu embalada pela vitória expressiva de 6 x 2 sobre o Panamá. E para a
seleção brasileira, faço meu o verso da canção Voa Canarinho, escrita por Nonô e Memeco; “Voa canarinho voa, mostra pra esse povo que és um rei”. A Copa do
Mundo de Futebol, edição 2026, começará em 11 de junho, e terá partidas
disputadas em cidades do México, Estados Unidos e Canadá.
Quem também voa, e voa rápido, é o tempo.
O inexorável tempo nos empurra para o campeonato democrático das eleições, a
serem realizadas em 4 de outubro, e se houver segundo turno, também em 25 de
outubro.
Até agora, temos os seguintes pré-candidatos
à presidência da República. São eles;
Lula (PT)
Flávio
Bolsonaro (PL)
Ronaldo
Caiado (PSD)
Romeu
Zema (Novo)
Renan
Santos (Missão)
Cabo
Daciolo (Mobiliza)
Augusto Cury (Avante)
Hertz
Dias (PSTU)
Samara
Martins (UP)
Rui Costa
Pimenta (PCO)
São pré-candidatos e serão considerados
nessa condição até agosto quando acontecerão as convenções partidárias, e o
registro das candidaturas no TSE, e então eles serão, efetivamente,
considerados candidatos.
As pesquisas realizadas até o momento
mostram que Lula (PT), e Flávio Bolsonaro (PL), são os candidatos mais bem
colocados na corrida presidencial, seguidos de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu
Zema (Novo).
Há quem fale que Caiado e Zema são
candidatos que representariam uma terceira via, o que não é verdade. Ora, se a
polarização se estabeleceu entre Lula e Bolsonaro, e sendo Flávio, filho de Bolsonaro, o herdeiro
dos votos dele, após sua condenação e prisão por tentativa de golpe de Estado,
Caiado e Zema legítimos representantes e defensores das ideias bolsonaristas
como poderiam eles representar algo diferente? Podemos considera-los apenas
como candidaturas satélites.
Vamos abrir um parêntese aqui e falar de
um fenômeno natural chamado pororoca. Esse fenômeno natural ocorre na
foz do Rio Amazonas e seus afluentes do litoral do Amapá e do Pará, e envolve
os rios Araguari, Maiacaré, Guamá, Capim e Moju. Pororoca nada mais é que o
encontro das águas do rio com as águas do mar formando ondas grandes e
violentas que chegam a atingir seis metros de altura uma velocidade de 30km por
hora. O fenômeno atrai muitos turistas e
quem já presenciou, diz que o embate entre rio e mar causa grande barulho.
E eu aqui pensando: Quando foi que começou
essa pororoca eleitoral que vivemos hoje na política brasileira? Lembro que
houve tempos em que águas de rio e mar da política, apesar de serem diferentes,
de terem propriedades diferentes conviviam em harmonia, embates haviam, o que é
inevitável quando duas ou mais correntes de pensamentos se encontram, mas não
havia todo esse barulho, essa violência que se observa hoje.
Chego a conclusão de que foi em 2018 que
começou todo esse ambiente tóxico. Naquele ano havia um forte sentimento antipetismo. Naquele ano Lula estava preso por acusação de
corrupção. O juiz Sérgio Moro o havia condenado em de julho de 2017 a nove anos
e seis meses de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva,
em uma ação penal que envolvia um triplex no Guarujá.
Não podendo concorrer, Lula escolheu
Fernando Haddad para substituí-lo na corrida presidencial. No outro extremo,
surgiu Jair Bolsonaro, um azarão, deputado do centrão, do chamado “baixo-clero”
do clero do congresso.
Então de um lado, estava um país com um
forte sentimento antipetista, e de outro um candidato barulhento que empunhava
a bandeira da luta contra a corrupção, da rejeição aos métodos da velha
política, e prometia melhoras na segurança pública e na economia.
O discurso e atitudes altamente tóxicos de
Jair Bolsonaro, somadas às intensas práticas nada ortodoxas de atuação dos
bolsonaristas nas redes sociais foram fundamentais para que a polarização
igualmente tóxica se alastrasse como veneno pelo nosso, então pacífico Brasil.
Mas o discurso contra a corrupção dos
Bolsonaro, e dos seus aliados é como diz o ditado “coisa pra inglês ver”. É um
discurso que só existe na teoria, na prática a história é outra. Então eles
despejam essas ideias nos grupos bolsonaristas, e ali, a lavagem cerebral é
muito bem-feita. Qualquer coisa, sem exageros que se divulgue naqueles grupos,
passa a aceito ser aceito como verdade pelos adeptos da “seita” bolsonaristas.
Esse ano vai ser interessante o enredo da
oposição para as eleições. Os bolsonaristas não podem mais levantar a bandeira
da luta contra a corrupção, pois Flávio Bolsonaro foi “pego com a boca na
botija”, foi pego na mentira. Não é nenhum santo.
Dias atrás, o site The Intercpet Brasil divulgou
áudios de diálogos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro preso, Daniel Vorcaro.
O engraçado foi que horas antes da divulgação dos áudios, Flávio Bolsonaro
participava de um evento quando os jornalistas o abordaram e lhe fizeram
perguntas. Foi o repórter do Intercept, já sabedor dos áudios que seriam
divulgados horas depois, perguntou se o senador havia pedido dinheiro a Vorcaro
para financiar o filme, ao que Flávio respondeu com uma sonora gargalhada
irônica, abandonou a entrevista, e ainda chamou o jornalista de militante.
Horas depois o The Intercept divulgou os
áudios que mostravam que Vorcaro havia se comprometido a pagar a quantia de R$
134 milhões de reais para a realização do filme “Dark Horse” que narra a
história de Jair Bolsonaro. Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões, mas então a
Polícia Federal descobriu o rombo enorme que ele estava causando no sistema
financeiro nacional, e o prendeu. Essas reviravoltas dificultaram os repasses
do banqueiro ao filme.
Mesmo assim, Flávio queria que Vorcaro
pagasse o restante do dinheiro. Os áudios mostram ainda que Flávio encontrou-se
com Vorcaro, mesmo quando ele já se encontrava em prisão domiciliar, e com
tornozeleira eletrônica.
Impossível não acompanhar essas notícias
sem que algumas perguntas fiquem em nossa cabeça. Onde foi parar todo esse
dinheiro que o banqueiro investiu no filme? Pelos trailers do filme que já
foram divulgados, vemos que o dinheiro não foi parar ali. Não vemos no filme
nenhum ar de superprodução no estilo Hollywood. Tenho uma suspeita de que esse
dinheiro esteja financiando a vida tranquila do falso patriota, Eduardo
Bolsonaro, nos Estados Unidos.
Outra pergunta que nós fazemos é porque o
Vorcaro daria tanto dinheiro para a realização de um filme? A troco de quê?
Certamente, pelo perfil do banqueiro já vimos que ele não é um homem bonzinho e
que gosta de fazer caridade. Vorcaro está mais para mafioso do que para
caridoso.
Até agora Flávio Bolsonaro não deu nenhuma
explicação plausível para essa sede de pegar o dinheiro do Vorcaro. Aliás,
quando mais ele fala sobre o assunto, mais ele se enrola.
Quando esse filme for lançado vai ser no
mínimo irônico ver os bolsonaristas indo ver o filme sobre a vida do Bolsonaro
feita com dinheiro sujo, com dinheiro roubado. Logo eles que, desde 2018,
gritam em alto e bom som que Lula é o ladrão.
Outra coisa que soa bastante hipócrita é o
fato de ouvir o Flávio Bolsonaro dizer o Lula defende bandido. Logo ele que era
amigo de um dos maiores milicianos do Rio, e chefe de um grupo de extermínio, Adriano
da Nobrega. Em 2003, Flávio homenageou o então tenente da Polícia Militar,
Adriano, com uma Menção de Louvor por sua atuação no combate à criminalidade.
Mais tarde, em 2005, O miliciano se encontrava preso sob acusação de homicídio.
Mesmo nessa condição, Adriano foi homenageado por Flávio com a Medalha
Tiradentes, maior honraria que o Estado do Rio pode conceder a um cidadão.
Adriano da Nobrega foi absolvido pelo
crime de homicídio, depois foi expulso da PM. Tempos mais tarde, mesmo já sendo
apontado como chefe de milícia e de um grupo de extermínio chamado de
Escritório do Crime, Flávio empregou a mãe e a mulher de Adriano em seu
gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Na época, Flávio praticava o esquema de
“rachadinha” que era gerenciado por Fabrício Queiroz, policial militar e ex-assessor
de Flávio. Parte do dinheiro ficava com Adriano da Nóbrega. Curioso isso, não?
Por que Flávio dividia o dinheiro da rachadinha com Adriano?
E não foi apenas Adriano da Nóbrega que
foi homenageado por Flávio, vários outros policiais militares envolvidos com o
submundo do crime foram homenageados por Flávio durante o mandato dele como
deputado estadual pelo Rio de Janeiro.
Ainda sobre Adriano da Nobrega, ele foi
morto em um confronto com policiais militares em um sítio na zona rural da
cidade de Esplanada, na Bahia. As circunstâncias da morte do miliciano têm cara
e jeito de queima de arquivo. O nome de Adriano também surgiu nas investigações
da vereadora Marielle Franco e do motorista dela, Anderson Gomes. Ronnie Lessa,
um dos assassinos de Marielle e Anderson, disse à época das investigações que
Adriano teria sido um possível intermediário do crime.
Então quando você um candidato levantando
a bandeira da corrupção e prometendo ser implacável com a criminalidade, e
quando você olha para ele e vê a ligação dele com o submundo dos crimes financeiros
e com milicianos, a gente vê que a hipocrisia reina solta, mesmo entre aqueles
que assumem ares de bom moço. São os chamados santos do pau oco. Hipócritas. E
de onde vem essa expressão “santo do pau oco”?
Durante o período colonial, as imagens de
santos esculpidas em pau oco, ajudavam os mineiros a contrabandear ouro. Eles escondiam
o ouro dentro das imagens, assim ficava mais fácil contrabandeá-los e escapar
dos altos impostos.





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