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Mais lenha na fogueira do chefe

Posted by Cottidianos on 23:11
Segunda-feira, 15 de maio

O ex-presidente Lula, em depoimento ao juiz Sérgio Moro
A semana passada o Brasil pode dizer que viveu uma semana histórica. Histórica por quê? Ora não é todo dia que um ex-presidente que foi eleito com a promessa de revolucionar o Brasil, nas áreas da saúde, educação, segurança, e economia; um presidente que vinha da base dos sindicatos, e que, portanto, entenderia os anseios e desejos da classe trabalhadora; um presidente que havia saída das camadas mais humildes da população para dirigir um país inteiro; um presidente que saiu de seu segundo mandato com índices altíssimos de popularidade, e que conseguiu eleger sua sucessora, senta em frente a um juiz para ser ouvido em processo no qual é acusado de receber mais de R$ 3, 7 milhões advindas de propina da OAS, em contratos com a Petrobrás. A propina teria sido ofertada em troca de favores.

Que favores seriam esses? A reforma de apartamento triplex no Guarujá, a reforma desse mesmo luxuoso apartamento, e a guarda do acervo presidencial do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Nesse processo, no qual foi ouvido pelo juiz Sérgio Moro, na quarta-feira (10), em Curitiba, Lula é acusado de lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Ainda na esteira da Lava Jato, Lula responde a mais dois processos que versam sobre o milionário esquema de desvio de dinheiro da Petrobrás.

Ainda dentro do campo penal, o ex-presidente é réu em duas outras ações penais: na Operação Zelotes — um desdobramento da Operação Lava Jato que investiga um esquema de corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), em edição de medidas provisórias que concederam incentivos fiscais a empresas. Em outro desdobramento da Lava Jato, a Operação Janus, Lula é acusado de irregularidades em financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para contratos da Odebrecht em Angola.

Enfim, acusado de lavagem de dinheiro, corrupção passiva, obstrução das investigações da Lava Jato, de receber propinas de empreiteiras, tráfico de influência, e irregularidades em financiamentos em bancos estatais, o ex-presidente nega todas as acusações, assim como o fez quando do escândalo do mensalão, quando todos os seus soldados mais próximos tombaram atingidos pelas provas do envolvimento no escândalo, enquanto ele dizia nada saber, e jurava eterna inocência.

Fez-se muito teatro para o que era apenas um ato jurídico. Na noite de sábado (06), o juiz Sérgio Moro divulgou pela rede social, um vídeo no qual pedia para os manifestantes não irem a Curitiba, na quarta-feira (10), quando ocorreria o depoimento do ex-presidente, ao juiz Sérgio Moro. Apesar da boa intenção do juiz, ele foi muito mal interpretado, a começar pelos advogados de defesa de Lula. “O juiz Moro, que deveria ser imparcial, fala diretamente aos seus apoiadores. Isso não é normal em um sistema democrático. Em uma democracia, políticos têm apoiadores e oponentes. Juízes, não. Em uma democracia, juízes não transmitem vídeos para os seus apoiadores. Em uma democracia, juízes não procuram e tentam influenciar a opinião pública”, disse o advogado de defesa de Lula, Cristiano Zanin Martins.

Em Campinas, na palestra, Delação Premiada, teoria dos jogos e técnicas de investigação criminal para o combate da delinquência econômica: reflexões, realizada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), e proferida pelos advogados, Luiz Flávio Gomes, e Marcelo Rodrigues. Marcelo, que é Especialista em Direito Público com ênfase em Direito Constitucional, Administrativo e Tributário pela Escola Paulista da Magistratura, afirmou a esse blog Cottidianos: “Realmente, eu acho que o juiz ele tem que manter um papel de neutralidade e evitar exposição à mídia. Como no caso ele foi perante o Facebook, as redes sociais, pra pedir, fazer esse apelo, eu acho que ele está expondo o caso em voga, o que não seria uma atitude correta por parte do juiz. O juiz ele tem que se manter dentro do gabinete, ele não tem ficar fazendo pressões midiáticas, pressões políticas, ou outros tipos de pressões”, afirma o Dr. Marcelo em referência ao vídeo divulgado por Sérgio Moro, no sábado (06).

Enfim, chegou a tão esperada quarta-feira (10), por muitos tratada indevidamente como o dia do embate entre o juiz Sérgio Moro, e o ex-presidente Lula, quando na verdade tudo não passava de mais um ato jurídico, mais um dia na vida de um juiz.

Antes disso, os advogados de defesa de Lula tentaram verdadeiros malabarismos para adiar o depoimento. Impetraram, no total, sete habeas corpus, junto ao Tribunal Regional Federal da 4a Região, e ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Não obteviram sucesso em nenhuma dessas tentativas. A defesa do ex-presidente também disse que o juiz Sergio Moro não era competente para julgar o caso, uma vez que os supostos crimes não foram cometidos em Curitiba. No vocabulário jurídico, alegaram eles que havia por parte do juiz “incompetência territorial”. Enfim, tentaram, mais uma vez, desqualificar Moro.

Outra manobra na direção de adiar o julgamento foi dizer que não houve tempo de analisar os 5,42 gigabytes de documentos que foram anexados ao processo. Segundo os advogados o arquivo eletrônico teria cerca de 100 mil páginas. A defesa queria, pelo menos 3 meses para analisar os documentos. O pedido foi negado. Os advogados tentaram mais uma artimanha de raposa, que não funcionou: os 5,42 gigabytes foram anexados ao processo pela própria defesa do ex-presidente, e não possuíam relação com os contratos indicados na denúncia.

Querendo tumultuar ao máximo, a defesa de Lula ainda pediu para que uma equipe própria, a serviço do ex-presidente, fizesse a filmagem da audiência. O pedido foi negado. O detalhe: eles sabiam — ou pelo menos se supõe que soubessem — que todos os vídeos das audiências feitas pela justiça paranaense são disponibilizadas no site oficial do tribunal após meia hora do termino destas audiências.

Acabaram se as manobras? Não. Os advogados ainda entraram com um pedido na justiça para que pudessem entrar na sala de audiência portando celulares. O pedido também foi negado.

Um megaesquema foi montado em Curitiba, a fim de garantir ao juiz, a tranquilidade para que realizasse com segurança seu trabalho, e nas ruas para que fosse preservada a ordem.

A militância do PT, incitada pelo próprio ex-presidente, tentou transformar em um fato político, o que era apenas um ato jurídico. Os argumentos eram os mesmos de sempre: perseguição política.

Começada a audiência, o que seu viu foi um juiz tendo nas mãos um processo farto de provas e documentos, inquirindo, e um acusado sem argumentos, negando, fugindo como animal acossado. Orientado pelos advogados de defesa, negando sempre que fosse dono do triplex na praia do Guarujá, litoral de São Paulo, ou que pretendesse comprá-lo. Disse também que não havia orientado nenhuma reforma no imóvel.

Em certo trecho do depoimento, o juiz Sérgio Moro questiona Lula acerca de um documento de adesão de uma unidade duplex em Guarujá que, posteriormente, acabou se transformando em triplex. Segundo o juiz, o documento havia sido apreendido na casa de Lula e está sem assinatura. A este questionamento Lula respondeu: “Então, não está assinado, doutor... Talvez quem acusa saiba como foi parar lá. Eu não sei como está um documento lá em casa, sem adesão, de 2004, quando a minha mulher comprou o apartamento [da Bancoop] em 2005”. Ora, caros leitores e leitoras, o que é isso senão uma insinuação de que os investigadores plantaram provas na casa do ex-presidente?

Enfim, em seu depoimento Lula, se esquivou das perguntas do juiz, disse dezenas de vezes a sua frase clássica “eu não sabia de nada”, e quando respondeu, mentiu ou jogou a culpa em alguém, por exemplo, a falecida ex-primeira dama Marisa Letícia.

Analisando os fatos sem envolver-se neles, é possível dizer que Lula é, sem dúvida, um dos políticos mais inteligentes do Brasil... E o mais dissimulado deles também. Um homem que vê seus amigos e principais aliados caminharem para a forca... E silencia, que faz do velório da própria esposa um comício, que põe a responsabilidade pelas transações no triplex do Guarujá, na falecida esposa, que comandou um gigantesco esquema de corrupção na Petrobrás, e sabe lá onde mais, e nunca admitiu qualquer deslize, mesmo tendo os seus homens de confiança, afirmado perante a Justiça que era ele que comandava todo o esquema, o que é um homem assim senão um dissimulado?

Sabem o motivo pelo qual a defesa do ex-presidente quer ganhar tempo com tantas manobras processuais, e tentativas de desqualificar o trabalho de Sérgio Moro? Para ganhar tempo. E para que ganhar tempo? Pois mesmo que o juiz Sérgio Moro profira a sentença já no mês que vem, os advogados ainda pode recorrer aos tribunais superiores, e a coisa pode se arrastar por mais um ano, mais ou menos, isso dá tempo de o ex-presidente se lançar em campanha para a presidência em 2018. E depois que a campanha já estiver engatilhada, as coisas ficam mais difíceis, pois se Lula já se considera, e grita aos quatro cantos do mundo que é um perseguido político, imagina tendo ele um bom desempenho nas pesquisas para a eleição presidencial...

Não se enganem, caros leitores e leitoras, o ex-presidente, Luís Inácio Lula da Silva, não é inocente, e nunca foi desde o início. Também não se enganem quanto aos seus anseios ardentes de voltar à cadeira presidencial: o que ele quer não é melhorar os níveis de segurança, saúde, educação, e nem colocar o país nas trilhas do crescimento econômico. O que ele quer mesmo é fazer da Presidência da República, um refúgio seguro no qual possa escapar dos braços da justiça. E depois vingar-se daqueles que querem justamente, a justiça.

O casal de marqueteiros, João Santana e sua esposa, Mônica Moura.

Apesar do depoimento do ex-presidente ao juiz Sergio Moro ter sido um fato político importante, este blog aponta como um fato político ainda mais importante, e que vem a colocar ainda mais lenha na já ardente fogueira do chefe, e de sua sucessora na cadeira presidencial. E esse fato veio um dia após o depoimento do ex-presidente. Trata-se da quebra de sigilo, determinada por Edson Fachin — ministro do Supremo Tribunal Federal, relator da Lava Jato — das delações premiadas dos marqueteiros das campanhas de Lula e Dilma, João Santana, e de sua mulher Mônica Moura, presos na Operação Lava Jato.

O casal conta detalhes do esquema de pagamento via caixa dois em campanhas que realizaram para candidatos do Partido dos Trabalhadores, entre 2006 e 2014, inclusive as eleições presidenciais de Lula, quando da reeleição deste em 2006, e depois as de Dilma Rousseff, em 2010, e 2014. Foram 34 milhões de reais originários de caixa dois, que abasteceram suas contas através de dinheiro depositado no exterior, e dinheiro espécie, ou como o dito popular “em dinheiro vivo” recebidos aqui no Brasil.

Os dois ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e depois Guido Mantega, ficavam encarregados do pagamento dessas contas, desses acertos. Ao todo, segundo o casal, foram 34 milhões de reais recebidos por eles via caixa 2.

João Santana, bem como Renato Duque e Marcos Valério, dizem que Lula sabia de todos os detalhes das operações ilícitas, e era ele quem dava a palavra final nas transações realizadas. Monica diz que parte da dívida da campanha à reeleição de Lula, em 2006, foi entregue a ela por um assessor de Palocci, em um shopping na cidade de São Paulo.

Em 2002, na primeira eleição de Lula, João Santana era sócio de Duda Mendonça, à época marqueteiro da campanha de Lula. Duda Mendonça ganhou um bom dinheiro por esse serviço: foram pagos a ele 25 milhões de reais pela campanha de Lula naquele ano. Depois, Duda Mendonça se tornou um dos personagens do mensalão, que foi a compra de políticos para apoio ao governo. Curiosamente, Duda caiu nas mesmas circunstâncias que João Santana: transações ilegais e remessas de dinheiro ao exterior.

Em fins de março deste ano, Duda Mendonça assinou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal. O caso estava na Justiça Federal, em Brasília, mas como o publicitário cita pessoas com foro privilegiado, o caso foi remetido ao STF.

Foi quando estourou o escândalo do mensalão, em 2005, Lula, à época, presidente da República, solicitou os serviços de João Santana para consultoria de marketing, a fim de contestar as acusações que a mídia estava fazendo ao então presidente. Lula queria que Santana melhorasse a imagem do governo. E na ocasião já trataram da campanha a reeleição de Lula em 2006. O encarregado da parte financeira, dos pagamentos, ficaram a cargo de Antonio Palocci. João Santana diz que uma das primeiras coisas que Palocci lhe perguntou foi se ele tinha contas no exterior. O publicitário respondeu que sim, ao que Palocci respondeu que “para segurança de todos” os depósitos deveriam ser realizados nessa conta. A empresa responsável pelo depósito seria a Odebrecht, que era uma empresa séria e tinha o respaldo do “chefe”.

João Santana disse em sua delação, ter ficado claro para ele que Lula sabia de todos os detalhes dos pagamentos feitos em caixa dois, pois Palocci sempre dizia que a palavra final era a do chefe, referindo-se ao então presidente Lula.

Foram apresentados por Monica Moura extratos de pagamentos recebidos após a campanha de Lula em 2007, dinheiro depositado em uma conta na Suíça. Monica afirmou ainda que, em 2006 e 2007, viajou com frequência a São Paulo para receber dinheiro vivo, que eram sempre entregues em um shopping de luxo naquela cidade, e que o dinheiro era entregue em caixas de roupas ou de sapatos.

João Santana diz que, em 2014, quando a Lava Jato já estava a todo vapor, Dilma chegou a recomendá-los que ficassem no exterior o máximo de tempo possível a fim de não serem pegos na operação. O publicitário diz que Dilma tratava pessoalmente dos pagamentos ao casal. Certa ocasião, em um almoço sem testemunhas, Dilma teria dito a ele: “Fique tranquilo que tudo será resolvido rapidamente, em relação a essa dívida. E o que estamos planejando vai permitir, inclusive, pagarmos uma parte antecipada da campanha deste ano”. Depois das revelações dos delatores da Odebrecht sabe-se que os assuntos “planejados” que traziam vantagens ao partido, eram, quase sempre, criminosos.

Segundo o publicitário a dívida da campanha de 2014 estava em R$ 10 milhões. O empresário Zwi Scorncik pagou em caixa dois através de offshores, um total de U$ 4.500, o equivalente a R$ 9 milhões. O dinheiro foi depositado em contas no exterior. Outra parte do pagamento foi feito em dinheiro vivo entregues pela Odebrecht. Segundo Mônica, Dilma tratou de caixa dois até mesmo dentro Palácio da Alvorada. O assunto foi tratado em conversas particulares nos intervalos dos pronunciamentos oficiais que eram gravados no Palácio da Alvorada,e dirigidos por João Santana.

Com o avanço da Lava Jato, já em seu segundo mandato, vendo que empreiteiros poderosos tinham sido presos e que as investigações se aproximavam do caixa dois de campanha, Dilma ficou preocupada e quis saber se os pagamentos no exterior tinham sido feitos de forma segura. Ele disse que sim.

Dilma Rousseff também os avisou da Operação Lava Jato. Foi quando eles estavam de férias em Nova Yorque e receberam um telefonema do ministro Edinho Silva, dizendo que a presidente queria falar urgentemente com Mônica. Mônica voltou imediatamente, e foi recepcionada no aeroporto de Brasília, por Giles Azevedo, que era assessor de confiança de Dilma. Já no Palácio da Alvorada, Dilma conversou Mônica caminhando pelo jardim. Aliás, Mônica revela que, sempre que tinha um assunto sigiloso para tratar, a ex-presidente fazia isso caminhando pelo jardim, ou pela varanda interna, a fim de garantir privacidade total.

Até um e-mail foi criado para a comunicação segura entre as duas para que o casal fosse informado da Lava Jato. Quem abastecia Dilma das informações era o então ministro José Eduardo Cardozo. Na biblioteca do Palácio da Alvorada, Mônica criou um e-mail com nome e dados fictícios, cuja senha era apenas do conhecimento das duas, e de Giles Azevedo, assessor de Dilma. Ficou combinado entre os três que as coisas funcionariam da seguinte forma: se houvesse alguma notícia em relação ao avanço da Lava Jato, em especial as que se referiam a João Santana e Mônica Moura, eles seriam avisados.

Sempre que Dilma tinha novas informações importantes, Giles enviava a Mônica uma mensagem falando de coisas sem importância como, por exemplo, “veja aquele filme” “gostei do vinho indicado”, ou coisas assim. Era a senha para que Mônica abrisse o e-mail e visse a mensagem do e-mail criado secretamente. Foi criado ainda um segundo e-mail nos mesmos moldes que o primeiro, dessa forma, onde quer que estivesse, o casal sabia de tudo o que acontecia no Brasil em relação à Lava Jato. Foi assim que eles ficaram sabendo, em 2016 que já haviam mandados de prisão contra eles. A prisão do casal foi decretada contra eles no dia 22 de fevereiro, e o casal se apresentou a PF no dia 23.

Outro trecho importante da delação dos dois marqueteiros e que mostra que o projeto de poder do PT superava as fronteiras nacionais. Eles relatam pagamento de caixa dois, por campanhas feitas em outros países: El Salvador, Panamá, Venezuela, e Angola. Segundo João Santana, ele teria assumido essas campanhas seguindo orientações do ex-presidente Lula. Detalhe: nesses países também existiam obras da Odebrecht.

Os fatos surgidos no cenário político brasileiro são todos de extrema gravidade. E os políticos estão, obviamente, todos em polvorosa, como animais acuados. Isso se explica seus esforços em enfraquecer a Lava Jato, tirar autoridade de juízes e promotores, e escapar ilesos de seus crimes.

A Folha denunciou, em 13 de abril deste ano, um acórdão entre o presidente Michel Temer, e os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique para sobrevivência política deles, e de seus partidos nas eleições de 2018. E o pacto faz sentido, pois caso Lula seja vencedor de uma eventual disputa presidencial em 2018. Então é o perdão para todos os crimes de nossos políticos ladrões... E a quase certa morte da Lava Jato.

Na verdade, o que precisamos é de novas lideranças no campo político. Pois com os políticos tradicionais que estão no comando da política brasileira hoje, sabemos que não será possível mudança alguma. Com eles, andaremos sempre para trás tal qual caranguejos no mangue, pois os interesses defendidos por eles, vão em direção diametralmente opostas aos interesses da nação. Onde estão essas lideranças? Acreditemos que, uma hora ou outra, elas podem surgir, assim como surgiu um grupo de juízes e promotores dispostos a passar o Brasil a limpo, e enfrentar os poderosos, assim como ninguém acreditava que criminosos de colarinho branco fossem para a cadeia, e eles estão indo.  

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Ser mãe é ser na medida certa

Posted by Cottidianos on 16:12
Domingo, 14 de maio



Hoje é Dia das Mães, e é mais que justo que este blog preste uma homenagem àquelas que nos carregaram em seus ventres por longos nove meses, e que depois sofreram as duras dores do parto, e que, ao nos ver pela primeira vez, olharam para nós com olhos tão cheios de ternura que parecia que estávamos navegando em um mar de amor. E estávamos mesmo, pois amor de mãe é tão grande e profundo quanto o mar, tão vasto e imenso quanto o misterioso infinito.

Quando as mães olham para seus filhos é como se duas estrelas brilhassem sobre eles, estrelas, que, aliás, os seguirão, iluminando e protegendo por todo o sempre. Se mesmo após exalarem o último suspiro, e serem abraçadas pela eternidade, elas deixam de olhar para seus rebentos, imaginem quando estão suspirando, avidamente, por vida.

Criar filhos é como segurar pássaros, tem que ter um jeito certo. Não se pode aperta-los demais para não sufocá-los, também não se pode soltá-los demais, pois pode ser que ainda não estejam prontos para os voos nos céus da vida, onde podem encontrar aves de rapina que judiarão deles. Tudo tem um tempo certo, um jeito certo. Mas mãe é mãe, em qualquer lugar e a qualquer tempo, elas sempre encontrarão um jeito, uma desculpa para estarem junto dos filhos.

Na tentativa de proteger os filhos, elas acabam muitas vezes, superprotegendo-os, e ás vezes, e quando isso acontece, acabam levando, bem baixinho da boca dos filhos, o nome de “chata”. Os filhos dizem baixinho, mas se dissessem isso alto, pensam que elas ligariam... Que nada!

Em homenagem ao dia das mães, dedico a todas elas, um texto de Rubem Braga: um grande cronista brasileiro. A crônica, intitulada, Mãe, tem um final inusitado, mas qual mãe, e qual filho já não passaram por situação semelhante?

A todas as mães: FELIZ DIA DAS MÃES! Que o divino criador, as abençoe e ilumine para que tenham sempre sabedoria para educar seus filhos na paz e no amor.


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Mãe


 (Crônica dedicada ao Dia das Mães, embora com o final inadequado, ainda que autêntico.)

Rubem Braga

O menino e seu amiguinho brincavam nas primeiras espumas; o pai fumava um cigarro na praia, batendo papo com um amigo. E o mundo era inocente, na manhã de sol.

Foi então que chegou a Mãe (esta crônica  é modesta contribuição ao Dia das Mães), muito elegante em seu short, e mais ainda em seu mai? Trouxe óculos escuros, uma esteirinha para se esticar, óleo para a pele, revista para ler, pente para se pentear — e trouxe seu coração de Mãe que imediatamente se pôs aflito achando que o menino estava muito longe e o mar estava muito forte.

Depois de fingir três vezes não ouvir seu nome gritado pelo pai, o garoto saiu do mar resmungando, mas logo voltou a se interessar pela alegria da vida, batendo bola com o amigo. Então a Mãe começou a folhear a revista mundana — "que vestido horroroso o da Marieta neste coquetel" — "que presente de casamento vamos dar ?Lúcia? tem de ser uma coisa boa" — e outros pequenos assuntos sociais foram aflorados numa conversa preguiçosa. Mas de repente:

— Cadê Joãozinho?

O outro menino, interpelado, informou que Joãozinho tinha ido em casa apanhar uma bola maior.

— Meu Deus, esse menino atravessando a rua sozinho! Vai lá João, para atravessar com ele, pelo menos na volta!

O pai (fica em minúscula; o Dia é da Mãe) achou que não era preciso:

— O menino tem OITO anos, Maria!

— OITO anos, não, oito anos, uma criança. Se todo dia morre gente grande atropelada, que dir?um menino distraído como esse!

E erguendo-se olhava os carros que passavam, todos guiados por assassinos (em potencial) de seu filhinho.

— Bem, eu vou lá só para você não ficar assustada.

Talvez a sombra do medo tivesse ganho também o coração do pai; mas quando ele se levantou e calçou a alpercata para atravessar os vinte metros de areia fofa e escaldante que o separavam da calçada, o garoto apareceu correndo alegremente com uma bola vermelha na mão, e a paz voltou a reinar sobre a face da praia.

Agora o amigo do casal estava contando pequenos escândalos de uma festa a que fora na véspera, e o casal ouvia, muito interessado — "mas a Niquinha com o coronel? não 
é possível!" — quando a Mãe se ergueu de repente:

— E o Joãozinho?

Os três olharam em todas as direções, sem resultado. O marido, muito calmo — "deve estar por aí”, a Mãe gradativamente nervosa — "mas por aí onde?" — o amigo otimista, mas levemente apreensivo. Havia cinco ou seis meninos dentro da água, nenhum era o Joãozinho. Na areia havia outros. Um deles, de costas, cavava um buraco com as mãos, longe.

— Joãozinho!

O pai levantou-se, foi lá não era. Mas conseguiu encontrar o amigo do filho e perguntou por ele.

— Não sei, eu estava catando conchas, ele estava catando comigo, depois ele sumiu.

A Mãe, que viera correndo, interpelou novamente o amigo do filho. "Mas sumiu como? Para onde? Entrou na água? Não sabe? Mas que menino pateta!" O garoto, com cara de bobo, e assustado com o interrogatório, se afastava, mas a Mãe foi segurá-lo pelo braço: "Mas diga, menino, ele entrou no mar? Como é que você não viu, você não estava com ele? Hein? Ele entrou no mar?".

— Acho que entrou... Ou então foi-se embora.

 De pé, lábios trêmulos, a Mãe olhava para um lado e outro, apertando bem os olhos míopes para examinar todas as crianças em volta. Todos os meninos de oito anos se parecem na praia, com seus corpinhos queimados e suas cabecinhas castanhas. E como ela queria que cada um fosse seu filho, durante um segundo cada um daqueles meninos era o seu filho, exatamente ele, enfim — mas um gesto, um pequeno movimento de cabeça, e deixava de ser. Correu para um lado e outro. De súbito ficou parada olhando o mar, olhando com tanto ódio e medo (lembrava-se muito bem da história acontecida dois a três anos antes, um menino estava na praia com os pais, eles se distraíram um instante, o menino estava brincando no rasinho, o mar o levou, o corpinho só apareceu cinco dias depois, aqui nesta pr aia mesmo!) — deu um grito para as ondas e espumas — "Joãozinho!".

Banhistas distraídos foram interrogados — se viram algum menino entrando no mar — o pai e o amigo partiram para um lado e outro da praia, a Mãe ficou ali, trêmula, nada mais existia para ela, sua casa e família, o marido, os bailes, os Nunes, tudo era ridículo e odioso, toda essa gente estúpida na praia que não sabia de seu filho, todos eram culpados — "Joãozinho !" — ela mesma não tinha mais nome nem era mulher, era um bicho ferido, trêmulo, mas terrível, traído no mais essencial de seu ser, cheia de pânico e de ódio, capaz de tudo — "Joãozinho !" — ele apareceu bem perto, trazendo na mão um sorvete que fora comprar. Quase jogou longe o sorvete do menino com um tapa, mandou que ele ficasse sentado ali, se saísse um passo iria ver, ia apanhar muito, menino desgraçado!

O pai e o amigo voltaram a sentar, o menino riscava a areia com o dedo grande do pé e quando sentiu que a tempestade estava passando fez o comentário em voz baixa, a cabeça curva, mas os olhos erguidos na direção dos pais:

— Mãe é chaaata...


Maio, 1953

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Chegará a justiça ao chefe?

Posted by Cottidianos on 10:50
Domingo, 07 de maio

Da esquerda para a direita: Renato Duque, Lula, e Sérgio Moro

Quando todos esperavam que a semana na Lava Jato terminasse sem maiores novidades, eis que o ex-diretor da Petrobras, Renato Duque, resolve falar, e joga ainda mais dinamite na já ardente fogueira das vaidades políticas. Duque disse que Lula tinha pleno conhecimento de todo o esquema de desvio de dinheiro e pagamento de propina na estatal petroleira.

Comecemos pelo final, e não pelo início, como é de praxe. Façamos também desta postagem uma mistura de momento presente, representado pelo depoimento de Renato Duque, ligado ao escândalo do petrolão, com o depoimento de outro personagem bastante conhecido nosso, ligado ao caso do mensalão: Marcos Valério.

Ao saber do depoimento que o ex-aliado havia dado ao juiz Sérgio Moro, o Instituto Lula, divulgou nota na qual afirma que o depoimento de Renato Duque é uma tentativa de fabricar acusações contra o ex-presidente, e que seria resultado de acordos entre os condenados na Lava Jato, e os procuradores que investigam o caso, em troca de redução de pena. Na nota o instituto classificou como levianas as denuncias contra o ex-presidente, e que os réus ainda não haviam conseguido levantar nenhuma prova contra ele, apesar de as investigações já durarem dois anos, e de ter havido quebra de sigilo, e violação de telefonemas.

Os advogados de defesa de Lula também divulgaram nota desclassificando o depoimento do ex-diretor da Petrobrás.

A defesa de João Vaccari, ex-tesoureiro do PT, também declarou serem mentirosas as acusações de Duque, e que devem ser recebidas com desconfiança pelo fato de partirem de alguém que está tentando fechar acordo de delação premiada.

Ainda na noite de sexta-feira (5), após saber das denúncias de Renato Duque, Lula, durante o 6o Congresso Estadual do PT, em São Paulo, reagiu fazendo duras críticas a Operação Lava Jato, e aos procuradores do Ministério Público. Até fez uma ameaça velada contra eles.

“Amanhã prenderam tal empresário, ele vai delatar o Lula. Amanhã o Lula vai ser preso. Faz dois anos que eu estou ouvindo isso. Dois anos que eu estou escutando. E se eles não me prenderem logo, quem sabe um dia eu mando prendê-los por mentira que estão falando”, disse ele em discurso no evento petista.

É um contrassenso, em uma democracia, um homem que já foi presidente, ameaçar prender aqueles que o estão investigando. Ele que já foi presidente, será que não sabe que essa coisa de mandar prender ou soltar, investigar crimes, não é atribuição do presidente da República, e sim da lei e da justiça?

Outro ponto fora da curva é quando o ex-presidente fala do apartamento triplex na praia do Guarujá, litoral paulista. “Porque eles falam de um tríplex para tentar impressionar vocês, na verdade é como se fosse uma casa Minha Casa Minha Vida uma em cima da outra”. Vejam só que sandice: o ex-presidente compara um apartamento triplex à beira-mar, no Guarujá as casas do projeto Minha Casa Minha Vida. Se fosse um apartamento simples naquela localização já seria um luxo, um triplex então, é um luxo multiplicado por três. O presidente comparar esse luxo as moradias do programa “Minha Casa Minha Vida” é demais. Só mesmos os idiotas conseguem engolir uma coisa dessas. 

O ex-presidente termina seu discurso dizendo: “Eles já estão com a tese pronta: ‘o PT é uma organização criminosa, o Lula montou um governo para roubar até depois que ele saísse’. Portanto, se o Lula é o Lula, o Lula era o chefe então ele tem que saber de tudo”. Querendo ser irônico o presidente acabou dizendo a mais pura verdade no final de seu discurso.

Se os caros leitores, e leitoras, repararem bem nos argumentos dos petistas para se defenderem — bem como na dos outros envolvidos em escândalos — é sempre a mesma. O roteiro parece girar sempre na tentativa de desqualificar depoentes, promotores, e juízes, e se colocar como os mais puros e mais santos, incapazes de cometer o menor deslize. Lula já chegou a dizer que era um dos homens mais honestos que o Brasil já teve.

Por que o PT faz isso? Deixo Marcos Valério, operador do mensalão, preso em Minas Gerais, dar essa resposta. Em seu primeiro depoimento como réu na Lava Jato, ao juiz Sergio Moro, em setembro de 2016, Valério diz, referindo-se aos petistas: “Eles tem uma máquina muito grande de desmoralização das pessoas. Via redes sociais, os blogeiros, e via algumas pessoas situadas na imprensa. O PT tem essa mania de querer desmoralizar as pessoas pra tirar a credibilidade dessas pessoas no que elas dizem”.

Fugindo um pouco do assunto, e, ao mesmo tempo permanecendo nele, Valério faz nesse depoimento, uma acusação séria: a de que o então presidente Lula, e a cúpula do PT teriam sofrido chantagem por parte de Ronan Maria Pinto. Disse o depoente que, soube pelo secretário geral do PT, Silvio Pereira, que o empresário da cidade de Santo André estaria chantageando o presidente Lula, e os ministros, José Dirceu, e Gilberto Carvalho.

Valério recebeu uma ligação de Silvio Pereira, para que fosse se encontrar com ele em São Paulo. Lá Silvio teria falado da chantagem, e perguntado se Valério poderia emprestar R$ 6 milhões. Nessa ocasião, Valério ficou sabendo que o chantagista era Ronan Maria Pinto, dono de uma empresa de ônibus em Santo Andre.

Mais tarde, em conversas com outros integrantes da cúpula petista, ao saber dos reais motivos pelos quais Ronan estaria chantageando o ex-presidente, e os dois ministros, Marcos Valério arrepiou os cabelos, e recusou-se a prosseguir com a negociação. Em um encontro em Brasília, disse a Silvio Pereira, que não queria o nome dele envolvido naquele assunto. Posteriormente, o empréstimo acabou sendo concedido ao PT, pelo pecuarista, José Carlos Bumlai.

A chantagem devia estar relacionada mesmo a algo muito grave, pois ao ser perguntado sobre por um integrante do MP sobre qual seria o motivo dela, Valério disse: “Eu gostaria de não responder a essa pergunta por que ela é muito... O que eu fiquei sabendo é muito grave... E o Sr. não vai poder garantir a minha vida”. Mas à frente no depoimento, a questão do motivo da chantagem volta novamente à tona, e Valéria torna a dizer: “O que eu descobri é muito sério, e eu não queria me envolver. E vou pedir para não responder a essa pergunta. Por quê? Porque é um assunto muito grave, eu não quero correr risco, eu estou preso, e numa penitenciária”.

Em relação à Ronan Maria Pinto, as investigações mostram que ele é um empresário, da cidade de Santo André, no grande ABC paulista. Segundo os investigadores, Ronan conhecia detalhes do assassinato, em 2002, do prefeito da cidade, Celso Daniel (PT).

Voltando ao depoimento que Renato Duque deu, em Curitiba, ao juiz Sérgio Moro. Duque ficou calado por muito tempo. Esperando um milagre divino, talvez? Ou esperava que algum dos advogados do PT encontrasse alguma solução mágica? Ou será que ainda contava com a influência do chefe para libertá-lo? São muitas as conjecturas para essa questão, mas o fato é que, quando ninguém mais esperava por algum depoimento seu, ele falou. E quer fazer delação premiada, depois de ser preso em março de 2015, ter sido condenado em 4 processos, e sua pena somar 57 anos de prisão.

A primeira vez que Renato Duque soube o que é ficar atrás dos muros de uma prisão, e dentro das grades dela, foi em novembro de 2014, quando a Polícia Federal deflagrou a 7a fase da Operação Lava Jato. Entretanto, um habeas corpus concedido pelo ministro Teori Zavascki o libertou. Em março de 2015, a PF deflagrou a 10a fase da Operação Lava Jato, e ela veio pra cima de Duque como um tsunami. Dessa vez, ele não escapou. 

Os investigadores descobriram que ele mantinha contas secretas no exterior na qual estavam aplicados mais de 20 milhões de euros. Além disso, os policiais descobriram transações bancárias as quais consideraram lavagem de dinheiro. Na casa de Duque, os policiais encontraram um acervo com mais de cem obras de arte.

Oficialmente, Duque era Diretor de Engenharia e Serviços, entre 2003 e 2012 na Petrobras, mas, ao que parece, tudo na política brasileira, parece ter os seus caminhos obscuros que levam aos subterrâneos da corrupção, a função de ex-diretor na estatal era arrecadar propina para o Partido dos Trabalhadores. Segundo ele, a propina tinha origem em contratos com a estatal. Em outras palavras, o ex-diretor era o homem do PT na Petrobras. Entre Duque, a propina, e os contratos estava a figura de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT. Apesar de “trabalhar” para o PT na Petrobrás, arrecadando milhões de reais, muito dessa dinheirama acabava caindo na conta pessoal de Vaccari, como ele mesmo afirma no próprio depoimento.

No depoimento dado ao juiz Sérgio Moro, o ex-diretor, disse que esse esquema de pagamento de propina já existia quando ele assumiu a Diretoria de Engenharia e Serviços, no ano de 2003, afirmando que todos os integrantes da cúpula do Partido dos Trabalhadores, desde o presidente da República, ao presidente do PT, todos sabiam do esquema criminoso. Hoje é sabido que a propina sempre existiu, mas foi durante os governos petistas de Dilma e Lula que esse esquema criminoso foi tornado “profissional”, “aperfeiçoado”.

O que se depreende de tudo isso que acontece no Brasil político do qual hoje temos conhecimento, é que os grandes partidos, e seus líderes de expressão nacional, corriam atrás de propina como os urubus correm atrás de carniça. Fala-se aqui, especialmente do PT, devido a ele estar no centro da fala de Duque à Moro, mas o mesmo vale para todos os partidos políticos.

O ex-diretor da Petrobrás disse ao juiz, em Curitiba, que “quando existia um contrato, seja ele qual fosse, que corria uma licitação normal, o partido ou o tesoureiro do partido normalmente procurava a empresa pedindo contribuição. E a empresa normalmente dava porque era uma coisa institucionalizada na companhia, isso. O Paulo Roberto cuidava da área do PP, Partido Progressista, a área do PT, eu que cuidava”.

E isso, pelo menos entre os integrantes do partido, não era coisa escondida. Todos sabiam: o presidente do partido, deputados, senadores, secretários. Nessa fonte suja, todos bebiam com gosto. 

Ainda segundo Duque, os responsáveis pela arrecadação da propina eram os tesoureiros do partido “inicialmente o Delúbio, posteriormente, o Paulo Ferreira, e depois o Vaccari”.

Ao juiz Sérgio Moro, Renato Duque afirmou que foi o próprio presidente, Lula, que indicou o Vaccari para a arrecadação de propina na empresa. Ele conta que conheceu o Vaccari em 2007, quando ele ainda não era tesoureiro, mas já começava a dar os primeiros passos no crime cuidando da arrecadação de propina.

Segundo o depoente, o ex-presidente era conhecido dentro do esquema por “Chefe”, “Grande Chefe”, “Nine”, também um gesto de coçar a barba era uma referência ao ex-presidente. “Eu fui chamado a Brasília e essa pessoa falou: ‘Olha você vai conhecer uma pessoa indicada pelo...’ e fez esse movimento (Duque faz um gesto como que tocando a barba). Não citava o nome. O presidente Lula era conhecido como Chefe, Grande Chefe, Nine, ou pelo movimento (tocar a barba). ‘Você vai receber uma pessoa que está sendo indicada e ele vai conversar com você, ele vai ser agora quem vai atuar junto às empresas que trabalham com a Petrobras”, afirmou Duque. A partir daquele momento, foi estabelecido o contato com Vaccari, e por determinação de Lula.

Durante o depoimento, Duque falou também do vasto conhecimento que o João Vaccari, tinha dos contratos de licitação da Petrobrás. O depoente chega a dizer: “Ele sabia muito mais de resultados de licitações do que eu”. O ex-diretor, diz que nem precisava passar as informações para o Vaccari, ele próprio já sabia quais empresas estavam pagando a parte que lhes cabia na propina e quais não estavam pagando, e que, Vaccari mesmo, procurava as empresas para fazer os acertos.

Renato Duque disse que esse dinheiro advindo de propina teria abastecido os cofres do PT, de José Dirceu, e do próprio Lula, e que Antonio Palocci era quem gerenciava os recursos desviados para o presidente.

No depoimento dado a Sérgio Moro, Renato Duque coloca Lula no comando do esquema. Ele fala de três encontros que teve com Lula, quando ele já não era mais presidente da República. O primeiro encontro, segundo o depoente, foi em 2012. E nessa ocasião, conta Duque, que ficou impressionado com o conhecimento que Lula tinha do projeto de sondas. Ele começou a fazer muitas perguntas sobre o assunto. Perguntou, inclusive, porque ainda não tinha sido assinado o contrato, já que tinha sido aprovado em abril, ao que Duque respondeu: “Presidente, nem sabia que não tinha sido, estou fora da empresa, não sei responder”. Dizendo com outras palavras, diante do alto nível de conhecimento que Lula demonstrava em relação aos assuntos da estatal, que Lula era o chefe, e que Vaccari era apenas um serviçal dele.

Em um segundo encontro, em 2013, Lula e voltou o assunto das sondas. Lula queria saber por que algumas empresas não estavam pagando, questão a qual Duque também não soube responder.

No último encontro entre os dois, Lula se mostrou preocupado sobre se Duque possuía contas no exterior. À essa altura a Lava Jato já estava a todo vapor. Segundo ele, Lula houvera dito que Dilma Rousseff havia recebido a informação de que um diretor da Petrobrás recebera dinheiro em uma conta na Suíça. Ainda segundo o depoente, Lula teria dito: “‘Olha, presta atenção no que vou te dizer, se tiver alguma coisa não pode ter, entendeu? Não pode ter nada no teu nome, entendeu?”. Duque entendeu, mas àquela altura o estrago já estava feito.

Desses três encontros, diz Duque em relação a Lula: “Ficou claro, muito claro pra mim que ele tinha pleno conhecimento de tudo e detinha o comando.”.

Não foi apenas Renato Duque que afirmou que Lula era o “Chefe”. Também Marcos Valério, o operador de um organizado e elaborado esquema financeiro criminoso — que ficou conhecido como mensalão — que possibilitou ao PT montar o maior esquema de corrupção da história, também afirmou isso à Veja, em 15 de setembro de 2012.

Valério foi o mais duramente punido. Punição que também deveria ter caído de forma mais severa sobre a cúpula petista, afinal Valério, apesar de muito inteligente e hábil, não era o chefe do esquema, mas tão somente uma engrenagem importante dele. Se bem que com o advento do mensalão, ficou claro que o esquema criminoso montado pelo PT era muito mais profundo e sofisticado.

Valério foi seduzido pelos petistas com promessas de impunidade, e depois, quando isso não era mais possível, de penas mais brandas. Depois o empresário amargou a dura realidade de estar sozinho. Os poderosos que tanto o tinha bajulado tinham virado-lhe às costas.

Ao repórter da Veja, Rodrigo Rangel, Valério diz a mesma coisa que Duque disse na sexta-feira (05) ao juiz Sérgio Moro: que Lula se empenhava pessoalmente na coleta de dinheiro de propina. Tudo era feito de uma forma a não deixar rastros. Em uma contabilidade que corria por fora, sem registros contábeis. Um crime perfeito. Talvez, por isso, Lula se gabe tanto de que não há provas contra ele. O ex-presidente foi muito hábil nessas transações. Ficou à margem de todos os escândalos, sempre dizendo que não sabia de nada. E até hoje diz que não sabe, enquanto seus auxiliares pagavam o pato e eram jogados na lama da desmoralização, do descrédito, e da prisão. E ali eram esquecidos pelo “Chefe”.

Valério chega a se definir, apesar de ser o operador dos pagamentos milionários, como apenas um “boy de luxo”, sendo Lula era quem, realmente, dava as cartas.

Pelas colocações de Lula nas pesquisas ainda há no Brasil, muita gente cega, e muita gente comprometida até o pescoço com esse criminoso esquema que levou o Brasil à falência econômica e moral.

Não dá mais para ignorar o que está diante dos olhos de todos: houve um esquema criminoso no Brasil que foi aperfeiçoado durante os governos petistas de Lula e Dilma. E é sabido por todos que em todo esquema criminoso tão sofisticado há um chefe, um comandante. Até agora, foram punidos apenas os homens de confiança do chefe, e seus subalternos. A pergunta é: conseguirá a lei chegar ao chefe e colocá-lo na cadeia?

Não dá mais para tolerar as mesmas desculpas de perseguição, de “querem destruir o ex-presidente, e o PT”. O Brasil foi traído por gente que se apresentou como salvadora, e se transformou em ave de rapina de cofres públicos.

Sem lideranças em que se possa confiar, o que fazer para as próximas eleições, se não apenas o PT, mas todos os grandes partidos brasileiros, e as principais lideranças da política brasileira estão chafurdando num mar de lama, ou correndo atrás de propina como urubus em busca de carniça?

Essa é uma pergunta na qual o brasileiro deve meditar, e muito, se não quiser ver o país naufragar de vez nos mares da corrupção e do descrédito.

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