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As ruas do Brasil quebram o silêncio

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 17:35
Domingo, 04 de dezembro


Manifestação no centro de Campinas
Exatamente há uma semana, o presidente do Brasil, Michel Temer, o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, reuniram-se no Palácio do Planalto, em Brasília para um pronunciamento dirigido à nação.

A atitude dos três presidentes era tomada após as denúncias contra o agora ex-ministro Gedel Vieira Lima, envolverem o nome do presidente Temer. Para mostrar que não compactuava com atitudes corruptas de seus ministros, Temer anunciou que a anistia ao caixa dois de campanha eleitoral não passaria na Câmara, nem teria apoio do Palácio do Planalto, nem do Senado.

Na ocasião, Temer afirmou: “No tocante a anistia, há uma unanimidade dos dirigentes do Executivo e daqueles do Legislativo.  Conversamos muito nos últimos dias e entendemos que é preciso atender reivindicação que vem das ruas, o poder é do povo e quando o povo se manifesta, a audiência há que ser tomada pelo Executivo e Legislativo. Estamos novamente assistindo movimento das ruas. Essa não e exatamente uma questão de governo. É uma questão da sociedade, que tem de ser versada pelo legislativo, mas eventualmente exige ação do Executivo”.

Pois bem, raiou o sol da segunda-feira que precedeu esse pronunciamento, e ele, o sol da segunda, veio como arauto de más notícias. Na madrugada de terça-feira, pelo horário de Brasília, o Brasil acordava em choque com a notícia de que o avião que transportava a delegação da equipe de futebol chapecoense, juntamente com jornalistas e convidados, havia caído já bem próximo à pista de pouso, no aeroporto, em Medelín, na Colômbia. O acidente causou grande comoção nacional, e teve fortes repercussões internacionais.

Enquanto o país abalava-se com a notícia, os deputados, numa atitude bastante suspeita e indigna, aprovaram o pacote com as 10 Medidas contra a Corrupção, apresentado a eles pelo Ministério Público Federal, e referendado por milhões de brasileiros. O relator do projeto, Onix Lorenzoni (DEM-RS), havia feito modificações no projeto, porém, não o havia desfigurado. Os deputados, então, aproveitando-se desse momento de comoção nacional, apressaram-se, e, em sessão que se estendeu ao longo da madrugada de quarta para quinta-feira, aprovaram o projeto, descaracterizando-o quase por completo. Apenas duas medidas constante do relatório de Lorenzoni foram mantidas, restando do texto original apenas uma breve sombra, um breve esboço.

A atitude covarde dos deputados fizeram as afirmações veementes que Temer, Maia, e Calheiros fizeram no domingo (29), parecer tão consistente quanto um balão cheio de ar, e, que a simples pressão de um pequeno alfinete, faz com que ele murche ainda mais rapidamente do que foi cheio.

Nesta mesma semana passada, Renan Calheiros se tornou réu no Supremo Tribunal Federal, pelo crime de peculato, crime advindo da apropriação de recursos públicos. Há quase quatro anos, Renan era denunciado naquela suprema instituição pela Procuradoria-Geral da República. Essa instituição acusava Renan de ter pagado despesas para uma filha que ele teve com a jornalista Mônica Veloso. As despesas foram repassadas a Mônica pela empreiteira Mendes Junior. Na época, em 2007, Renan ocupava o cargo de presidente do Senado, cargo ao qual renunciou quando o escândalo veio à tona.

Ainda naquela ocasião, em sua defesa, Renan alegou que o dinheiro para pagar as despesas da filha teriam sido oriundas da venda de gado, e de empréstimo de uma locadora de veículos. O Ministério Público, entretanto, rebateu essa tese afirmando que as notas apresentadas por Renan eram falsas e que o empréstimo era fictício.

E aqui estamos nós, com um presidente do Senado réu no Supremo Tribunal Federal em um processo por corrupção, e investigado em outros doze. E este blog Cottidianos, pergunta, senhores e senhoras, que legitimidade tem os nossos governantes para conduzir os destinos de nossa nação? Que legitimidade tem eles para conduzir os nossos destinos, se a grande maioria deles está metido dos pés a cabeça no lodaçal da corrupção? É certo que a legitimidade lhes foi confiada pelo voto direto, mas foi para nos governar, para governar o nosso país, e não para desgovernar os nossos sonhos de futuro, nem muito menos para desgovernar a locomotiva Brasil. Se assim ele agem, não são dignos, nem de nossos votos, nem de governar nosso país. Senhores e senhoras, leitores e leitoras, se os nossos políticos tem a corrupção e suas práticas devassas como irmã e aliada, que fazem eles em nossas casas legislativa e executivas?

Por essas e outras, as ruas do Brasil voltaram a gritar neste domingo (04).

Por todo o país o povo saiu às ruas. Foi a primeira grande manifestação popular ocorrida na era Temer. E os gritos não foram de “Fora Temer”, pelo menos não ainda...

O povo foi às ruas, justamente, contra a covardia que os deputados fizeram na madrugada, quando votaram desconfigurando quase por completo as 10 Medidas contra a Corrupção.

E também dessa vez, destaca-se o papel das redes sociais como grande agregadora e aliada das grandes manifestações populares. Dado o alcance das redes sociais, a quantidade de pessoas nas ruas ainda não faz jus a esse alcance, mas o tanto de pessoas que participam já é passível de pressão e mudança, mas se quisermos, realmente, de fato, mudar o Brasil, precisamos encher às ruas de gente que lute, e que compreenda os motivos pelos quais está lutando.

As manifestações foram organizadas pelos movimentos; Vem Pra Rua, Na Rua, e Brasil Livre.

E pelas ruas de todo o país o povo gritou: “FORA RENAN CALHEIROS” “FORA RODRIGO MAIA”, “FORA CORRUPTOS”. E os manifestantes eram incisivos: querem a aprovação do pacote das 10 Medidas contra a Corrupção, conforme foi apresentada pelo Ministério Público Federal, e conforme finalizada no relatório de Lorenzeti. Com igual indignação, pediam o fim dos inúmeros privilégios oferecidos a si mesmos pelos deputados e senadores, e a rejeição do Projeto de Lei de Abuso de Autoridade, projeto esse que, na verdade, é uma tentativa de amordaçar as mãos do judiciário, e frear o poderoso trem chamado Operação Lava Jato.

O foco dessa vez foi o Congresso Nacional. Mas não pense o senhor Temer que possa ficar despreocupado. Muito pelo contrário... Temer só escapou dessa vez, justamente, pelo discurso de domingo, que acabou soando vazio com o desenrolar dos fatos no decorrer da semana. Se não fosse isso o discurso de domingo, o nome dele também estaria em faixas e bonecos espalhados por todo país. É bom o Senhor presidente ficar ao lado do povo, caso contrario, poderá acabar na boca dele.

É claro que não houve apenas gritos de protestos nas manifestações de hoje. Houve muitos gritos e atos de apoio, ao juiz Sérgio Moro, aos promotores do Ministério Público, e à Operação Lava Jato. Afinal, a luta contra a corrupção, não é apenas uma luta do Sérgio Moro, nem do MP, mas é uma luta de toda a sociedade brasileira.

Um fato que chamou a atenção nas manifestações deste domingo, foi a ausência dos grupos de esquerda. Eles que foram tão ativos e incisivos quanto a questão de tratar o impeachment como um golpe, é estranho que não tenham ido às ruas neste domingo. Não se viu bandeiras vermelhas, apenas bandeiras do Brasil. Isso talvez se explique pelo fato de que, neste domingo, às ruas gritavam contra a corrupção, clamavam por honestidade e ética. Talvez o silêncio das esquerdas se explique pelo fato de que esses ideais nobres talvez se choquem com o ideário deles. Talvez a luta contra a corrupção ainda seja uma luta que incomoda a alguns setores da sociedade. De qualquer modo, se eles não quiserem lutar por esses ideais, com certeza, milhões de brasileiros abraçarão a causa.

Para finalizar, um recado: Senhores políticos, a sociedade brasileira está de olho em vocês.

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