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Brasil político: um barco à deriva

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:26
Domingo, 15 de outubro


Antes de irmos para os caminhos tortos da política, lembremos que na madrugada deste sábado para domingo, começou o horário de verão. Portanto não esqueça de adiantar o seu relógio em uma hora, se você mora nos seguintes estados brasileiros da regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste; São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. O horário de verão vigora até 18 de fevereiro de 2018.
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Quando se pensa na atual conjuntura política brasileira não se pode deixar de refletir sobre o quão atrasados, não em termos das bases estruturais da democracia, nem sobre o funcionamento das instituições. Vivemos em país democrático é verdade. Nele, os órgãos institucionais governamentais, bem ou mal, funcionam e exercem seu papel dentro da máquina burocrática. As liberdades dos cidadãos não são tolhidas como em muitos outros países.
Não se questiona o sistema democrático brasileiro, mas a qualidade dos líderes que o compõem. De repente, descobrimos que dentro do mais profundo das máquinas que regem o nosso regime democrático, instalaram-se políticos que não usam mais o dialogo com a sociedade e com suas bases para fazer política, mas sim, que dentro desse valioso maquinário democrático, instalaram-se pessoas dispostas a retirar dos cofres públicos até o último níquel para satisfazer suas necessidades mesquinhas.
No atual cenário político, se pudéssemos comparar a política a uma empresa, teríamos uma empresa a beira da falência, agonizando, por causa da ingerência, e de pessoas que, simplesmente, não sabem mais o que é o fazer política, e, por causa dessa gente que apenas sabe fazer negociata, é preciso repensar toda uma estrutura. Mas esse repensar toda uma estrutura não pode se dar apenas dentro das quatro paredes do Congresso Nacional, pois lá, se há pessoas interessadas em que o Brasil seja passado à limpo, essas são pouquíssimas.
A maioria dos políticos que lá estão apenas preocupam-se com três coisas: salvar a própria pele, salvar a pele dos companheiros de negociatas escusas, e preservar os privilégios obtidos através dessa nefasta rede de propinas que costura os bastidores do jogo sujo da política.
O repensar uma mudança no Brasil deveria passar por um diálogo com toda a sociedade. Coisa que não tem sido feito. O povo tem sido, claramente, deixado de lado na aprovação de grandes reformas que lhes afetam diretamente.
Isso apenas mostra que há em nossa sociedade um grande divórcio entre as instituições e a sociedade. Os nossos legisladores não legislam para a sociedade. Os nossos governos não governam para o povo.
Isso é o que nos mostra o desenrolar das investigações da Lava Jato. Mostram-nos essas investigações que há sim uma parcela ínfima da população que é beneficiada por aqueles que fazem as leis em nosso país, e é justamente, a parcela mais abastada dentre o povo brasileiro, a que detém a maior fatia do bolo, a que merece mais atenção dos nossos políticos.
Tem-nos mostrado as investigações que a Câmara dos Deputados, bem como Senado Federal tem se tornado verdadeiros balcões de negócios do crime, no qual se vendem leis e medidas provisórias para as grandes corporações empresariais em troca de abastecer o caixa dos partidos e o bolso de seus integrantes com gordas propinas. Como diz o grande cacique desse mundo empresarial desonesto, Emílio Odebrecht, o empresariado brasileiro não sabe o que é de fato uma concorrência honesta, e quando eles queriam que eles aprendessem o de fato isso significava, enviavam seus subordinados ao exterior. É triste constatar isso, mas foram palavras que saíram da boca do empresário em delação premiada.
O atual presidente Michel Temer, conseguiu barrar a primeira denúncia contra ele na Câmara dos Deputados, à custa de muito dinheiro, e não se dúvida nada que consiga barrar também a segunda. Se os atores são os mesmos, se os nada republicanos métodos usados pela presidência da República são os mesmos, então é de se esperar que o resultado seja o mesmo: mais uma denuncia contra o presidente, arquivada.
Se Dilma não tinha dialogo com o Congresso, Temer ao contrário, tem um dialogo intenso com a referida instituição. São reuniões e mais reuniões, encontros às escondidas, distribuição de rios de dinheiro, principalmente quando se trata de defender os próprios interesses.
Porém, falta a Temer um dialogo com a sociedade. O nosso presidente não dialoga com os setores sociais, ele impõe. Impõe reformas, impõe medidas, e por aí vai. Talvez a noção que o presidente tem de pátria brasileira seja apenas sua cozinha em Brasília na qual são formados os conchavos que deixariam ruborizados até mesmo os grandes mestres na arte da propina.
Resumindo, o cenário político atual é devastador. Devastador pela falta de lideranças comprometidas de verdade com a nação brasileira. Como diria o poeta Cazuza, na canção, Ideologia: “meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”.
O problema quando não tem se referencias de comando é, num ato de revolta, acabar caindo em uma enrascada maior ainda. Por exemplo, em um possível cenário para a corrida presidencial em 2018, despontam como líderes Lula — mesmo apesar de sua condenação pelo Juiz Sérgio Moro, a nove anos e seis meses de prisão — e Bolsonaro em respectivos primeiro e segundo lugar nas pesquisas eleitorais. Ora senhores e senhoras, Lula e Bolsonaro, não são alternativa, são ameaças.
A respeito do primeiro a intenção subliminar é esconder-se no manto da justiça para escapar dos crimes dos quais é acusado. E, quanto ao segundo, com suas ideias revolucionárias, sabe lá o que pode acontecer se ele chega ao poder.
Vamos ao Aécio. O senador afastado, Aécio Neves. O senado julga na próxima terça-feira, 17 o afastamento do senador. No dia 26 de setembro, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu afastar novamente o senador por três votos a 2. Esse mesmo STF, depois de muita polêmica, decidiu na quarta-feira (11), que é do Legislativo a palavra final sobre a suspensão de mandato de parlamentares pelo Judiciário.
Os ministros entenderam que as medidas cautelares contra parlamentares podem ser adotadas, mas a maioria decidiu que essas medidas só podem se tornar efetivas com o aval da Câmara ou do Senado.
O Senado articulava uma votação sigilosa para apreciar o caso de Aécio Neves. Porém, a Justiça Federal de Brasília determinou que fosse proibido fazer votação secreta no caso de Aécio. A decisão do juiz Márcio Luiz Coelho de Freitas se apoia no argumento de que a votação secreta seria danosa à moralidade administrativa.
Agora é aguardar e ver como se comportam os senadores nessa votação. Pela movimentação dos últimos dias a intenção deles é a de salvar o mandato do senador. Aécio Neves é acusado de pedir e receber R$ 2 milhões da JBS para pagar sua defesa na Lava Jato.
Um depoimento que também teve grande repercussão para fechar a semana, foi o do doleiro Lúcio Funaro. Funaro cita o nome de parlamentares do PMDB no esquema de corrupção, e do próprio presidente Michel Temer. São muitas histórias de corrupção contadas pelo doleiro em mais de 13 horas de gravação. Lúcio Funaro, era para o PMDB o que Marcos Valério era para o PT: o operador de um esquema criminoso e fraudulento.
Funaro cita nomes que são muito próximos do presidente Michel Temer, como o ex-deputado, Eduardo Cunha, e os ex-ministros Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima.
Na delação o doleiro fala ainda da propina paga ao atual presidente Michel Temer, do esquema de propina montado na Caixa Econômica Federal pelo grupo do PMBD, da atuação coordenada de Eduardo Cunha como intermediário no mundo dos negócios ilícitos, e da compra de parlamentares para aprovar leis que beneficiassem empresas.
E assim vai se desenvolvendo o governo Temer, um governo que ainda não governou de fato, e apenas vive de se defender das acusações que o jogam diretamente no mar de lama da corrupção.

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Repensando caminhos para um mundo de paz

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:07
Domingo, 08 de outubro

Ascolta il tuo cuore se batte,
guarda dove corri e fermati,
Ascolta il dolore del mondo
Siamo persi per la via
Orfani di vita
Macchine da guerra
Ma perché?
(Macchine da Guerra – Andrea Bocelli)

Por hoje, fujamos um pouco do mundo cão da política, e falemos um pouco de paz. Creio que os acontecimentos violentos dos últimos dias, no Brasil, e no exterior, nos inspirem a isso.

O texto abaixo é inspirado em três canções: Sunshine on My Shoulders, Macchine da Guerra, e Heal The World, interpretadas respectivamente por: John Denver, Andrea Bocelli, e Michael Jackson.

É um texto que não se pretende longo, mas que pretende dizer algo e espero que diga.

***



Repensando caminhos para um mundo de paz

Coisa maravilhosa é sair pelas ruas dos campos ou das cidades em dia radiante de sol, e sentir o brilho do astro rei sobre os nossos ombros. Incidindo sobre os olhos o brilho ofuscante do sol nos faz chorar. Incidindo sobre as águas é puro balé da natureza. Fazendo-nos chorar ou sorri com o seu espetáculo sobre as águas, o brilho radiante do sol nos faz sentir vivos.

Deveríamos acordar todos os dias e ter a sensação de que estaríamos sempre experimentado a maravilha de olhar o mundo pela primeira vez, pois a primeira vez sempre nos encanta, nos extasia. Depois vamos nos acostumando às coisas e tudo passa a ser rotina e o que era extraordinariamente belo se torna coisa corriqueira.

Assim como deveríamos renovar, dia a dia, nosso olhar sobre o mundo, deveríamos remoçar nosso olhar sobre o amor, sobre o homem amado, sobre a mulher amada, sobre os filhos, sobre os ideais. Amor que se torna rotina acaba morrendo como flor que seca no jardim a espera de uma gota d’água que lhe torne de novo resplendorosa.

Afora, os acidentes naturais que nos pegam de surpresa, como os furacões e tempestades, o mundo sempre foi belo e continua sendo — mesmo e apesar da ação danosa do homem sobre o clima. O sol continua se levantando no leste e se deitando no oeste. Isso há séculos. Por certo que ele está um pouco tórrido, também devido aos efeitos climáticos. É como se o homem com sua falta de bom senso continuasse, ano após ano, cutucando, provocando, o astro rei. E se ele se zanga, como tem dado mostras de que está ficando zangado, aborrecido, então, por certo, jogará suas flechas de fogo sobre a terra e... era uma vez um planeta.

Assim com o sol, assim também com a lua e seu séquito de estrelas. Ela continua servindo de inspiração para os poetas e trovadores. Solta e leve no ar como uma pluma dourada ela nos olha, nos espia, de longe, suspira por nós, ou será que nos implora para que façamos algo para salvar o planeta?

Guerras sempre existiram. O mal sempre existiu. Assim como também sempre existiram a paz e o bem. Talvez um dia o mundo já tenha sido um jardim do Éden, no qual tudo funcionava em plena paz e harmonia, mas estes dias parecem muito longínquos e distante. A serpente parece ter enganado o homem com o veneno do poder e lhe disse que ele poderia ser maior que Deus. E o que é pior é que o homem parece ter acreditado nisso, e, talvez, quem sabe, esse tenha sido a derrocada do paraíso.

E, como um Deus desastrado, às avessas, o homem criou armas para destruir e remédios para curar. Criou aviões para encurtar as distâncias e fez, desses mesmos aviões, armas de matar uns aos outros. Em um mesmo ambiente, e no mesmo plano ergueu castelos e favelas, mostrando um imenso desnível social, e o chão que está desnivelado, desequilibrado está, e onde há desequilíbrio falta harmonia, e onde falta a harmonia impera a inquietação, a angústia, o desespero, e a violência.

Misturado a tudo isso veio a correria dos tempos modernos. Como uma máquina o homem corre para cá e para lá o dia inteiro, o mês inteiro, o ano inteiro. Tornou-se peça de um sistema que não o deixa parar. Se parar, torna-se peça gasta e tendente a ser excluída do funcionamento da grande máquina capitalista.

Sem tempo para nada mais nada, imerso no trabalho, nos estudos, nos Whats e Faces, o homem se esqueceu de que é homem, humano, natural, finito. Esqueceu de que há um sol que nasce todos os dias para iluminar-lhe, e depois se despede para que venha a noite para lhe dar descanso. Esqueceu-se de olhar para o céu imenso e contemplar a beleza dos astros e estrelas que luzem em galáxias distantes, mas que parecem tão próximas.

E o que é pior, esquecendo de olhar a natureza, o ser humano esqueceu-se de olhar para o outro, seu semelhante, e reconhecer nele um igual. E esquecendo-se de que o outro é um semelhante, um igual, tornou-se máquina de guerra.

Tendo se tornado máquina de guerra, instalou-se na raça humana, uma grande confusão dentro, e ao redor de nós. Talvez a confusão não seja culpa nem minha nem sua, nem deste ou daquele, mas ela se instalou de tal que forma que deu um nó nas relações sociais que está difícil de desatar.

Fragilizadas as relações interpessoais é como se caminhássemos como nossos pés descalços sobre vidros quebrados, esfacelados, ou ainda que nos tocássemos uns aos outros com mãos sujas.

É como se a sociedade fosse uma grande casa de máquinas com as peças desgastadas. Os costumes estão danificados, fragilizados, para onde quer que se olhe vê-se um rio do corrupção correndo livre e abundantemente, em todos os setores sociais: na política, na polícia, nos hospitais, nas escolas, na igreja. Não escapa nenhuma instituição, pois cada instituição é formada por homens e mulheres nem sempre de boa vontade. Com as instituições fragilizadas, todo gesto, até mesmo os de solidariedade parecem fracos, vagos, dissociados de seu real objetivo.

Não podemos caminhar assim, à mercê da própria sorte, e sendo joguetes dos fatos e acontecimentos diários. Devemos escutar nosso coração e fazer um esforço maior ainda para ouvir o coração do outro que caminha ao nosso lado. Ele está batendo? O sangue que bombeia é sangue ou veneno? Temos de nos encontrar urgentemente enquanto raça humana. Não podemos caminhar por aí como se fossemos órfãos de vida, propensos a nos tornar máquinas de guerra.

O mundo está parecendo um ancião velho e doente para o qual é preciso urgentemente um remédio eficaz que lhe traga a cura. Assim como também é preciso procurar com afinco a fonte da juventude que lhe traga rejuvenescimento.

O mundo está assim, mas o mundo não passará, bem ou mal ele permanecerá, nós é que passamos. E por isso, é preciso buscar uma cura para nós mesmo, uma fonte de rejuvenescimento para nossos pensamentos envelhecidos e retorcidos pelo preconceito e pela falta de bom senso. É preciso abrir um pequeno espaço, não precisa ser muito grande, mas o suficiente para plantar dentro dele as sementes do amor e da paz. Isso se você se importa com mundo. Isso se você não quiser naufragar no meio da confusão moderna.

Não podemos ter medo de nadar contra a corrente, de parecer diferente ao afirmar que queremos viver em um mundo de paz. Paz não é utopia como muitos pensam e defendem em suas teorias filosóficas, pois paz é um sentimento que brota de cada coração, e quando os corações se juntam em um mesmo sentimento nobre tornam-se como chuva fininha a irrigar o solo e deixá-lo pronto para produzir alimentos da melhor qualidade.

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Suseranos, vassalos e camponeses no feudo Brasil

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:16
Domingo, 01 de outubro

“- Somos soldados.
- Não, não são.
Soldados lutam por uma causa.
Vocês não têm uma.
Isso os torna larápios.
Ladrões comuns.

(frase do filme Hobin Hood)


Eles lotearam o Brasil. Fizeram do Brasil um grande feudo, e se proclamaram reis quando eram apenas servidores da nação. E na indevida condição a que se alçaram esqueceram que vieram para servir e mentiram e enganaram e roubaram.
Convido-os a viajar para tempos longínquos, até a Idade Média, terra de castelos, reis e princesas que ainda hoje povoam o imaginário popular, e inspiram sonhos, filmes, e jogos... Uma era de sonhos e magia... Ah, mas não se enganem. A vida naqueles tempos não era nada fácil se comparados aos tempos moderno. O conforto era quase inexistente. Idem para tecnologia. Obviamente os mais abastados tinham seus privilégios, mas o cenário geral era comum a todos.
Em nossa viagem imaginária para a Idade das Trevas, como também é conhecida essa época, podemos vislumbrar grandes quantidades de terra... Terra a perder de vista. São os feudos. Estas terras estavam sempre sob o domínio de nobres que detinham a posse delas, e era por isso eram chamados senhores feudais.
Havia duas maneiras de se adquirir um feudo: por herança familiar ou por doação de outro senhor feudal. Aquele que doava recebia o nome de suserano e quem recebia era o vassalo. Deixemos de lado a primeira forma e nos concentremos na segunda.
A terra, o feudo era doado entre “aspas”, pois aquele que recebia a doação, o vassalo, precisava firmar um pacto militar com o suserano em caso de guerra com outros senhores feudais. Na verdade, recebia-se a doação de um feudo na qual estava implícita um pacto de lealdade.
Ah, não nos esqueçamos dos famosos castelos com suas torres e fortalezas, que até hoje povoam o imaginário popular. Era ele o centro de poder econômico e político.
Ainda no feudo habitavam os camponeses pobres: o elo mais fraco da corrente. Hoje, diríamos os explorados, os esmagados na base da pirâmides. Aqueles dos quais eram vertidos suor e sangue para bancar o luxo dos poderosos.
Esses tinha uma vida muito difícil e o horizonte e o norte que enxergavam pela frente não lhes vislumbravam grandes possibilidades de mudanças ou melhorias. Era mais ou menos assim: eles olhavam e olhavam e o que viam era apenas um horizonte cinzento.
Além dos parcos recursos que experimentavam, esses ainda contavam com a vigilância diária e severa do senhor feudal. Pobres camponeses... Trabalhavam a terra para enriquecer o senhor feudal. Enquanto isso, havia uma família em casa precisando de cuidados, havia uma casa a manter, habitação essa que, em geral era precária e fria, que facilmente se deteriorava com o decorrer do tempo.
Por causa dessa relação injusta entre senhor feudal e camponeses havia muitas revoltas destes últimos que ora fugiam para as florestas e atacavam as caravanas dos nobres, ora fugiam para outros feudos em busca de melhores condições de vida.
Os camponeses estavam perto da realeza, mas abandonados à própria sorte em uma época em que não havia hospitais, nem escolas, nem delegacias, ou qualquer benesse que lhes pudesse ser um alívio na caminhada.
Finalizemos nossa breve e fantástica viagem pelos tempos dos reis, princesas, suseranos, vassalos, camponeses pobres, e como num passe de mágica voltemos ao nosso tempo presente, mais precisamente ao nosso barco chamado, Brasil.
Depois dessa nossa curta estada em uma época completamente diferente da nossa, voltemos ao presente e façamos um paralelo e nos parecerá que já se vão longe os tempos em que os castelos eram o centro do poder econômico e político — excetuando umas poucas nações onde isso ainda ocorre — entretanto as estruturas antigas parecem ter reencarnado nas estruturas atuais, até mesmo dos países ditos democráticos.
Em nossa pátria, não temos castelos como centro de poder, mas temos o Palácio do Planalto, e temos o Congresso Nacional.
O Brasil, em seu imenso território, com mais de 207 milhões de habitantes e seus 8.516.000 km2 é um enorme feudo.
O presidente da República, em nosso paralelo com o tempo dos feudos, funcionaria como o nobre que é dono do feudo, e os deputados, senadores, e empresários como os vassalos. 
Aqui tudo parece funcionar na base do “toma-lá-dá-cá”. O suserano doa, oferece vantagens, mas em troca espera e exige lealdade.  
O povo, principalmente, a parcela da população mais necessitada, assemelha-se aos camponeses pobres que eram explorados pelo dono do feudo. Os camponeses de hoje pagam fortunas ao dono do feudo (o Estado) em impostos e não ver retorno do pagamento dessas taxas. Em muitas localidades desse imenso rincão chamado Brasil — principalmente, naquelas áreas esquecidas pelo Estado — não há escolas, e os alunos tem que caminhar a pé por quilômetros se quiserem chegar a elas. Nessas áreas, quando há transporte, ele é muito precário. E quando há escolas elas chegam a dar vergonha em que tem consciência do que é educação e do que ela representa para uma sociedade que se pretende desenvolvida. Idem para os hospitais públicos
Um pequeno exemplo. Mau exemplo. O telejornal matinal, Bom Dia Brasil, mostrou uma reportagem em 22 de setembro, que mostrava uma escola interior da Bahia improvisada, pasmem os senhores e senhoras, dentro de um açougue. Isso mesmo aquele estabelecimento comercial no qual vamos comprar as carnes saborosas que deliciam nosso paladar.
Durante a semana funciona a escola e no domingo, o açougue. Nela estudam alunos entre 8 e 13 anos de idade, filhos de camponeses pobres da região. Essa situação perdura já há quatro meses quando a prefeitura transformou o espaço no qual a escola funcionava em creche. A prefeitura resolveu então mudar a escola para o açougue. Em meio a giz e quadro negro, também improvisado, ficam ganchos, freezers, e troncos de madeira. A instalação elétrica é deficitária. Nem banheiro há na escola. Os alunos usam um banheiro público próximo à ela. Procurado pela equipe de reportagem, o secretário municipal de educação afirmou que, no máximo dentro de dias, a situação seria sanada. Uma vergonha, pois a manifestação do secretário só foi expressada depois da denúncia e de saber que a situação daquelas pobres crianças seria mostrada em rede nacional.
Na Idade Média não havia meios de reagir ao poder militar do senhorio, mas hoje há a arma do voto. Porque não usá-la?
Outro exemplo que mostra essa relação de vassalagem entre o governo o Congresso foi o que aconteceu durante a primeira denúncia contra o presidente Temer quando ela chegou à Câmara dos Deputados. Naquela ocasião, o governo liberou milhões de reais para os deputados que votassem contra o prosseguimento da denúncia.
Apenas no mês de julho deste ano, foram liberados cerca de R$ 134 milhões em emendas parlamentares. Isso sem contar nos cargos que foram oferecidos pelo governo aos partidos. Os deputados usaram como desculpa para votar contra o prosseguimento da denúncia, desculpas hipócritas e demagógicas, afirmando que faziam aquilo pelo bem do Brasil e para não prejudicar ainda mais a economia.
Agora, quando da apresentação de segunda denúncia, as coisas parecem caminhar no mesmo rumo. Levantamento feito pelo partido Rede Sustentabilidade mostra que o governo liberou nesse mês de setembro, e já no segundo dia da denuncia, cerca de R$ 65 milhões de reais em emendas parlamentares. Com certeza voltará também o balcão de negócios de cargos no governo.
Isso faz lembrar uma frase do empresário corrupto Joesley Batista. O empresário disse em entrevista à revista Veja, quando do estouro do escândalo das gravações comprometedoras dele com Michel Temer, que o presidente é uma pessoa sem escrúpulos quando se trata de falar de dinheiro. Hoje, vemos que o presidente parece ser sem escrúpulos também quando se trata de se manter no poder a qualquer custo. Não estranhem os senhores e senhoras se, mais uma vez, a Câmara dos Deputados votar contra o não prosseguimento da denúncia.
Ontem, o presidente se reuniu com aliados para definir estratégias de defesa, quando na verdade, e sem querer fazer trocadilhos, a melhor estratégia de defesa é a verdade. Uma sutil estratégia de defesa de Temer foi transformar a  Secretária-Geral da Presidência da República, em ministério, o que garantiu a Moreira Franco, o status de ministro. O fato se deu em final de junho deste ano. Moreira Franco também é citado nas denuncias de corrupção que atingem o governo.
E essa transformação do Brasil em feudo não se deu agora com o presidente Michel Temer. Antes tivesse sido assim. Seria bem mais fácil acabar com essa prática nefasta. Ao contrario, ela já vem desde os tempos do então presidente Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, se bem que maneira ainda tímida, e ganhou corpo e força durante os governos petistas de Lula e Dilma.
Falando do ex-presidente, em vídeo que circula pelo Whattsapp, ele, em discurso, afirma coisas estarrecedoras, dessas de deixar os cabelos em pé. No vídeo não há data definida, e nele Lula afirma que as pessoas devem se filiar ao PT porque o PT precisa convencer as pessoas a negar a política. “fascismo, nazismo, qualquer outra coisa, menos democracia” afirma ele, no que parece ser uma palestra para seus seguidores.
Lula diz ainda no vídeo que se deve discutir política cultural apenas em época de eleição, pois “o que menos interessa é o país”, diz ele. “Então o que eu queria sugerir ao partido: qualquer outra coisa, menos democracia”, continua ele.
O que esperar de um ex-presidente com esse tipo de pensamento, caros leitores e leitoras? É desse tipo de pessoa no meio político que a população brasileira precisa se livrar o mais rápido possível. Não podemos mais deixar o Brasil nas mãos de quadrilhas que tomam de assalto o Estado brasileiro, sejam elas de esquerda, de centro, de situação ou de oposição.
Por falar em oposição, faz tempo que ela deixou de existir no Brasil em seu sentido pleno. A oposição que se faz hoje ao governo é coisa de fachada, coisa “pra inglês ver”, como diz o ditado popular.
Ora, você já viram organizações criminosas se acusarem mutuamente em público, e uma denunciar a outra à justiça. Não isso não acontece. Por mais que sejam discordantes, as organizações criminosas agem dentro de um padrão “ético”.
Por acaso, algum dos senhores e senhoras, em meio a toda essa explosão de escândalos de corrupção, de malas de dinheiro que viajam pelo país, da dinheirama distribuída em propina, algum dos senhores e senhoras, já viu, por exemplo, Temer acusar Lula, Lula acusar Aécio, Aécio condenar a Dilma em público? O PSDB até apresentou um recurso para tornar invalida as eleições presidências de 2014, mas era tudo fachada, e o interesse no processo acabou quando Dilma sofreu impeachment, e o partido ganhou sua fatia de poder no governo Temer.
As organizações se protegem umas às outras porque todas usam dos meios nefastos de ação. É triste perceber que no Brasil atual partidos políticos se transformaram em organizações criminosas.
Também achei interessante, compartilhar com os leitores e leitoras, a carta escrita pelo ex-integrante do PT e um dos homens de confiança de Lula e Dilma. A carta de desfiliação de Antonio Palocci do Partido dos Trabalhadores, liga Lula à corrupção. É um documento importante para compreender mais uma parte importante do momento político pelo qual o PT atravessa.
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Carta de desfiliação de Antonio Palocci do PT, íntegra.

Antonio Palocci

 Senhora Presidente, (presidente do PT, Gleise Hoffmann)
Soube pela imprensa da abertura do processo disciplinar pelo PT-RP, bem como de minha suspensão pelo Diretório Nacional por 60 dias. Confesso minha estranheza sobre o conteúdo do referido processo. Neste último período, havia me preparado para enfrentar junto ao partido um procedimento de natureza ética frente à recente condenação que sofri na 13ª Vara Federal de Curitiba, pelo DD. Juiz Sérgio Fernando Moro. Pensava ser normal que o partido procurasse saber as razões que levaram a tal condenação e minhas eventuais alegações. Mas nada recebi sobre isso.
Recebo agora as notícias de abertura de procedimento ético em razão das minhas declarações no interrogatório judicial ocorrido no último dia 6/9/2017, sobre ilegalidades que cometi durante os governos de nosso partido.
O procedimento questiona minhas afirmações a respeito do ex-presidente.
Sobre isso, tenho a dizer que:
1) Há alguns meses decidi colaborar com a Justiça, por acreditar ser este o caminho mais correto a seguir, buscando acelerar o processo em curso de apuração de ilegalidades e de reformas na legislação de procedimentos públicos e na legislação partidária-eleitoral, que reclamam urgente modernização.
2) Defendo o mesmo caminho para o PT. Há pouco mais de um ano tive oportunidade de expressar essa opinião de uma maneira informal a Lula e Rui Falcão, então presidente do PT, que naquela oportunidade transmitia uma proposta apresentada por João Vaccari, para que o PT buscasse um processo de leniência na Lava Jato.
3) Estou disposto a enfrentar qualquer procedimento de natureza ética no partido sobre as ilegalidades que cometi durante nossos governos, as razões e as circunstâncias que me levaram a estes atos e, mesmo considerando a força das contingências históricas, suportar pessoalmente as punições que o partido julgar cabíveis.
4) Não vejo possibilidade, entretanto, de colaborar no processo aberto pelo partido sobre minhas afirmações quanto às responsabilidades do ex-presidente Lula nas situações citadas por ocasião do interrogatório de 6/9/2017. Isso porque tais questões fazem parte do processo de negociação com o MPF, e tal procedimento encontra-se envolto em sigilo legal. Foi por isso que naquela oportunidade limitei-me a fatos relacionados àquele processo. Dito isto, declaro minha disposição de responder aos questionamentos do partido sobre qualquer tema, logo após os prazos legais.
5) De qualquer forma, quero adiantar que, sobre as informações prestadas em 6/9/2017 (compra do prédio para o Instituto Lula, doações da Odebrecht ao PT, ao Instituto e a Lula, reunião com Dilma e Gabrielli sobre as sondas e a campanha de 2010, entre outros) são fatos absolutamente verdadeiros. São situações que presenciei, acompanhei ou coordenei, normalmente junto ou a pedido do ex-Presidente Lula. Tenho certeza que, cedo ou tarde, o próprio Lula irá confirmar tudo isso, como chegou a fazer no “mensalão”, quando, numa importante entrevista concedida na França, esclareceu que as eleições no Brasil eram todas realizadas sob a égide do caixa dois, e que era assim com todos os partidos. Naquela oportunidade ele parou por aí, mas hoje sabemos que é preciso avançar na abertura da caixa preta dos partidos e dos governos, para o bem do futuro do país.
6) Ressalto que minha principal motivação nesse momento é que toda a verdade seja dita, sobre todos os personagens envolvidos.
7) Sob o ponto de visa político, estou bastante tranquilo em relação a minha decisão. Falar a verdade é sempre o melhor caminho. E, neste caso, não posso deixar de registrar a evolução e o acúmulo de eventos de corrupção em nossos governos e, principalmente, a partir do segundo governo Lula.
Vocês sabem que procurei ajudar no projeto do PT e do presidente Lula em todos os momentos. Convivi com as dificuldades e os avanços. Sabia o quanto seria difícil passar por tantos desafios políticos sem qualquer desvio ético. Sei dos erros e ilegalidades que cometi e assumo minhas responsabilidades. Mas não posso deixar de destacar o choque de ter visto Lula sucumbir ao pior da política no melhor dos momentos de seu governo. Com o pleno emprego conquistado, com a aprovação do governo a níveis recordes, com o advento da riqueza (e da maldição) do pré-sal, com a Copa do Mundo, com as Olimpíadas, “o cara”, nas palavras de Barack Obama, dissociou-se definitivamente do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem crítica, do “tudo pode”, do poder sem limites, onde a corrupção, os desvios, as disfunções que se acumulam são apenas detalhes, notas de rodapé no cenário entorpecido dos petrodólares que pagarão a tudo e a todos.
Alguém já disse que quando a luta pelo poder se sobrepõe à luta pelas ideias, a corrupção prevalece. Nada importava, nem mesmo o erro de eleger e reeleger um novo governo, que redobrou as apostas erradas, destruindo, uma a uma, cada conquista social e cada um dos avanços econômicos tão custosamente alcançados, sobrando poucas boas lembranças e desnudando toda uma rede de sustentação corrupta e alheia aos interesses do cidadão. Nós, que nascemos diferentes, que fizemos diferente, que sonhamos diferente, acabamos por legar ao país algo tão igual ao pior dos costumes políticos.
Um dia, Dilma e Gabrielli dirão a perplexidade que tomou conta de nós após a fatídica reunião na biblioteca do Alvorada, onde Lula encomendou as sondas e as propinas, no mesmo tom,  sem  cerimônias, na cena mais chocante que presenciei do desmonte moral da mais expressiva liderança popular que o país construiu em toda a nossa história.
Enfim, é por todas essas razões que não compreendo o processo aberto agora. Enquanto os fatos me eram imputados e eu me mantive calado não se cogitava a minha expulsão.  Ao contrário, era enaltecido por um palavrório vazio. Agora que resolvo mudar minha linha de defesa e falar a verdade, me vejo diante de um tribunal inquisitorial dentro do próprio PT. Qual o critério do partido? Processos em andamento? Condenações proferidas? Se é este o critério, o processo de expulsão não deveria recair apenas contra mim.
Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do “homem mais honesto do país” enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto (!!) são atribuídos a Dona Marisa?
Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?
Chegou a hora da verdade para nós. De minha parte, já virei essa página. Ao chegar ao porto onde decidi chegar, queimei meus navios. Não há volta. Depurar e rejuvenescer o partido, recriar a esperança de um exercício saudável da política será tarefa para nossos novos e jovens líderes. Minha geração talvez tenha errado mais do que acertado. Ela está esgotada. E é nossa obrigação abrir espaço a novas lideranças, reconhecendo nossas graves falhas e enfrentando a verdade. Sem isso, não haverá renovação.
E tenho razões ainda maiores. Nas últimas décadas, sempre me decidi pelo PT, pela política, e minha família sempre aceitou, suportou e sofreu com isso. Agora decidi pela minha família! E o fiz com a alma tranquila.
Desde que fundei o PT há 36 anos, em Ribeirão Preto com um grupo de amigos, na sede do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina, entre 1980/1981, dediquei-me totalmente ao partido, à política e a nossos governos.
Tive a honra e a felicidade de ser vereador e prefeito de minha cidade por duas vezes. Tive a honra de servir aos governos de Lula e Dilma. Enfrentei como Ministro da Fazenda uma das mais duras crises econômicas de nossa história, mas a competência de meus assessores permitiu um trabalho com fortes e duradouros resultados. Nunca supus que o governo tenha desandado com minha saída em 2006. Na verdade, o caminho até a crise de 2008 foi, do ponto de vista do projeto de desenvolvimento, de grande sucesso. Mas, como o ovo da serpente, já se via, naqueles melhores anos, a peçonha da corrupção se criando para depois tomar conta do cenário todo.
Coordenei várias campanhas eleitorais, em vários níveis e pude acompanhar de perto a evolução de nosso poder e nossa deterioração moral. Assumo todas as minhas responsabilidades quanto a isso, mas lamento dizer que, nos acertos e nos erros, nos trabalhos honrados e nos piores atos de ilicitudes, nunca estive sozinho.
Por isso concluo:
1) Continuo a apoiar a proposta de leniência do PT.
2) Após respeitar os prazos legais de sigilo quanto a  minha colaboração com a Justiça, terei toda a disposição para esclarecer e depor perante o partido sobre todos esses temas.
3) Com humildade, aceitarei qualquer penalidade aprovada. Mas ressalto que não posso fazê-lo neste momento e neste formato proposto pelo partido onde quem fala a verdade é punido e os erros e ilegalidades são varridos para debaixo do tapete.
Por todas essas razões, ofereço a minha desfiliação, e o faço sem qualquer ressentimento ou rancores. Meu desligamento do partido fica então à vossa disposição.
Saudações cordiais,

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Brasileiros: um povo governado por quadrilhas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:54
Domingo, 17 de setembro


O acordo de delação premiada assinada por Joesley e Wesley Batista, donos da JBS dava um prazo de 120 dias, a partir de sua homologação, para que os colaboradores apresentassem provas referentes aos depoimentos prestados por eles no mês de abril, junto à Procuradora-Geral da República. 
O prazo para entrega desses elementos de prova venceu no dia 31 de agosto, e os advogados da JBS foram obrigados a apresentar os anexos complementares. Nesses anexos, além de indicação de como deve ser feita a leitura da planilha entregue pelo diretor da empresa, Ricardo Saud, contendo a doação de dinheiro da JBS a mais de 1.800 políticos, também consta a indicação de quais dessas doações foram frutos de corrupção e caixa 2. Constam também das provas entregues pela JBS contratos desta empresa com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), por haver nesse material, indicação de gestão fraudulenta nas operações do banco.
Os donos da empresa entregaram essas provas relativas ao BNDES para tentar evitar que a mesma fosse processada na Justiça Federal de Brasília. Há também no material, horas e horas de gravações. Sabe-se lá por que a JBS queria mais 60 dias para apresentar as provas prometidas. Os advogados da empresa até chegaram a fazer um pedido a Edson Fachin, ministro do STF. Não houve tempo hábil para Fachin responder à petição, e não restou alternativa aos advogados senão entregar os anexos complementares dentro do prazo estabelecido no acordo com os procuradores.
Ok. Prazo cumprido. É hora de analisar tanto material apresentado. Apenas os dias corridos da semana não bastaram e lá se foram os procuradores do Ministério Público Federal se debruçarem sobre o material também no fim de semana.
E eis que, em meio a tantos anexos, no domingo, 03 de setembro, uma Procuradora encontrou uma bomba — aliás, bombas tem sido a coisa mais comum nesse zum-zum-zum das delações premiadas que atingem em cheio gente do alto escalão do governo atual, ou que fizeram parte de governos passados, ou ainda de empresários desonestos que se acham muito espertos e acima da lei. Era uma conversa entre Joesley Batista e o diretor da J&F, Ricardo Saud, gravada acidentalmente.
Em um trecho da gravação, os dois conversam sobre a atuação do então procurador da República, Marcelo Miller. Do que se depreende das gravações, Miller estaria auxiliando os empresários no acordo de colaboração premiada — que, diga-se de passagem, não foi um acordo, mas um presente para os colaboradores. Por ainda estar atuando na procuradoria na época, Miller incorre no crime de ato de improbidade administrativa, além de trair seus companheiros de equipe no MPF. O áudio foi gravado em 17 de março. Nessa data, Miller já havia pedido demissão do cargo de procurador, mas apenas foi exonerado do cargo em 05 de abril.
Na conversa, os delatores dão a entender ainda que a intenção era usar Miller para chegar até Rodrigo Janot. Certamente, os caros leitores e leitoras já devem ter conhecimento do áudio dessa conversa, mas não custa nada reproduz-lo aqui:
Joesley: Por isso é que eu quero que nós dois temos que estar 100% alinhado. Nós dois e o Marcelo, entendeu? É, mas nós dois temos que operar o Marcelo direitinho pra chegar no Janot e pá. Porque nós temos que... Eu acho, é o que eu falei pra Fernanda, é o que eu falei pro... Nós nunca podemos ser o primeiro. Nós temos que ser o último. Nós não podemos ser...
Saud: A tampa do caixão.
Joesley: Nós temos que ser a tampa do caixão. Falei pra Fernanda: “Fernanda, nós não vamos ser nunca quem vai dar o primeiro tiro. Nós vai ser quem vai dar o último tiro. Vai ser quem vai bater o prego da tampa”.
Saud: O Marcelo tá ajeitando.
Joesley: Isso. E é o seguinte. Nós vamos conhecer o Janot, nós vamos conhecer não sei quem e quem é que precisa do quê?
A conversa continua com os dois buscando jeitos e alternativas de atingir o procurador Rodrigo Janot, buscando elementos para atingir os integrantes do STF, e se colocando acima da lei, ao dizerem que não seriam presos. “Que no final a realidade é essa, nós não vai ser preso, nós sabemos que não vai, vão fazer tudo, menos ser preso”, afirma Joesley. Acrescentando em outro trecho: “É porque ele (Janot) não sabe com que ele está lidando”.
Na segunda-feira (4), Janot anunciou esse conteúdo que ele imputou como “conteúdo gravíssimo”, e que se os fatos ficassem comprovados, o acordo de delação premiada seria rescindido.
Uma semana após a descoberta da gravação bombástica e incidental, Joesely e Ricardo Saud foram presos. A prisão foi decretada pelo ministro do STF, Edson Fachin. No dia 14, Fachin converteu a prisão do dono do grupo J&F de prisão temporária para prisão preventiva. Desmontando a tese do próprio Joesley de que eles não seriam presos, fizessem o que fizessem.
Em uma palestra proferida durante o 12o Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em São Paulo, Janot disse: “Enquanto houver bambu lá vai flecha”. E houve bambu a atingir e houve flecha para Janot disparar até os últimos de seu trabalho no comando da PGR.
Na segunda-feira (14), o agora ex-procurador, apresentou a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. “Organização criminosa” e “obstrução à justiça”. Palavras fortes, mas foram essas duas palavras para os crimes dos quais Janot acusa o presidente. Foi com uma citação de uma frase de um discurso histórico de Ulisses Guimarães que Janot abriu a denúncia: “O poder não corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder. O homem é o grande poluidor da natureza, do próprio homem, do poder. Se o poder fosse corruptor, seria maldito e proscrito, o que acarretaria a anarquia”.
Na fogueira dessa denúncia, Janot jogou também os ministros Eliseu Padilha, Moreira Franco, e os ex-ministros, Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves, o ex-deputado Eduardo Cunha, o ex-assessor da presidência, Rodrigo Rocha Loures, e os executivos da J&F, Joesley Batista e Ricardo Saud.
Segundo Janot, o grupo utilizou das funções públicas as quais ocupavam para cometer infrações. Ainda segundo o ex-procurador, o grupo, como qualquer organização criminosa, possuía estrutura ordenada e divisão de tarefas cuja finalidade era obter vantagens indevidas na administração pública direta e indireta, e também na Câmara dos Deputados.
Dessa vez, a denúncia não se baseou apenas na gravação de uma conversa — como foi o caso da primeira denúncia quando Janot baseou a denúncia na gravação da conversa de Joesley com Michel Temer — mas, desta vez, a embasou em investigações da Polícia Federal e depoimentos de delatores.
Os Ministérios da Agricultura e da Integração Nacional, a Secretaria de Aviação Civil, a Petrobrás, Furnas, e Caixa Econômica Federal, eram usados, segundo Janot, para arrecadar propina. Cerca de R$ 587 milhões de reais em propinas foi arrecadado pelo grupo, segundo a denúncia.
Como nenhuma organização criminosa opera sozinha, o chamado “núcleo do PMDB, operou com a ajuda de outros partidos como o Partido dos Trabalhadores e o Partido Progressista. Esses grupos e seus braços maléficos abarcaram para si o máximo de vantagens econômicas que lhes foi possível arrecadar. Vantagens econômicas que eram arrecadas para si mesmo, para seus partidos, e para outros. Com certeza, a chegada de Temer ao poder, facilitou em muito o trabalho da organização criminosa, que ganhou ainda mais poder.
Entra quadrilha e sai quadrilha, e assim tinhamos vivido na inocência até explodirem com força fenomenal todos esses escândalos.
Antes de apresentar a segunda denúncia contra Temer e seus braços direitos, na segunda-feira (05), Janot também denunciou ao Supremo Tribunal Federal, os ex-presidentes Luís Inácio Lula da Silva, e Dilma Rousseff, ambos do Partido dos Trabalhadores, por formação de quadrilha.
Segundo Janot, a quadrilha petista desviava recursos da Petrobrás, do BNDES, e do Ministério do Planejamento. Ainda segundo a denúncia não foi pouca a quantia desviada pelos petistas dos cofres públicos: R$ 1,48 bilhões. Nesse núcleo petista, Janot acusa Lula de ser o chefe e líder da quadrilha, e diz que Dilma foi peça importante no início do esquema, e depois de assumir a presidência, deu continuidade à roubalheira. Todo chefe precisa de subordinados, e o ex-procurador aponta como integrantes do esquema os ex-ministros da Fazenda Antonio Palocci e Guido Mantega; a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), e seu marido, o ex-ministro das Comunicações e do Planejamento Paulo Bernardo; e os ex-tesoureiros do partido João Vaccari e Edinho Silva, atual prefeito de Araraquara (SP).
Ainda nesse verdadeiro furacão que sacode o cenário político brasileiro, ainda teve o depoimento de Antonio Palocci, que achou melhor falar o que sabia do que levar toda a carga de culpa nas costas atrás das grades de uma prisão. O petista citou o repasse de R$ 300 milhões da Odebrecht para os cofres do Partido dos Trabalhadores.
Na ação na qual Palocci foi ouvido pelo juiz Sérgio Moro em Curitiba, Lula é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.  Dessa vez, foi um companheiro falando. Quando Palocci estava ao lado de Lula era um homem esperto e inteligente, depois que abriu a boca e contou o que sabia passou a ser um mentiroso e desqualificado que falou apenas para receber os benefícios da delação premiada.
Se Janot voltasse a cabeça por sobre os ombros e voltasse ao passado, veria que a maior parte do grupo que ele acusou está em ação faz tempo. Na verdade, desde os tempos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O que nos leva a refletir sobre o quanto o povo brasileiro tem sido enganado e roubado e sobre quanto mal essas quadrilhas fizeram ao país.

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