Venturas e desventuras do 7 de Setembro
Campinas, 10 de setembro de 2026
Entre altos e baixos, avanços e
retrocessos na economia e na política, e em meio a uma crise institucional
gigantesca, que tem como epicentro o STF, chegamos a mais um de 7 de setembro,
celebrado há apenas três dias.
Nas regiões Sul, Sudeste, e Centro-Oeste,
o feriado chegou e trouxe junto com ele o frio intenso e céu nublado. Nem mesmo
o sol se arriscou a mostrar seu brilho. Nenhum raio de sol atravessando as
nuvens.
Ironicamente, o clima chuvoso e frio é um
retrato em preto e branco da crise institucional pela qual atravessa o
Judiciário Maior. Por lá o céu está cinzento, sombrio, clima pesado, e a
previsão de tempo por lá anuncia raios e tempestades. Institucionalmente também
está difícil os raios de sol da esperança romperem as pesadas nuvens e se
derramar pelas cidades e campos da nação brasileira.
Voltemos as comemorações do 7 de setembro.
Essa importante data cívica é marcada por eventos de três matizes principais; a
cívica, a militar, e a social. Esta última é marcada por um movimento de grande
significância chamado “Grito dos Excluídos”.
A sementinha que viria a da origem a esse
movimento foi plantada entre 1993 e 1994.
Tempo no qual a Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil promoveu a Segunda Semana Social Brasileira. Participaram desse evento o
Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, e organizações sociais que trabalha com
a promoção da justiça social. A semente plantada ficou em algum lugar no
coração e na mente daqueles que participaram dessa semana social.
Em 1995 essa semente desabrochou,
floresceu e deu frutos. Desde então essas manifestações ocorrem na Semana da
Pátria e tem como ponto alto o feriado de 7 de setembro.
O Grito dos Excluídos é aquela voz
profética que grita no alto da montanha e denúncia as inúmeras situações de
desigualdade e exclusão pelas quais passam as pessoas menos favorecidas em
nosso país. Ao mesmo tempo em que denuncia o movimento também aponta caminhos
para uma sociedade mais justa.
Outro momento marcante no 7 de setembro
são os desfiles dos militares da três Forças Armadas: Marinha, Exército e
Aeronáutica. Perfilados, e orgulhosos eles desfilam altivos pelas ruas do país.
Em algumas cidades também é possível ver no céu um show proporcionado pela Esquadrilha
da Fumaça, cujas apresentações são de tirar o fôlego. Antes ou depois do
desfile dos militares, também acontecem o desfile das escolas municipais. É bonito
ver a garotada, concentrada, orgulhosa de fazer parte destes eventos. E eles
são firmes; façam chuva, faça sol, frio ou calor lá estão eles desfilando.
E assim era o 7 de setembro: Uma data para
celebrar o orgulho de ser brasileiro em evento marcado pela neutralidade
partidária. Havia um alinhamento entre os três Poderes da República. O Grito
dos Excluídos, apesar de ser um evento marcado por organizações de esquerda não
representava, necessariamente, um movimento partidário.
A harmonia reinava nas mentes e corações
brasileiros. Os brasileiros iam às ruas no 7 de setembro para ver misturada
toda de movimentos cívicos-militares. E tudo era muito bonito. Até que esse
cenário foi contaminado com a carga tóxica de Jair Bolsonaro. O ex-presidente e
o Bolsonarismo se apropriaram do 7 de setembro e sequestraram os símbolos
nacionais como fossem eles fossem coisa exclusivamente deles. Usar a bandeira
do Brasil passou a ser sinônimo de ser bolsonarista, “patriota”. Até a camisa
da seleção, que tanto orgulho já nos deu, eles se apropriaram. A amarelinha,
carinhosamente usada pelos brasileiros nos jogos da Copa do Mundo, torneios
sul-americanos, e em amistosos da seleção passou a ser usado pelos
bolsonaristas para vestir uma ideologia que tem cor e jeito de fascismo.
Jair Bolsonaro foi eleito em fins de 2018
e, durante os quatro anos que durou o seu mandato, ele mudou a cara do 7 de
setembro, incluiu nele mais um matiz, o político-partidária. Transformou as
ruas pacíficas em arenas de guerra na qual eram atacados o Congresso Nacional e
o STF e integrantes dessas instituições. Até sobrou ataques para as urnas
eletrônicas e a defesa do voto impresso.
O primeiro 7 de setembro sob a regência de
Bolsonaro aconteceu em 2019. O desfile ocorrido na Esplanada dos Ministérios,
em Brasília, ainda conseguiu passar um ar de normalidade, entretanto ali já
começou as quebras de protocolos promovidas pelo presidente e que escalariam
nos anos seguintes. Durante o desfile Bolsonaro desceu do carro oficial para
caminhar entre a multidão, chegando até mesmo a convidar uma criança dentre o
público presente para desfilar no carro oficial.
Em 2020, o mundo era acometido pela
terrível peste da Covid 19, não sendo possível realizar os desfiles da forma
tradicional, reunindo multidão nas ruas. A solução encontrada foi fazer uma
cerimônia simples com hasteamento da bandeira nos jardins do Palácio da
Alvorada, e a apresentação da esquadrilha da fumaça.
Obviamente, Bolsonaro aproveitou a ocasião
para criar polêmica ao criticar as políticas de isolamento social determinadas
por prefeitos e governadores para conter o vírus. Na entrada da residência oficial
haviam se reunido alguns negacionistas apoiadores do presidente, e indo contra
as orientações dos profissionais da área de saúde, que recomendavam para aquele
momento da história, isolamento social e uso de máscara, Bolsonaro foi até eles
e com eles interagiu sem o uso de máscara.
No 7 de setembro de 2022 comemorava-se o
Bicentenário da Independência. O país estava às vésperas de mais uma eleição
presidenciável. O governo Bolsonaro usou de forma ostensiva a máquina estatal
em prol da reeleição. Até o coração de D. Pedro I foi trazido de Portugal,
cedido pelo governo português, veio parar no Palácio do Itamaraty. O desfile
ocorreu, como de costume, na Praça dos Três Poderes. Porém, a poucos metros do
palanque oficial foi posicionado um trio elétrico. Bolsonaro desceu do palanque
oficial e, em seguida subiu no trio elétrico, e o que era evento oficial
transformou-se em comício eleitoral.
À tarde daquele mesmo dia, Bolsonaro foi
ao Rio de Janeiro e lá, deslocou o desfile que tradicionalmente ocorria na
Avenida Presidente Vargas, e o colocou na Orla de Copacabana, ponto de encontro
das manifestações bolsonaristas, e mais uma vez, transformou evento oficial em
comício.
Por essas e outras infrações cometidas Bolsonaro
pagou um preço alto: a inelegibilidade. Em julgamento encerrado na tarde de
sexta-feira, 30 de junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por
maioria de 5 votos a 2, declarou a inelegibilidade de Bolsonaro.
O que mais pesou nessa decisão foi uma
reunião no Palácio da Alvorada feita com a presença de embaixadores
estrangeiros, em 18 de julho de 2021. Bolsonaro reuniu os embaixadores para
atacar as urnas eletrônicas, e dizer que elas não eram confiáveis. Os ministros
do TSE concluíram que houve por parte do então presidente, abuso de poder
político e uso indevido dos meios de comunicação.
Outra pena ainda mais dura viria em 11 de
setembro de 2025, quando a Primeira Turma do Tribunal Superior Eleitoral,
condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por participação na trama
golpista. Foi a primeira vez que um ex-presidente foi condenado por golpe de
estado.
E agora o filho de Bolsonaro concorre as eleições deste ano. Será que o Brasil cometerá o mesmo erro que em 2022? Será que abraçará o golpismo? Tempos estranhos e sombrios este em que vivemos.








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