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Um gigante chamado Brasil, e um valoroso capitão chamado Lula

Posted by Cottidianos on 01:19

Campinas, 28 de outubro

                                                                                             

A postagem de hoje é mais um desabafo do que uma análise das eleições presidenciais realizadas no último domingo, 25. Digo desabafo por que me coloco neste texto, portanto, dando a ele um caráter bem pessoal a estas linhas. Mas ao mesmo tempo que expresso meus sentimentos, expresso também os sentimentos de milhões brasileiros.

Portanto, muitas vezes no texto, quando uso o pronome pessoal na primeira pessoa do singular (eu), entenda-se, o pronome pessoal na primeira pessoa do plural (nós).

Confesso que, quando foram abertas as urnas no primeiro turno das eleições presidenciais realizadas no dia quatro de outubro, foi como se um balde de água fria tivesse caído sobre minha cabeça. Uma tristeza imensa se abateu sobre meu peito. Flávio Bolsonaro saiu na frente com 47,03% dos votos, e Lula com 45,16%. Esperava eu que Lula vencesse no primeiro, ou se isso não acontecesse, que ele passasse à frente do filho de Jair Bolsonaro.

O balde de água fria se tornava ainda mais gelado quando eu pensava que o congresso que saiu formado dessas eleições, deputados e senadores, fora majoritariamente de extrema esquerda. E água do balde congelou de vez quando pensei que, desde a redemocratização, em 1989, nenhum candidato que passou para o turno em segundo lugar venceu as eleições, aí nem água gelada caia mais na minha cabeça, apensas cubos de gelo. E eles bateram forte e me deixaram com dor de cabeça.

Naquela noite, em pronunciamento logo após a divulgação do resultado, o presidente Lula falou:

“Acabamos de ter uma eleição da democracia do Brasil. Precisamos agradecer aos milhões de brasileiros que foram a urna dar seu voto, para deputados, senadores, governadores, presidente. O resultado é muitas vezes inesperado, confesso que estava convencido de que iria ganhar no primeiro turno.

Eu gostaria de ter ganhado as eleições no primeiro turno, eu pensei isso em 1989, em 1994, em 1998, em 2002, pensei isso com a Dilma em 2010, com o Haddad em 2018, eu pensei em 2022, não deu certo. Porque o povo gosta que eu dispute o segundo turno. Eu sou bom de mata-mata. A partir de amanhã, a gente começa uma nova campanha, uma campanha apenas entre dois candidatos, que a gente vai poder mostrar a diferença entre as propostas que existem para o Brasil.

Do outro lado, temos apenas incerteza com uma biografia de um passado tenebroso. Não há biografia do pai, do filho. É uma biografia tenebrosa com suspeitas gravíssimas, com relação com os milicianos, com o crime organizado, com os assassinatos do Rio de Janeiro. Tudo isso vai ficar claro e também com a participação na criação do Banco Master, que resultou na maior orgia envolvendo políticos e autoridades desse país”.

Ao ir para a cama naquela noite, ainda ecoava na minha mente as palavras de Lula. Tempos difíceis com Flávio Bolsonaro na presidência. O Lula dizendo nas entrelinhas: Acreditem, eu consigo.

No outro dia, e nos dias subsequente, a imprensa dizendo: Ele não conseguirá reverter o resultado. E os que diziam que havia alguma luz no túnel sempre me lembravam que nenhum presidente havia sido eleito tendo passado em segundo turno. Quem vencia as eleições era sempre o primeiro colocado no primeiro turno.

A votação de Flávio me atingiu com a força de quem e atingido no estômago por um soco. Uma revolta surgia no coração ao ver que a maioria dos brasileiros havia escolhido um cara envolvido com milicianos, cujos aliados tinha ligações com o comando vermelho, que há muito praticava atos ilícitos, e cujo pai, presidente em governo anterior, havia tentado um golpe de estado.

Então Flávio Bolsonaro, cheio de arrogância, já foi dizendo que mudaria a Constituição, nossa Lei Maior. Já foi escolhendo aliados para ministérios. Dizendo que faria tesouraço nas contas públicas com tesoura afiada que cortaria, certamente, os mais pobres e mais necessitados. E também ameaçando cortar direitos trabalhistas. Dias sombrios se descortinavam no horizonte do meu país. Enfim, o filho de Jair Bolsonaro parecia ter sentado na cadeira presidencial sem ainda nem ter sido eleito de fato e de direito.

No meio desse turbilhão surgiu a luz da esperança, ou a luz no fim do túnel, como preferirem surgiu na pessoa de um tal de André Janones, deputado federal, que domina um terreno que a direita conhece bem: as redes sociais. Eu, particularmente, não gostava do Janones. E não gostava por que achava ele sensacionalista, que usava os mesmos métodos da extrema-direita.

Então, de repente, surgiu nas redes sociais essa cara, como um João Batista pregando no deserto e dizendo “Eu sou a voz que clama no deserto, endireitai os caminhos do presidente. Aquele que vem depois de mim é mais forte que eu”.

Ele criou um canal de WhatsApp chamado Exército do Lula, e lá ele era um valoroso general, e como um louco, dizia aos soldados, “Façam isso. Façam aquilo” ou “Não façam isso. Não façam aquilo”. E os comandados obedeciam. Afinal estávamos no meio de uma guerra e, numa guerra, os soldados obedecem ao general, que por sua vez obedece ao capitão, e tudo é pelo bem comum da nação.

Os soldados brasileiros que, no primeiro turno, haviam baixados a guarda e as armas achando que a batalha seria fácil de ser vencida, perceberam o perigo que corriam e puseram as armas em punho, começaram a executar os planos elaborados pelo general Janones para a batalha. E enquanto Flávio Bolsonaro praticava a arte da verborragia, os comandados de Janones, integrantes do Exército do Lula, cresciam dia a dia, eram milhares e foram se tornado milhões. E foram as ruas. Inundaram as ruas de um novo vigor, de uma nova esperança.

Eu ouvi o comando de Janones, “Se ainda não é inscrito, se inscreve agora no canal Exército do Lula”, e eu que não sou besta nem nada, fui correndo me inscrever. E fui pra rua, e gritei a plenos pulmões contra o fascismo a tirania, e em defesa da liberdade. Apesar de confiante, a angustia me dominava o peito. À noite, ia dormir bem tarde, não porque quisesse, mas por que pairava uma ameaça sobre os céus do meu país, e isso me tirava o sono.

Então os sinais foram aparecendo. O primeiro deles foi a luz da espiritualidade. Comecei a seguir canais de pessoas que jogavam búzios e tarô, oráculos milenares e sábios que a tanta gente já ajudou a achar o caminho na vida. E todos, sem exceção, diziam: “Lula ganha no segundo turno”.  “A vitória no segundo turno é de Lula”. Porém todos acrescentavam: “Vai ser uma vitória muito apertada”. Era essa última parte que não deixava a angústia ir embora de vez.

O segundo sinal veio das manifestações de rua. Um mar de gente na Avenida Paulista, em Copacabana, em Recife, em Belo Horizonte, e por aí vai. Eu via aquelas imagens pelas redes sociais e ficava incrédulo: “Será que isso é verdade, ou é inteligência artificial”, eu me perguntava.

Até que as manifestações passaram a ocorrer também na cidade em que moro, Campinas, SP. E foram três finais de semana seguidos, e a cada final de semana aumentava mais o contingente de soldados. Até que na última eu vi nas ruas aquele mar de gente que via nas redes sociais, e como Tomé botando o dedo na ferida de Jesus, eu acreditei. Pensei: Só vi tal coisa acontecer em 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente. E eu tive ainda mais certeza.

O terceiro sinal veio do Exército do Lula, das orientações de Janones. Ele dizia: “Com tal e tal engajamento, não tem como o presidente Lula perder a eleição. E olha que o Kássio Nunes tentou de todas as formas derrubar o canal. Não conseguiu. E nisso já éramos 10 milhões de soldados.

Então eu tive certeza da vitória do Lula. Mas mesmo tendo essa certeza, meu coração ainda estava angustiado, pois não via a hora daquilo tudo acabar. Na semana que antecedeu a eleição, eu já nem dormia direito. Não conseguia me concentrar nas atividades diárias. Mesmo assim, consegui reunir forças e escrever a postagem anterior para vocês.

Enfim, chegou o domingo, 25, dia da eleição. A batalha final. Acordei cedo e rumei para o local onde voto. Quando cheguei na seção eleitoral, já me bateu uma angústia no peito, uma vontade de chorar, e assim foi o dia todo, de quando em quando, me vinha aquela vontade de chorar.

À noite, fui à missa. Nem quis olhar resultado na Internet. Quando voltei da missa, liguei o som para não ter que ligar TV ou rádio e acompanhar a apuração. Estava nervoso demais. De dentro do apartamento, eu comecei a ouvir gritos na rua. Pensei que o Lula estava na frente, mas também podia ser o Flávio. Fiquei na expectativa, até que, ao final da apuração, o porteiro, a quem dissera mais cedo que não acompanharia a apuração, interfonou no meu apartamento, e me comunicou a frase mais esperada: Vencemos!

Um grito de vitória explodiu no meu peito. Na rua carros começavam a fazer buzinaço. Pessoas gritavam “Lula”. Então eu vesti minha camiseta vermelha “Lula Presidente” e saí às ruas para comemorar, junto à multidão que já começava a se formar em uma das grandes avenidas da cidade.

Voltei para casa, exatamente, à meia noite, a ponto de ligar a TV e ver outra multidão na Avenida Paulista. E em cima do carro de som, falando para milhões de soldados estava o valente capitão, Luís Inácio Lula da Silva, o nosso Lula.

E ao ir para a cama ainda não consegui dormir tão rápido. Fiquei pensando em quão difícil havia sido a batalha. Disputa de voto a voto, uma hora Flávio Bolsonaro estava na frente, outra hora era Lula. Mas, ao final, a virada chegou.

E fiquei pensando em como Lula é gigante. Fez história ao se eleger para um quarto mandato, sempre pelos braços do povo. Fez história por ser o primeiro a virar uma eleição tendo passado em segundo lugar no primeiro turno.

Tal como a história bíblica do pequeno pastor, Davi, que venceu o gigante Golias. Davi, usando apenas um cajado, cinco pedras lisas, e uma funda (arma rudimentar usada para atirar pedras a longa distância) conseguiu vencer o gigante Golias, Lula também teve que lutar contra gigantes.

A Meta foi um deles. Dona do Instagram, WhatsApp, e Facebook, a empresa usou diversas formas de interferir nas eleições, as doações financeiras que aportaram na campanha do Flávio, foram em numero infinitamente maior que para a campanha de Lula. Houve ainda os ricos e poderosos empresários da Faria Lima, os igualmente ricos e poderosos donos dos meios de comunicação, todos apostando na vitória do Flávio e, consequentemente, na derrota do Lula. Não esqueçamos do presidente e do vice-presidente do TSE, respectivamente, Kássio Nunes Marques e André Mendonça.

E na véspera da eleição e no dia o boicote de companhias áreas que cancelaram voos que se dirigiam para o Nordeste, forte reduto eleitoral de Lula, e prefeitos de algumas capitais que não colocaram ônibus suficiente nas ruas para o transporte de eleitores.

De outro lado, tal qual Davi, Lula só tinha Janones movimentando as redes sociais e o povo na rua, e isso foi suficiente para uma vitória retumbante.

Parado ali, no meio da multidão, na festa da vitória eu fiquei pensando: Era como nos dias em que o Brasil venceu Copas do Mundo. A alegria, a euforia, o peso saindo dos ombros, todo o sofrimento de uma batalha sendo compensado pelo vinho da alegria. E essa eleição era ainda mais importante do que qualquer mundial já ganho pela nossa seleção, afinal, o que estava em jogo era a nossa liberdade, e essa foi difícil reconquistar e não queremos correr o risco de perde-la jamais.

Então finalmente, as lágrimas puderam escorrer, livremente, pelo meu rosto. Mas não eram lagrimas de tristeza, mas de uma grande alegria. A alegria é contagiante em saber que estava participando da história, de uma página da história sendo escrita naquele momento. Senti orgulho desse cara chamado Luís Inácio Lula da Silva, ou, simplesmente, Lula. Orgulho de fazer parte dessa imensa nação brasileira, de ser parte desse povo forte e que não foge à luta.

O governo de Lula será um mar de rosa. Certamente, não. Afinal temos um congresso de extrema-direita, mas agora eles sabem que Lula não está sozinho, que há um exército de milhões de soldados ao lado dele.

Reparem que sempre usei durante todo o texto a palavra “batalha” e não “guerra”. Isso foi proposital, pois ainda há um inimigo a ser vencido, e esse inimigo se chama bolsonarismo. Essa doença, esse vírus que se assola o nosso país desde 2018. Eu sempre pensei que não era mais possível vencê-lo, mas essas eleições me encheram de esperança, pois me mostraram que não inimigo invencível quando há um povo forte, destemido, e disposto a vencer as adversidades, sejam elas que que tipo forem.

Ontem também é um dia especial. Dia do aniversário de Lula, que ganhou de presente mais um mandato. 81 anos bem vividos. Um homem com 81 anos com a disposição e o folego que ele tem não é para qualquer um.

Feliz Aniversário, presidente! Deus o abençoe!

O texto deveria terminar neste ponto, porém, ontem, à tarde, o Brasil foi surpreendido por uma notícia que impactou o país: a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. Logo após as eleições, o ministro do STF, Alexandre de Moraes pediu a apreensão dos passaportes de Flávio Bolsonaro.

O motivo foi que Flávio Bolsonaro é investigado em processo no qual Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz são investigados por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, em um suposto esquema que envolve as empresas de Tomaz e Bets. E nesse esquema rolou muita grana, talvez até mais que a grana, R$ 60 milhões que Flávio recebeu dizendo que ia para o filme Dark Horse, mas que na verdade, desconfia-se tenha ido para a conta dos Bolsonaros nos Estados Unidos.  

Reuters e NYT dizem que Flávio Bolsonaro está a caminho dos EUA | G1


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