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A estrela que irradia fé e esperança

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:09
Terça-feira, 12 de novembro

“Quando chega o Natal eu também choro
É que nunca um presente eu ganhei
Se Papai Noel nâo sabe onde moro
Nem também meu endereço eu mesmo sei”

(Menino de Rua – Jorge de Altinho)


Eles andam por aí, pelas ruas da cidade. Sujos, maltrapilhos, abandonados. Peças de engrenagem de um sistema que os rejeitou. Se, pelo menos, houvesse, por parte do público, políticas que, como uma mão redentora e salvadora, os tirasse da miséria, ainda haveria para eles um pouco de luz em meio às trevas. Um novo recomeço.

Não. Não falo de utopias. Nem entenda o leitor assim. Não estou a dizer asneiras. Seria possível sim, colocar um pouco de cor nas telas da vida de quem só enxergar na tela da própria vida, uma pintura cinzenta, borrada, que nem dá pra dizer que é surreal de tão feia e desarmônica que é.

Seria perfeitamente possível se milhares, milhões, bilhões de dólares não saíssem, sorrateiramente, dos cofres públicos e fossem parar em cuecas, meias, apartamentos, paraísos suíços, e outros mais que há por aí. Seria perfeitamente possível trazer harmonia e restituir a dignidade de muitos brasileiros e brasileiras que vagam pelas ruas de nossas cidades, se, na lavanderia da corrupção, o dinheiro não fosse lavado, esfregado, e disfarçado em vinhos, anéis e outras joias preciosas, e guardados nos porões de políticos, empresários, e funcionários públicos, e até mesmo cidadãos comuns que amam e veneram a corrupção.

Esses sem rumo andam por aí. Em qualquer lugar das grandes cidades. Nas marquises, nas calçadas, pontes e viadutos. Não tem nome. Tornam-se perante a sociedade, anônimos.

Essa situação não é privilégio apenas do Brasil, não. Em todos os lugares, nos países mais desenvolvidos e nos menos desenvolvidos, há pessoas, seres humanos, sendo cuspidos pelo sistema por não produzirem, por gerarem lucro e riqueza. São coisas, peças, qualquer coisa, menos cidadãos.

Ilustro o que acaba de ser dito com a canção de protesto americana, chamada Deportee (Plane Wreck at Los Gatos). Bela e triste canção de autoria de Woody Guthrie, cantor e compositor americano de folk music. A letra da música narra um acidente aereo, ocorrido próximo a Los Gatos Canion, que segundo o Wikipédia Brasil, fica situado próximo a Coalinga, Califórnia, no Condado de Fresno, EUA.

O drama descrito na canção é de um grupo de 48 trabalhadores agrícolas que estavam sendo deportados da Califórnia e enviados de volta ao México. Junto com o grupo estavam também quatro americanos. O terrível acidente aconteceu em 29 janeiro de 1948 vitimando a todos.

“Seiscentos quilômetros até a fronteira mexicana. Eles perseguem-nos como ladrões, como bandidos, como ladrões”. Quando a notícia passa a circular nas rádios, o grupo de trabalhadores também não recebe nomes. Como se não fossem seres humanos. A rádio apenas anuncia que um grupo de deportados foi vítima do acidente aéreo. Ao subir no avião eles perderam a identidade e passaram a ser apenas “deportados”.

Voltando às ruas do Brasil.

Foi em um sábado. Mais precisamente no último dia 09. Era noite, e o lindo Parque do Ibirapuera, em São Paulo, recebia visitantes que, além de desfrutar das benesses que o parque oferece, também se divertiam com a bela árvore de Natal montada no local.

Em meio à multidão, também vagava uma sem nome e sem lar. Estava grávida e sentia as dores do parto. O novo ser nasceria a qualquer minuto. Ela não tinha plano de saúde, nem qualquer auxílio do estado. Tiremos da mulher a condição de estatística e lhe coloquemos na condição de ser humano, e pensemos no abandono, que sentia aquela mulher. Será que visualizaria algum futuro para sua criança?

Finalmente, depois de percorrer tantas estribarias, e tantas grutas e manjedouras, a mulher foi dar à luz ao recém-nascido perto da grande, colorida, e iluminada árvore de Natal. O choro de um menino varou à noite. E encontro o choro do menino Jesus deitado na manjedoura, velado por sua mãe Maria, e seu pai, José. Terna cena. Doce drama.

Felizmente, três soldados, e um cabo do Batalhão de Trânsito da PM, que faziam o patrulhamento de segurança da árvore, foram avisados por pessoas que visitavam o local, e vieram em socorro da mulher e da criança, realizando o parto. Uma soldado feminina que fazia parte do grupo fez os trabalhos de parto e foi tudo bem. Mãe e filho passam bem.

Esta história faz lembrar a história de um mulher grávida e de um homem que, há mais de 2000 anos, perambulavam pelos arredores da Judeia, em busca de um lugar para que ela pudesse dar à luz. Chamavam-se José e Maria.

Tiremos dos dois a condição divina que lhes é atribuída pelos livros sagrados, e lhes vistamos com a roupa de humanidade, gente de carne e osso, que sonha, que sofre, e que tem esperanças. Enfim, não encontrando lugares nas hospedarias, foram parar em um manjedoura, e, em meio às palhas e aos animais, o choro de um menino varou à noite.

Tiremos também do menino a condição divina e sintamos o drama de um parto em meio à noite, à escuridão, e ao abandono da sociedade. Não fosse a companhia dos pastores que por lá estavam, a cena seria ainda mais melancólica. É certo que a estrela iluminava àquela noite, como acompanhou os passos do menino pela vida afora.

E quando a estrela brilha sobre aqueles que acreditam, apesar das dificuldades, dos cálices amargos, das chibatadas, cuspidas na cara, do calvário, dos pregos, e da cruz, sempre haverá esperanças de vitória sobre as injustiças.

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Um brinde à demagogia

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:36
Quinta-feira, 07 de dezembro



Meus Amigos, minhas amigas começamos dezembro com boas notícias. Primeiro, para os prefeitos e prefeitas do nosso país. Graças à melhoria dos resultados econômicos, estamos transferindo R$ 2 bilhões a mais para os municípios. Os prefeitos pagarão o 13 salário e poderão fechar as contas de 2017 com mais tranquilidade. Comemoramos também, aqui a notícia é para todos, comemoramos também o PIB positivo, que acaba de ser divulgado. Como vocês sabem, o PIB é a soma de todas as riquezas produzidas pelo pais, que é fruto do trabalho de todos os brasileiros.
Os números mostram que recuperamos os investimentos. É o primeiro resultado positivo depois de mais de três anos. E porque isso é importante? Porque quando os empresários investem, a economia aquece e surgem os empregos.
Vamos fechar 2017 no positivo, deixando para trás a recessão. É uma grande vitória. Outra boa notícia é que o IBGE anunciou que o desemprego segue caindo pelo terceiro trimestre consecutivo temos bons resultados no mercado de trabalho. De agosto a outubro, mais de 868 mil pessoas conseguiram um emprego. E o valor dos salários está em média, 4,6% mais alto do que no ano passado. É mais renda mensal para todas as famílias.
A realidade é essa: nossa economia cresce, a inflação e os juros caem, incentivando a produção e o consumo. E tudo isso ocorre exatamente porque tivemos coragem de fazer as reformas necessárias. Produzimos mais mudanças do qualquer governo do passado recente. Estamos transformando o Brasil.
Falta gora, a Reforma da Previdência, fundamental para a garantir a continuidade desse crescimento que já está aí. É uma reforma para o povo, porque combate os privilégios e mantém os direitos de quem já se aposentou ou mesmo de quem já tem condição de aposentar-se. Não muda nada para o trabalhador rural, nem para os mais pobres, nem para os que dependem da assistência social. O que se busca é a igualdade de oportunidades, sem distinção entre servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada.
Tenho compromisso com o povo, trabalho para convencer os companheiros do Congresso nacional que muito tem auxiliado o governo a votar essa matéria pelo bem de todos. É hora dos brasileiros que acreditam no futuro entrarem em cena. Juntos construiremos uma nação melhor.
Eis, caros senhores e senhoras, um gritante exemplo de um discurso puramente demagógico.

E o que é um discurso demagógico? Vamos lá. Para bem compreender o significado desta palavra, vamos recorrer àquele a quem todos recorrem quando querem clarificar um vocábulo: o dicionário. Essa arma tão útil na guerra das palavras, antes ficava só papel, nos livros grossos e de folhas amareladas pelo tempo e castigadas pelo constante manuseio das mãos. Hoje, não. Eles também podem ser online de fácil consulta.
Vamos ao que nos interessa que é o vocábulo, demagogia. Vamos a uma definição bem sucinta. Lá no dicionário está escrito: “Excitação das paixões populares em proveito político”.

Se considerarmos que o ano que vem é ano de eleições, então o discurso de nosso presidente não eleito pelo voto popular passa e muito de demagógico. Nisso, ele se assemelha a sua antecessora, Dilma Rousseff, que, a bem compreender, a sala estava em chamas e ela, calmamente, dizia: é apenas uma faísca, logo cessará”.

O país ainda mergulhado numa crise sem precedentes, e ele pintando um quadro paradisíaco da situação. Mas sabem de um coisa, ele tem razão, não estamos crise. Vivemos o melhor momento de nossa economia. O dinheiro circula com facilidade pelos nossos bolsos, emprego está em alta, e as coisas no supermercado não nos parecem tão caras. Viagens? Ah, viagens! Podem planejar à vontade, que o ocorrer disto não dependerá ou não da alta do dólar.

Quando é usado o pronome, nós, nesse texto, na verdade, substituam-no pelo pronome eles. E como eles, quero referir-me aos nossos “respeitáveis” políticos. Para eles que usufruem de uma enxurrada de regalias e mordomias, a crise passa bem longe. Sentado em seus luxuosos gabinetes, podem dar-se ao luxo de muita coisa, inclusive o de não serem importunados pela polícia, nem de serem presos, e ainda, por cima, de atrapalhar investigações importantes na atual conjuntura do país, ou mesmo podem dar-se ao luxo de querer sufocá-las, asfixiá-las, empurrá-las para debaixo de tapete.

Onde já se viu tal coisa? Que país que deseja se colocar em primeiro plano no cenário nacional e internacional quer abolir de seus nortes de ação a ética, a moral, e a decência? Em que país do mundo que se queira proclamar desenvolvido, os parlamentares se fecham em uma concha, formulando e executando conchavos para proteger um presidente enterrado na lama da corrupção quase até o pescoço? Em que nação, cuja bandeira ostenta o belo lema: ordem e progresso, os parlamentares viram completamente às costas para o povo e se vendem por verbas, cargos, e salários.

Ora, senhoras e senhores, esse país existe e se chama Brasil, nosso amado torrão natal, ao qual tanto amamos.

Temer se gaba, logo no início do seu discurso, de que vai transferir R$ 2 bilhões de reais para os municípios. Ora, iniciativa louvável! Louvável que nada. Lembre-se de o presidente gastou dez vezes mais para comprar deputados para livrá-lo do prosseguimento das duas denuncias oferecidas contra ele pela Procuradoria Geral da República, que, por duas vezes, chegaram à Câmara dos Deputados. Isso sem contar os R$ 200 milhões liberados pelo governo em emendas orçamentárias, com o intuito de mobilizar os deputados para devolver ao senador tucano, Aécio Neves, o mandato que estava em jogo.

Depois, e ainda no mesmo parágrafo, o presidente comemora com estardalhaço um ínfimo crescimento no PIB de 0,1%. Ora, se os economistas, os comentaristas de economia, e o presidente querem comemorar um crescimento tão medíocre, que comemorem, abram seus champagnes caros e franceses, comprados com o dinheiro do contribuinte.

O povo não. Esse vive o drama do fantasma da inflação e da recessão, que vorazmente lhes devoram os salários, as economias. O povo deve ficar atento também para não se deixar enganar por esses discursos tolos e vazios. Afinal, ano que vem é ano de eleição, e eles, os políticos, voltam à cena com suas mãos estendidas e sorrisos amáveis nos rostos. Sorrisos esses que escondem suas maquiavélicas intenções.

No último parágrafo do seu texto, o presidente diz: “Tenho um compromisso com o povo”. Sim, ele tem compromisso com povo. Com o povo dele. E com os políticos que lhe lambem os pés e se fazem para ele de tapetes, em troca de verbas orçamentárias e de cargos no governo. Porque, com o povo mesmo, entendido no seu sentido pleno da palavra, o presidente, até agora, não mostrou compromisso nenhum. Ao contrário, seu governo é para a cozinha do planalto e seus convidados ilustres e corruptos.

Abaixo, este blog compartilha artigo do jornalista, Xico Sá, publicada no jornal El País Brasil, no último 01 de dezembro. O artigo é intitulado:   Guia paracomemorar o pibinho.

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Guia para comemorar o pibinho

Eis que tamanho não é mais documento na economia
Intermitentes do mundo, uni-vos no brinde da festa da firma

XICO SÁ

“Setembro passou, Outubro e Novembro, já tamo em Dezembro, meu Deus, que é de nós?”. Desperto no derradeiro mês deste 2017 com o canto semi-árido e existencialista de Patativa do Assaré, o poeta andarilho, no juízo. Calma, não vou estragar o seu final de ano, afinal de contas a mídia está repleta de boas notícias. Repare no caso do micropibinho, quantas manchetes alvissareiras, quanto foguetório, euforia é mato nos periódicos e portais.

Bimbalham os sinos. Antecipemos nossos espumantes, seja uma Sidra Cereser ou a ostentação de uma garrafa de Veuve Clicquot. Comece a gastar por conta. Não economize na farofa, na uva passa, viaje mesmo no salpicão. Por favor, não sejam “partidários da fracassomania” – a expressão tem grife, é de um FHC II, safra da virada do século XXI, encorpado na Sorbonne, uvas europeias (Cabernet Franc?), mesmo com o aroma de jurubeba do mais antigo ex-PFL baiano.

Tamanho agora não é mais documento na economia brasileira: o pibinho do Temer está com tudo. Pense numa potência!

Intermitentes do Oiapoque ao Chuí, uni-vos. Boa festa de firma. Temos é que agradecer ao chefe por este bico, beijar a boca do senhor casmurro do departamento pessoal, investir alto no presente do amigo secreto caso ele seja um superior no organograma. E nada de exagerar na jurupinga. Cuidado com o vexame, aquele vídeo no WhatsApp pode destruir uma carreira promissora. Tempos modernos e corretos.

O micropibinho é tudo. Não vale lembrar, colega memorioso, a frase exemplar do presidente Emílio Garrastazu Médici, safra 1970, com aroma de ditadura amadeirada – e põe cassetete nisso! – e notas de chumbo. “A economia vai bem e o povo vai mal,” bradou o general. Não vem ao caso, em nenhum sentido, a não ser no otimismo oficial, a boutade de farda verde-oliva.

Por viajar nos 70, temos uma seleção canarinha pai d´égua e o Tite nos conduzirá rumo à estação Finlândia. O pagode russo está só começando. Boa festa da firma e até a próxima.


Xico Sá, jornalista e escritor, é autor de “A pátria em sandálias da humildade” (editora Realejo, 2017), entre outros livros. Comentarista nos programas “Papo de Segunda” (GNT) e “Redação Sportv”.

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Princesa negra

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:20
Terça-feira, 28 de novembro
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece
(Monte Castelo – Renato Russo)

 Giovanna Ewbank, Bruno Gagliasso e, Titi

A lei é implacável. Aqui fez. Aqui pagou. E ainda sobra muita dívida para depois que se atravessam as fronteiras. Aos ricos, pobres, negros, jovens, idosos. Com nenhum deles ela é benevolente. Desviou-se dos caminhos, das suas regras, dos seus princípios ela age, e age com vigor.
Não falo da lei dos homens, falo da lei de Deus, falo da lei do eterno retorno. Tanto faz se você é católico, protestante, budista, umbandista ou professa qualquer outro credo ou religião, você está sujeito à mesma lei que rege a todos. Não terá nenhuma benesse se for desta ou daquela religião, seguir este ou aquele pastor, frequentar igreja A, B, ou C.
É clichê, lugar comum, obviedades — seja o nome que queira dar a isto que vai ser dito agora, e que, aliás, tantos outros já disseram: ­ A vida é uma escola, um aprendizado. E na escola, como todos sabem, há os alunos mais adiantados, e aqueles mais lentos para aprender. Na escolinha da vida haverá sempre os bons, os medianos, e os dificultosos no aprendizado.
Mas é assim mesmo, não se ia querer que fossem todos iguais, não é verdade? Na escola da vida, o professor tempo tem que respeitar o ritmo de cada um, o tempo de cada um. Ora, se nem todos os dedos das mãos são iguais, como era de se querer todos os alunos iguais, não é mesmo?
Ainda dentre esses pequenos aprendizes que somos todos nós, há os que são adiantados e o que aprendem com dificuldade, como já foi dito. Porém dentre esses últimos há duas classes de aprendizes: aqueles que se esforçam por aprender, mesmo que seja à custa de muita repetição, e aqueles que parecem que desistiram de ler a cartilha. Esses em nada ajudam o professor. Ficam na sala de aula da vida fazendo brincadeiras, zoando os outros, levando a vida na troça.
Coitados desses! Não sabem que, como em todas as escolas, há sempre uma prova final. E o diretor da escola da vida, o Supremo diretor, não é bom. Não pensem que ele é bonzinho não. Ele é justo. E entre ser bom e ser justo há uma grande diferença que apenas os seres superiores sabem compreender, e mais que isso, por em prática.
Ande pelas ruas das cidades. Observe. Olhe ao seu redor. Você verá que nem todos são iguais nas limitações e capacidades dos seus corpos: Uns são mancos, outros são coxos, outros são cegos, e outros ainda são surdos.
Assim como existem pessoas cujas limitações corporais deixam a desejar. Se tivéssemos o dom de ver aquilo que não se pode ver, digo o mundo interior de nossos semelhantes, veríamos ao nosso redor, pessoas mancas, coxas, cegas, surdas e mudas mentais e espirituais. E ter limitações no corpo não é defeito, ter algumas limitações mentais também não é defeito. São coisas da vida. Alguma expiação de fatos cometidos em vidas passadas, quem sabe? Como já dizia o filosofo, há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode entender a nossa vã filosofia.
Indo mais além, se tivéssemos ainda o elevado dom de enxergar ainda mais a fundo os homens e mulheres de nosso estranho mundo, veríamos que muitos deles são doentes mentais e espirituais.
Os egoístas são doentes espirituais, os avarentos são doentes espirituais, os preconceituosos são doentes espirituais, e, geralmente, toda doença espiritual quando chegou a esse nível certamente já passou pelo mental.
Ainda na escola da vida, os homens e mulheres dispõem de uma arma poderosa chamada língua. Essa arma ferina quando bem usada eleva o ser humano, e quando usada de forma errônea, rebaixa-o ao menor nível. Portanto há que se ter cuidado ao tirar essa espada da bainha, ou melhor, dizendo, é preciso muito cuidado ao tirar a língua da boca para dizer qualquer coisa.
Ora é sabido por todos também que uma vez proferida uma palavra, não pode desdizê-la. Palavras que a boca pronuncia são como penas jogadas ao vento. Experimente jogar um saco de penas do alto de uma torre e depois tente pegar todas de volta. Por mais esforço que faça não conseguirá, pois o irmão vento já se encarregou de espalhá-las por todos os lugares.
Como exemplo disto, este blog cita o caso recente do ator Bruno Gagliasso. Às 10hs da manhã desta quarta-feira (27), o ator foi a uma delegacia da Zona Norte do Rio para prestar queixa, por ofensas racistas sofridas pela filha, Chissomo, carinhosamente chamada pelos pais de Titi.
A menina, negra, oriunda de um dos países mais pobres da África, foi adotada pelo casal Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, atores, brancos, ricos e famosos. Ano passado, o casal fez uma viagem ao Malawi, no Sul da África, onde adotaram a menina, e criam ela com esmerado cuidado, como todos os pais devem cuidar de seus filhos seja eles adotivos ou não.
O motivo da queixa de Bruno e de sua esposa?
No domingo, uma brasileira, Day McCarthy, e provavelmente, radicada no Canadá, publicou na rede social Instagram, um vídeo contendo xingamentos à filha de Bruno Gagliasso. Diz a escritora(?), socialite (?), no tal vídeo: “Eu queria entender os falsos, os puxa-sacos, que me criticam pela minha aparência, por não ter olhos azuis, cabelo liso, e nariz bonito, fino, como a sociedade impõe esse tipo de beleza. Mas ficam lá, no Instagram do Bruno Gagliasso, elogiando aquela macaca. A menina é preta, tem o cabelo horrível de pico de palha, e tem o nariz de preto horrível, e o povo, e o povo fala que a menina é linda. Aí, essas mesmas pessoas vem no meu Instagram, me criticam pela minha aparência... Então, você só ta puxando o saco, porque é adotada por famoso? Filha não é, porque como que duas pessoas brancas, dos olhos claros, vão ter uma filha preta, do cabelo de pico, e com nariz de negro? Ah, povo ridículo, hein?
Se preciso for, prezado leitor, prezada leitora, releia essa aberração dita por esta senhora, e responda, qual pai, qual mãe, não ficaria indignado(a) ao ouvir coisa tão horrível sobre seu filho, sua filha?
Certamente, se você tivesse o dom de ver o interior do coração da Sra. McCarthy, veria que é um coração doente, veria que ela é apenas um corpo saudável abrigando uma mente e um coração doentio.
Certamente, a linda Titi, com sua cor preta, que em nada a diminui, é muito mais bela e cheia de luz do que aquela que fez os comentários a seu respeito.
Não é a primeira vez que Bruno Gagliasso, a mulher dele, Giovanna Ewbank, e a filha do casal, Titi, passam por situações como essa, e nem será a última. Fora os revezes diários, e que não chegam a grande imprensa. Bruno, em novembro de 2016, esteve na delegacia pelo mesmo motivo, para prestar queixa por racismo por ofensas contra a menina. Na ocasião, a atriz Giovanna Ewbank, postou uma foto da menina em sua rede social, e logo vieram comentários racistas a respeito da foto da criança.
E assim, será sempre, enquanto não houver uma conscientização por parte de alguns lentos e lentas no aprendizado da vida, e da parte de alguns doentes espirituais, de que somos todos iguais, pretos e brancos, e de que existe uma só raça: a raça humana.
Se o casal de atores Bruno Gagliasso, e Giovanna Ewbank, quisessem uma estrada mais leve para trilhar com sua filha, teriam escolhido uma menina branca, de olhos azuis, cabelos lisos, e nariz perfilado. Dessa forma ninguém os incomodaria, nem incomodariam  a menina.
Mas o amor é como água que corre livre e forte pelos campos: quanto mais obstáculos se lhes imponha, mais ele se sentirá forte e unido para superar esses mesmos entraves.
Outra coisa a dizer é que a Day McCarthy não deve conhecer o amor, pois se conhecesse não diria tais coisas. Outra coisa que ela não sabe, é que filhos não há apenas os gerados no ventre, mas que também há aqueles gerados no coração, e que o amor desconhece a diferença entre filhos gerados no ventre e filhos gerados no coração. O amor também não quer saber se o filho é preto ou branco. Ele, o amor, como o infinito, não olha a cor da pele, mas a sensibilidade e a sabedoria do coração. 

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Liberdade: O sol que nasce para todos

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 09:21
Segunda-feira, 20 de novembro
Mais é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã.
Espera que o sol já vem
(Mais do mesmo – Renato Russo)



Hoje, vinte de novembro, é dia da Consciência Negra. Hoje, mais uma vez, como tem feito há muito tempo, o sol se levanta sobre todos: Negros, brancos, pobres, ricos, velhos e crianças, para gente da favela, e para gente dos palácios.
O sol, assim como a chuva, o vento, e todos os elementos da natureza, são, por natureza, sábios. Eles não fazem discriminação.
Já pensou um sol que nascesse apenas para os negros? Ou uma chuva que chovesse apenas para os brancos, ou um vento que ventasse apenas para os velhos, ou uma terra que desse fruto apenas para as crianças?
Os homens, todos os homens e mulheres deveriam aprender com a natureza. Isto é, deveriam ser tão sábios quanto ela, a mãe de todos nós: a mãe natureza. Essa mãe tão bondosa que abraça todos os seus filhos, sem fazer distinção de raça, cor, religião, filosofias, e todos os outros sistemas e categorias que os homens inventaram para complicar ainda mais a já tão complicada vida terrena.
E, notem, que para ser sábio, para ser sábia, não é necessário ter os melhores diplomas, nas melhores universidades. Ao contrário, tem muita gente que tem tudo isso, e, se comparado a um asno pastando no campo, o asno ainda é mais sábio. Diplomas e conhecimento não significam, necessariamente, sabedoria. Tem gente que têm as duas coisas: diplomas e sabedoria, e Deus seja louvado por isso.
Pensem vocês sobre qual curso a mãe natureza fez. E pensem vocês também em como tudo funciona com perfeição na natureza. O próprio astro rei tem um caminho a percorrer no céu, diariamente, e o percorre sem atrasar um segundo sequer. Se bem que, ao que nos parece, ele tem andando um pouco mais rápido, dada a velocidade com que tem se sucedido os dias, as horas, os anos. Mas todos os dias lá está ele, imponente, e disposto a cumprir a missão que lhe foi confiada.
Os órgãos de nosso corpo, os cabelos de nossas cabeças, as unhas de nossos dedos, por mais conhecimento e poder que tenhamos, não conseguimos dar sequer uma ordem a qualquer um deles, para que cresçam, ou deixem de crescer, para que funcionem, ou deixem de funcionar. Tudo é regido e permitido por uma força maior. Tudo na natureza é regido por uma força maior, inclusive, nós seres humanos, que ingenuamente, às vezes nos consideramos deuses. Coitados de nós, tão pequenos e frágeis, e tão nas mãos do destino!
E apesar de toda essa impotência, diante do poder criador que a tudo rege, ainda nos damos, enquanto raça humana, o direito de julgar as pessoas pela cor da pele, pela posição social que ocupa, por alguma limitação que tem no corpo do outro.
A pele, uma dia a terra pedirá de volta. Ninguém escapa disso, pretos, brancos, pardos, todos vieram do pó e ao pó voltarão. O dinheiro, por mais que se tenha, não dá para levar no esquife, o qual a terra também devorará. A limitação que vemos no corpo do outro e que nos faz vê-lo como menor e incapaz, pode estar apenas e tão somente no corpo, porque, na mente, aquele que vemos como incapaz pode estar a quilômetros á nossa frente.
Então, porque sair por aí, pisando, humilhando, maltratando, discriminando a quem quer que seja?
Metaforicamente, a vida já foi comparada a uma jornada, a uma vela, e tantas outras coisas, mas lembremos de que a vida, metaforicamente, também pode ser comparada a um processo judicial. E lembremos também que, em todo processo judicial, ao final dele, você estará sentado diante de um juiz que julgará suas ações. Lembre-se que ao final do processo judicial só há dois caminhos possíveis: a liberdade ou a condenação. Trabalhem pois, enquanto lhes sobra tempo para ganhar, ao final do processo, o merecido e agradável premio da liberdade.
Parem de perder tempo com coisas inúteis e desnecessárias. Olhai para a grandiosidade da vida, para a riqueza que é o outro que caminha a seu lado. Veja nele seu semelhante e não seu diferente. Afinal, Deus é um só. Porque então considerar o outro menor pela cor da pele, posição social e todos os outros critérios que levam a uma discriminação e preconceito que geram violência?
A seguir, este blog compartilha palestra de uma das melhores atrizes brasileiras: Thais Araújo, negra, mãe de dois filhos: um menino e uma menina, e casada com o também ator negro, Lazáro Ramos.
Thais proferiu palestra no evento, Mulheres que Inspiram, promovido pelo TEDx, em São Paulo, no começo deste mês.
Na palestra, de uma forma simples e emocionante, atriz fala da preocupação com a educação e o futuro dos filhos em país preconceituoso contra os negros e mulheres. Ela também fala de racismo, preconceito e violência.

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Thais Araújo

Como criar crianças doces num país ácido?

TEDx/São Paulo – Thais Araújo
Eu sou mãe de um menino de 6 anos chamado João Vicente e de uma menina de 2 anos e 7 meses chamada Maria Antonia, e a pergunta que eu mais escuto, a pergunta que mais me fazem é: qual a diferença entre criar um menino e criar uma menina? E a minha resposta ela é sempre muito imediata, ela é sempre a mesma. Eu sempre falo que eu não vejo diferença entre criar meninos e meninas. Eu to criando dois indivíduos, portanto, cada um tem suas características.
Essa minha resposta, apesar de sempre a mesma, ela é uma mentira. Eu vejo diferença entre criar meninos e meninas. O gênero é uma questão. Porque quando eu engravidei de meu filho, eu fiquei muito, mas muito aliviada, de saber que no meu ventre, tinha um homem. Porque tinha a certeza que ele estaria livre de passar por situações vivenciadas por nós mulheres.
Teoricamente, ele está livre, certo? Errado. Errado porque o meu filho, ele é um menino negro, e liberdade não é um direito que ele vai poder usufruir se ele andar pelas ruas, descalço, sem camisa, sujo, saindo da aula de futebol. Ele corre o risco de ser apontado como um infrator, mesmo com 6 anos de idade.
Quando ele se tornar adolescente ele não vai ter a liberdade de ir para a sua escola, pegar uma condução, pegar um ônibus com a sua mochila, com seu boné, ou com o seu capuz, com seu andar adolescente, sem correr o risco de levar uma investida da polícia, ao ser confundido com um bandido. Porque no Brasil, a cor do meu filho é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas, e que blindem seus carros.
A vida dele só não vai ser mais difícil que a vida da minha filha. Com a Maria Antonia eu me pego pensando o tempo inteiro o quanto nos mulheres somos criadas pra agradar, o quanto nos silenciam, e o quanto nos desqualificam, o tempo inteiro. Quando eu penso no risco que ela corre, simplesmente, por ter nascido mulher e negra, eu fico completamente apavorada, e o meu pavor tem uma razão.
Observando o mapa da violência no Brasil, esse mapa é o de 2015, é o último que a gente tem, os números são muitos alarmantes. Mas nós temos algumas vitórias muito poucas, mas eu queria ressaltar uma: o número de feminicidio contra mulheres brancas ele caiu. Ele caiu 9,8%. É muito pouco o que a gente deseja pra nossas irmãs brancas, mas caiu. Já o numero de feminicidio contra as mulheres negras aumentou 54, 8%.
É ou não pra eu ficar apavorada? Preciso dizer mais alguma coisa? Preciso dizer que, apesar do meu pavor, apesar do meu medo, apesar desses números alarmantes, eu não ouso perder a esperança, e fico elaborando o tempo inteiro uma maneira de eu criar meus filhos aqui no Brasil, no meu país.
Eu fico pensando em como criar crianças doces num país tão ácido? Como criar crianças que acreditem que pluralidade e diversidade são riquezas, num país que é tão plural, que é tão diverso, e que é tão desigual? Como não jogar sobre elas uma vivencia, experiência, até uma magoa que é minha, mas também como não permitir que elas enfrentem o mundo de maneira ingênua, pra que não sejam atropeladas pelo racismo que existe na estrutura de nosso país?
Eu assisti a um filme chamado a 13a emenda, um documentário, ele fala sobre o sistema carcerário norte americano, e fala de um homem, um homem branco, me chamou muito atenção. Ele disse: eu sou fruto de uma escolha feita pelos meus antepassados.  Os negros são frutos de uma falta de possibilidade de escolha dos seus antepassados. Eu, homem branco, tenho culpa dessas escolhas? Os negros contemporâneos têm culpa dessas escolhas? Não. Nenhum de nós temos culpa.  Mas foi uma herança que a gente recebeu, então a gente tem que ter a responsabilidade de lidar com essa herança das quais somos frutos.
Eu fiquei pensando no que esse cara falou, eu pensei: Gente, que ele tá falando? Essa herança que esse cara tá falando, ela tem um nome e ela se chama nossa sociedade. Sendo assim, a desigualdade social, a desigualdade entre gêneros, e o racismo, são, sim, problemas de todos nós. E não é só problema de gênero, não porque até a condição sexual importa muito nesse país.
O Brasil é o país que mais mata homosexual no mundo. Os meus filhos eles são crianças ainda. Eu não sei qual será a condição sexual deles, mas o que eu desejo para os meus filhos é o que eu desejo para toda e qualquer criança, seja branca, negra, indígena, heterossexual, homossexual, gay, trans, eu desejo que eles cresçam livres, cheios de amor, coragem, que sejam crianças potentes.
E eu também tenho um sonho. Eu tenho um sonho de ver ricos trabalhando para acabar com a pobreza, de ver homens se colocando no lugar de mulheres, de ver mulheres brancas entendendo que existe um abismo entre mulheres brancas e mulheres negras. Eu tenho um sonho de ver crianças heterossexuais aceitando crianças homossexuais e trans, de ver mulheres heterossexuais aceitando mulheres lésbicas, e, todos nós, que a gente fique muito atentos pra garantir o direito dos índios.
Eu queria aqui hoje fazer um convite, um convite pra gente se ajudar mutuamente, se ajudar para que todos possam ter de fato as mesmas possibilidades, porque perante a lei, somos todos iguais, mas na prática não somos. Isso não é um problema. As diferenças não são um problema desde que elas não causem desigualdade.
Pra isso acontecer, eu tenho a sensação de que a gente tem que começar a olhar pro outro com humanidade, com afeto. É um exercício. Olhar pro outro com afeto é um exercício. Entender que o outro e sim uma extensão da gente. Olha, se a gente quiser andar tranquilamente pelas ruas, de dia e de noite. Se a gente quiser ficar nas nossas casas sem aflição de saber como ou se os nossos filhos chegarão aos seus destinos. Se a gente quer ligar a televisão e não assistir a uma enxurrada de sangue. Se agente quer andar com os nossos com os vidros abertos, não quiser ficar fazendo conta de quanto será blindar um carro, a gente vai ter que melhorar a vida das pessoas. É a única maneira.
E uma chance disso é a gente olhar pro outro com afeto, com atenção, e aí fica a pergunta: como é que a gente pode melhorar a vida das pessoas? Eu não sou o governo. Eu não sou uma empresa. Por que um governo sério a gente sabe o que ele deve fazer para acabar com a desigualdade. Ele deve investir em políticas públicas, em ações afirmativas, em políticas educacionais, inclusivas, né?
Uma empresa ela pode reavaliar o seu quadro de funcionários, e fazer da diversidade um pilar real dessa companhia. Mas, e a sociedade civil? O que a sociedade civil pode fazer? Bom, nos somos a sociedade civil. E essa tem sido a questão da minha vida: como eu posso melhorar a vida das pessoas?
E aí eu fico pensando que talvez a gente tenha que transformar os nossos pensamentos, as nossas falas em ação. Entender que as ações individuais elas geram impacto diretamente no coletivo, e o coletivo somos nós. Somos a nossa sociedade. As pequenas ações elas são valiosas e elas são capazes de mudar o mundo. E onde começa o mundo senão em nós mesmos?

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Preconceito, racismo, e violência: Um legado indesejável

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 13:52
Domingo 19 de novembro

Ninguém ouviu /Um soluçar de dor
No canto do Brasil / Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro / E de lá cantou
Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
(Canto Das Três Raças: Composição: Mauro Duarte e
 Paulo César Pinheiro / Interpretação: Clara Nunes)



O Jornal Nacional, edição deste sábado (18), mostrou o caso do jovem, negro, ator, Diogo dos Reis Cintra.

Na madrugada da quarta-feira (15), Diogo foi abordado por dois homens brancos no Centro de São Paulo. Eles pediram o celular. Diogo hesitou... E fugiu correndo. Pensava ele: Vou entrar no terminal de ônibus onde há muita gente, e seguranças, pois lá encontrarei proteção.

Para azar do jovem, os homens também correram na mesma direção. Chegando lá, os que o perseguiam inverteram a situação. Disseram aos seguranças que Diogo era o ladrão. Advinha em quem os homens acreditaram? Em Diogo, ou nos dois homens brancos que o acusavam?

Acertou se você optou pelos dois homens que perseguiam o jovem. Os seguranças colocaram então todos para fora. Para Diogo, as coisas não pararam por aí. Ele levou vários socos, chutes, e pauladas. Não bastasse isso, ele ainda foi mordido pelo cachorro de outros dois homens que também participaram da agressão.

Debaixo do sofrimento e agressões, Diogo viu a morte de perto. Teve medo... E, mais uma vez, fugiu. Dessa vez não pediu proteção a mais ninguém. Vai que as coisas se tornassem pior...

Se fosse apenas Diogo a ser agredido pelo fato de ser negro, e se fosse apenas no centro de São Paulo, as coisas ainda podiam tomar um rumo diferente, podia-se corrigir a situação sem maiores problemas. Mas as coisas não são bem assim.

Ainda na mesma reportagem, o JN trouxe dados de uma pesquisa que mostra que os brasileiros negros são os que mais correm o risco de serem vítimas de agressão e violência, e, até mesmo, de serem assassinados.

A referida pesquisa foi elaborada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ela indica que os negros somam 54% da população, entretanto 71% deles são vítimas de homicídio.

Ainda segundo o Fórum, dados compreendidos entre 2005 e 2015, revelam que, dentre os mortos em homicídios, o número de brancos caiu 12%, enquanto o número de negros aumentou 18%.

Se fosse apenas essa pesquisa feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ainda se poderia lançar uma sombra de dúvida sobre o resultado dela, porém, qualquer estudo que se faça nessa área apontará sempre para o mesmo resultado: os negros como as maiores vítimas da violência.

Por exemplo, o Atlas da Violência 2017, um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança. O estudo apresentado no dia 05 de junho deste ano mostra que homens, jovens, negros, e de baixa escolaridade são as maiores vítimas de mortes violentas no país. Segundo esse estudo, de cada 100 pessoas assassinadas no país, 71 são negras.

Isso falando da violência que se vê, que se nota, que se contabiliza e que se faz estatística. E o que dizer daquela violência praticada contra os negros de forma explícita, ou disfarçada, quando ao fazer uma entrevista de emprego, o entrevistador não olha a capacidade da pessoa que está na frente dele, mas olha para a cor da pele do entrevistado e para o lugar onde ele mora.

Amanhã se celebra em diversas cidades e municípios brasileiros, o Dia da Consciência Negra. Um dia que vale como um grito contra a opressão sofrida pelo povo negro e um grito de reivindicação por direitos iguais. Respeito.

Por que os negros precisam de um dia para celebrar a Consciência Negra? Essa é uma pergunta feita constantemente por brancos, nos ambientes universitários, onde se pressupõe certa cultura, nos ambientes de trabalho, ou até mesmo nas rodas de conversa.

Ora, por que o povo negro precisa de um dia para celebrar o Dia da Consciência Negra?

O povo negro precisa de um dia no ano para celebrar a consciência negra para lembrar a coletividade branca, e aos negros que não se assumem como tal, os 300 anos passados sobre o julgo da escravidão, tendo o coração cheio de liberdade, de saudade da distante Mãe África, de onde foram arrancados, colocados em navios e trazidos para terra distante.

A comunidade negra precisa deste dia para, simbolicamente, livrar-se das correntes pesadas que lhes atavam os pés e mãos. Para tirar do tronco os irmãos que sofriam debaixo de chibatadas que dilaceravam-lhe o corpo, sobre cujas feridas o remédio jogado era sal.

O Brasil precisa de um dia da Consciência Negra para fazer reverencia aos heróis e mártires que mesmo sob o julgo da escravidão, sempre acreditaram na liberdade, e que era possível ousar viver em uma sociedade diferente, onde eles não fossem tratados como bichos, animais, coisas.

Para lembrar a sociedade que a Lei Áurea que os libertou não os redimiu. Ao contrário, jogou-os na rua da miséria, sem que lhes acolhesse em seus direitos básicos. E assim, sem direito à saúde, educação, e condições de vida digna, foram os negros jogados pelos recantos mais desprezados pela população branca que gozava das benesses do estado brasileiro.

A você negro, a você negra, quando lhe perguntarem por que o povo negro precisa de uma para a celebrar o Dia da Consciência Negra, não lhe diga apenas que precisa desse dia porque seus antepassados apanharam amarrados a um tronco, sob os estalos de um chicote de um feitor cruel.

Diga-lhe que o povo negro precisa desse dia, pois ao povo negro foi deixado um legado de preconceito, de discriminação, de violência, de descaso com a saúde, e com a educação dessa parcela da população. Legado esse que ainda hoje, faz o povo negro sofrer violência, preconceito e discriminação.

A você negro, a você negra, quando lhe perguntarem: Porque o Dia da Consciência Negra, diga-lhes que é um dia para reivindicar liberdade e direitos iguais. Um dia para reivindicar respeito por todo um povo, por toda uma cultura, enfim, pelos braços que ajudaram a construir o país em que você mora, e que é o país no qual também mora quem lhe fez a pergunta.

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