0

Venturas e desventuras do 7 de Setembro

Posted by Cottidianos on 20:51

Campinas, 10 de setembro de 2026


Entre altos e baixos, avanços e retrocessos na economia e na política, e em meio a uma crise institucional gigantesca, que tem como epicentro o STF, chegamos a mais um de 7 de setembro, celebrado há apenas três dias.

Nas regiões Sul, Sudeste, e Centro-Oeste, o feriado chegou e trouxe junto com ele o frio intenso e céu nublado. Nem mesmo o sol se arriscou a mostrar seu brilho. Nenhum raio de sol atravessando as nuvens.

Ironicamente, o clima chuvoso e frio é um retrato em preto e branco da crise institucional pela qual atravessa o Judiciário Maior. Por lá o céu está cinzento, sombrio, clima pesado, e a previsão de tempo por lá anuncia raios e tempestades. Institucionalmente também está difícil os raios de sol da esperança romperem as pesadas nuvens e se derramar pelas cidades e campos da nação brasileira.


Voltemos as comemorações do 7 de setembro. Essa importante data cívica é marcada por eventos de três matizes principais; a cívica, a militar, e a social. Esta última é marcada por um movimento de grande significância chamado “Grito dos Excluídos”.

A sementinha que viria a da origem a esse movimento foi plantada entre 1993 e 1994.  Tempo no qual a Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil promoveu a Segunda Semana Social Brasileira. Participaram desse evento o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, e organizações sociais que trabalha com a promoção da justiça social. A semente plantada ficou em algum lugar no coração e na mente daqueles que participaram dessa semana social.

Em 1995 essa semente desabrochou, floresceu e deu frutos. Desde então essas manifestações ocorrem na Semana da Pátria e tem como ponto alto o feriado de 7 de setembro.

O Grito dos Excluídos é aquela voz profética que grita no alto da montanha e denúncia as inúmeras situações de desigualdade e exclusão pelas quais passam as pessoas menos favorecidas em nosso país. Ao mesmo tempo em que denuncia o movimento também aponta caminhos para uma sociedade mais justa.

Outro momento marcante no 7 de setembro são os desfiles dos militares da três Forças Armadas: Marinha, Exército e Aeronáutica. Perfilados, e orgulhosos eles desfilam altivos pelas ruas do país. Em algumas cidades também é possível ver no céu um show proporcionado pela Esquadrilha da Fumaça, cujas apresentações são de tirar o fôlego. Antes ou depois do desfile dos militares, também acontecem o desfile das escolas municipais. É bonito ver a garotada, concentrada, orgulhosa de fazer parte destes eventos. E eles são firmes; façam chuva, faça sol, frio ou calor lá estão eles desfilando.

E assim era o 7 de setembro: Uma data para celebrar o orgulho de ser brasileiro em evento marcado pela neutralidade partidária. Havia um alinhamento entre os três Poderes da República. O Grito dos Excluídos, apesar de ser um evento marcado por organizações de esquerda não representava, necessariamente, um movimento partidário.

A harmonia reinava nas mentes e corações brasileiros. Os brasileiros iam às ruas no 7 de setembro para ver misturada toda de movimentos cívicos-militares. E tudo era muito bonito. Até que esse cenário foi contaminado com a carga tóxica de Jair Bolsonaro. O ex-presidente e o Bolsonarismo se apropriaram do 7 de setembro e sequestraram os símbolos nacionais como fossem eles fossem coisa exclusivamente deles. Usar a bandeira do Brasil passou a ser sinônimo de ser bolsonarista, “patriota”. Até a camisa da seleção, que tanto orgulho já nos deu, eles se apropriaram. A amarelinha, carinhosamente usada pelos brasileiros nos jogos da Copa do Mundo, torneios sul-americanos, e em amistosos da seleção passou a ser usado pelos bolsonaristas para vestir uma ideologia que tem cor e jeito de fascismo.

Jair Bolsonaro foi eleito em fins de 2018 e, durante os quatro anos que durou o seu mandato, ele mudou a cara do 7 de setembro, incluiu nele mais um matiz, o político-partidária. Transformou as ruas pacíficas em arenas de guerra na qual eram atacados o Congresso Nacional e o STF e integrantes dessas instituições. Até sobrou ataques para as urnas eletrônicas e a defesa do voto impresso.

O primeiro 7 de setembro sob a regência de Bolsonaro aconteceu em 2019. O desfile ocorrido na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, ainda conseguiu passar um ar de normalidade, entretanto ali já começou as quebras de protocolos promovidas pelo presidente e que escalariam nos anos seguintes. Durante o desfile Bolsonaro desceu do carro oficial para caminhar entre a multidão, chegando até mesmo a convidar uma criança dentre o público presente para desfilar no carro oficial.


Em 2020, o mundo era acometido pela terrível peste da Covid 19, não sendo possível realizar os desfiles da forma tradicional, reunindo multidão nas ruas. A solução encontrada foi fazer uma cerimônia simples com hasteamento da bandeira nos jardins do Palácio da Alvorada, e a apresentação da esquadrilha da fumaça. 

Obviamente, Bolsonaro aproveitou a ocasião para criar polêmica ao criticar as políticas de isolamento social determinadas por prefeitos e governadores para conter o vírus. Na entrada da residência oficial haviam se reunido alguns negacionistas apoiadores do presidente, e indo contra as orientações dos profissionais da área de saúde, que recomendavam para aquele momento da história, isolamento social e uso de máscara, Bolsonaro foi até eles e com eles interagiu sem o uso de máscara.

No 7 de setembro de 2022 comemorava-se o Bicentenário da Independência. O país estava às vésperas de mais uma eleição presidenciável. O governo Bolsonaro usou de forma ostensiva a máquina estatal em prol da reeleição. Até o coração de D. Pedro I foi trazido de Portugal, cedido pelo governo português, veio parar no Palácio do Itamaraty. O desfile ocorreu, como de costume, na Praça dos Três Poderes. Porém, a poucos metros do palanque oficial foi posicionado um trio elétrico. Bolsonaro desceu do palanque oficial e, em seguida subiu no trio elétrico, e o que era evento oficial transformou-se em comício eleitoral.  

À tarde daquele mesmo dia, Bolsonaro foi ao Rio de Janeiro e lá, deslocou o desfile que tradicionalmente ocorria na Avenida Presidente Vargas, e o colocou na Orla de Copacabana, ponto de encontro das manifestações bolsonaristas, e mais uma vez, transformou evento oficial em comício.

Por essas e outras infrações cometidas Bolsonaro pagou um preço alto: a inelegibilidade. Em julgamento encerrado na tarde de sexta-feira, 30 de junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por maioria de 5 votos a 2, declarou a inelegibilidade de Bolsonaro.

O que mais pesou nessa decisão foi uma reunião no Palácio da Alvorada feita com a presença de embaixadores estrangeiros, em 18 de julho de 2021. Bolsonaro reuniu os embaixadores para atacar as urnas eletrônicas, e dizer que elas não eram confiáveis. Os ministros do TSE concluíram que houve por parte do então presidente, abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

Outra pena ainda mais dura viria em 11 de setembro de 2025, quando a Primeira Turma do Tribunal Superior Eleitoral, condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por participação na trama golpista. Foi a primeira vez que um ex-presidente foi condenado por golpe de estado.

E agora o filho de Bolsonaro concorre as eleições deste ano. Será que o Brasil cometerá o mesmo erro que em 2022? Será que abraçará o golpismo? Tempos estranhos e sombrios este em que vivemos.


0 Comments

Postar um comentário

Copyright © 2009 Cottidianos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive. Distribuído por Templates